🏴☠️ No final do século XVI, as vilas de Santos e São Vicente foram palco de episódios dramáticos relacionados às disputas marítimas entre as potências europeias. Entre esses acontecimentos, destaca-se a incursão do corsário inglês Thomas Cavendish, cuja expedição atacou a região, saqueou propriedades, incendiou embarcações e provocou medo entre os moradores. A invasão, tradicionalmente associada à noite de Natal de 1591, tornou-se um dos episódios mais conhecidos da história colonial da Baixada Santista, embora as fontes históricas apresentem divergências sobre algumas datas e detalhes.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
🌎 O contexto histórico: A União Ibérica e os conflitos marítimos
Em 1580, após uma crise sucessória em Portugal, o rei Filipe II da Espanha assumiu também a Coroa portuguesa, iniciando a chamada União Ibérica (1580–1640). Durante esse período, os domínios portugueses passaram a integrar a mesma monarquia que governava os territórios espanhóis.
A Inglaterra, rival da Espanha e envolvida em conflitos marítimos com a monarquia hispânica, passou a atacar embarcações, portos e possessões ultramarinas ligadas a essa Coroa. Nesse cenário, corsários ingleses encontraram oportunidades para saquear navios mercantes, obter mantimentos e capturar mercadorias valiosas.
É importante distinguir corsários e piratas. Os corsários atuavam, em princípio, com autorização de um governo para atacar embarcações e interesses de potências inimigas. Os piratas, por sua vez, praticavam ataques sem essa autorização. Na prática, porém, a atuação dos corsários podia envolver saques e violência semelhantes aos associados à pirataria.
A posição estratégica do litoral paulista, com seus portos, engenhos de açúcar e pequenos núcleos urbanos, tornava a região vulnerável a incursões estrangeiras.
⚓ Quem foi Thomas Cavendish?
Thomas Cavendish (1560–1592) foi um navegador e corsário inglês que ganhou notoriedade ao realizar uma circum-navegação do globo entre 1586 e 1588. Nascido em Suffolk, na Inglaterra, pertencia a uma família de recursos e, ainda jovem, aproximou-se dos círculos interessados na expansão marítima inglesa.
Em sua primeira grande expedição, comandou três embarcações: Desire, Content e Hugh Gallant. Durante a viagem, atacou navios e povoações sob domínio espanhol, especialmente na costa do Pacífico americano.
Um dos episódios mais lucrativos dessa expedição foi a captura, em novembro de 1587, do galeão espanhol Santa Ana, que transportava mercadorias provenientes do comércio entre as Filipinas e a América espanhola. A carga incluía ouro, sedas, tecidos e outros produtos de elevado valor.
Cavendish retornou à Inglaterra em 1588, após completar sua viagem ao redor do mundo. O êxito da expedição consolidou sua fama e reforçou o interesse inglês em novas incursões marítimas.
Entretanto, sua segunda viagem, iniciada em 1591, teria um desfecho muito diferente.
🧭 A primeira circum-navegação e a experiência no Atlântico
A primeira expedição de Cavendish partiu de Plymouth, na Inglaterra, em julho de 1586. Seu objetivo era percorrer o globo em direção oeste, atravessando o estreito de Magalhães e alcançando o oceano Pacífico.
Durante a viagem, a frota enfrentou dificuldades de navegação, escassez de recursos e conflitos com os espanhóis. Ao longo da costa americana do Pacífico, os ingleses capturaram embarcações e saquearam localidades, obtendo alimentos, água e mercadorias.
Após a captura do Santa Ana, Cavendish atravessou o Pacífico e passou por regiões da Oceania e do Sudeste Asiático, aproveitando paradas para reabastecer os navios. A expedição retornou à Inglaterra em setembro de 1588, com o navio Desire e parte reduzida da tripulação original.
O sucesso financeiro e político dessa viagem ajudou a projetar Cavendish como um dos navegadores ingleses mais conhecidos de seu tempo. Também contribuiu para alimentar sua ambição de realizar uma nova expedição.
🏴☠️ A segunda expedição e a chegada ao litoral paulista
Em agosto de 1591, Thomas Cavendish iniciou uma segunda viagem com uma frota maior. Entre seus objetivos estavam repetir o percurso ao redor do mundo, atacar interesses espanhóis e obter recursos para sustentar a expedição.
A viagem, contudo, foi marcada por dificuldades de abastecimento, problemas de organização e tensões entre os integrantes da frota. Ao alcançar o litoral brasileiro, os ingleses procuraram abrigo e suprimentos antes de tentar avançar novamente em direção ao estreito de Magalhães.
Foi nesse contexto que Santos e São Vicente se tornaram alvos da expedição. Os núcleos coloniais possuíam importância econômica regional, principalmente em razão do porto, das atividades comerciais e dos engenhos de açúcar.
Os relatos históricos associam a chegada da frota à região a uma operação planejada para aproveitar a vulnerabilidade das defesas locais e surpreender os moradores.
🌙 A invasão de Santos na noite de Natal
A narrativa mais conhecida sobre o ataque situa o episódio na noite de 24 para 25 de dezembro de 1591, quando parte da população de Santos estava reunida para as celebrações religiosas do Natal.
De acordo com relatos históricos reproduzidos posteriormente, três embarcações da esquadra inglesa participaram da investida inicial: A Roebuck, comandada pelo capitão Cocke; a Desire, associada ao capitão John Davies; e a Black Pinese, cujo nome também aparece com grafias diferentes nas fontes.
Cavendish teria permanecido inicialmente afastado da linha de ataque, nas proximidades da ilha de São Sebastião, enquanto confiava ao capitão Cocke a liderança da operação contra Santos.
Aproveitando a surpresa e as limitações das defesas locais, os invasores conseguiram entrar na região portuária. Parte dos homens desembarcou e avançou sobre a povoação, provocando pânico entre os moradores. Casas e instalações foram saqueadas, e os ingleses assumiram o controle de pontos importantes da vila.
A tradição histórica relaciona o ataque às celebrações natalinas realizadas na igreja da Misericórdia, nas proximidades do Outeiro de Santa Catarina. A localização e a denominação dos edifícios religiosos daquele período, entretanto, devem ser compreendidas à luz das transformações urbanas ocorridas ao longo dos séculos.
O episódio ficou conhecido como um dos ataques mais violentos sofridos pela antiga povoação santista durante o período colonial.
🔥 Saques, incêndios e destruição na vila
Após a entrada dos corsários, a população enfrentou saques, depredações e a destruição de parte das instalações da vila. Os relatos mencionam o roubo de mantimentos, bens de valor, armas, mercadorias e embarcações encontradas no porto.
Também há referências a incêndios em casas, navios e engenhos de açúcar. Essas ações atingiram uma economia colonial que dependia da produção agrícola, do transporte marítimo e de redes comerciais ainda em consolidação.
Entre os episódios mais conhecidos está o desaparecimento da imagem de Santa Catarina de Alexandria, que, segundo a tradição, teria sido retirada de sua capela e lançada às águas da região. Relatos posteriores afirmam que a imagem foi recuperada por pescadores muitas décadas depois, por volta de 1680. Esse acontecimento integra a memória histórica e religiosa de Santos, embora os detalhes devam ser atribuídos às narrativas que o registraram.
Os invasores também teriam tomado moradores como reféns e ocupado edifícios utilizados pelas autoridades e instituições religiosas. Diante da violência, parte da população abandonou suas casas e procurou refúgio em áreas afastadas, trilhas e matas próximas.
É importante reconhecer que os relatos disponíveis foram produzidos em épocas distintas e nem sempre apresentam informações coincidentes. Ainda assim, eles convergem ao descrever a incursão como um episódio de grande impacto para a comunidade local.
🏘️ São Vicente também foi atingida
A ofensiva não se restringiu a Santos. Os relatos históricos também associam a expedição de Cavendish a ataques contra São Vicente, uma das primeiras povoações portuguesas estabelecidas no território que viria a formar o Brasil.
Parte dos homens teria avançado por terra, atingindo propriedades rurais e engenhos de açúcar nos arredores. Entre os estabelecimentos relacionados a essa história está o Engenho São Jorge dos Erasmos, importante testemunho da atividade açucareira e da organização econômica colonial na região.
A destruição de instalações produtivas e o saque de propriedades agravavam as dificuldades de abastecimento e comprometiam a segurança dos moradores. Além dos danos materiais, a violência provocava deslocamentos, medo e interrupções nas atividades cotidianas.
Não se deve, contudo, atribuir toda a transformação econômica e urbana de São Vicente exclusivamente ao ataque de Cavendish. A evolução das duas vilas envolveu diversos fatores políticos, econômicos, geográficos e administrativos ao longo do período colonial.
🛡️ A resistência dos moradores e a defesa do território
Apesar do impacto inicial, a ocupação não significou ausência completa de resistência. Segundo o historiador Francisco Martins dos Santos, moradores e aliados indígenas organizaram ações contra os invasores, incluindo emboscadas e investidas destinadas a enfraquecer o controle inglês.
Entre os nomes mencionados nos relatos históricos estão João de Abreu e Diogo de Unhate, associados à defesa da região em diferentes episódios de conflito. As fontes também fazem referência à participação de indígenas aliados dos colonos, cuja atuação foi importante nas disputas locais.
É necessário lembrar que a sociedade colonial era marcada por relações complexas, incluindo alianças, conflitos, escravização e exploração do trabalho indígena. Por isso, a participação dos povos originários não deve ser tratada como um bloco homogêneo: diferentes grupos e lideranças tomavam decisões de acordo com suas próprias circunstâncias e interesses.
A resistência local demonstra que, embora as vilas fossem vulneráveis a ataques marítimos, seus habitantes não permaneceram necessariamente passivos diante da ocupação.
⛪ A imagem de Santa Catarina e a memória do ataque
O episódio envolvendo a imagem de Santa Catarina de Alexandria tornou-se um dos elementos mais conhecidos da memória histórica de Santos.
Segundo a tradição, a imagem foi lançada ao estuário durante os saques e permaneceu desaparecida por várias décadas, até ser encontrada por pescadores. A narrativa associa o objeto religioso à reconstrução da memória comunitária depois de um período de violência e insegurança.
O Outeiro de Santa Catarina também ocupa lugar importante na história urbana santista. A área está ligada aos primeiros tempos da povoação e à formação do núcleo colonial que, ao longo dos séculos, se transformou na cidade portuária de Santos.
Essas referências mostram como os episódios de conflito ultrapassam a dimensão militar: Eles também permanecem presentes na memória coletiva, nas tradições religiosas, na historiografia e na preservação do patrimônio cultural.
⚔️ O retorno de Cavendish e a derrota dos ingleses
Depois de deixar a região, a expedição continuou enfrentando dificuldades. Os planos de atravessar novamente o estreito de Magalhães foram prejudicados por condições marítimas adversas, problemas de abastecimento, doenças e conflitos entre os tripulantes.
Relatos históricos indicam que Cavendish retornou ao litoral brasileiro em 1592, quando tentou obter novos suprimentos e recuperar o controle da situação. Dessa vez, porém, os moradores estavam mais preparados para enfrentar os desembarques.
A tradição historiográfica sobre o episódio menciona uma investida de aproximadamente 25 ingleses, comandados por oficiais da expedição, que teriam sido surpreendidos pela resistência local. A ação teria provocado numerosas baixas entre os invasores, frustrando a tentativa de abastecimento.
Os relatos associam os combates à participação de moradores e aliados indígenas, que utilizaram o conhecimento do terreno para enfrentar os desembarcados. Embora o número exato de combatentes e os detalhes da luta variem conforme a narrativa consultada, o episódio é lembrado como uma importante reação à incursão anterior.
A derrota agravou a situação da expedição, que já sofria com a perda de homens, embarcações e recursos.
🌊 As últimas tentativas e a morte de Thomas Cavendish
Após os reveses no litoral paulista, Cavendish prosseguiu com a expedição, buscando novos pontos de abastecimento. Os relatos mencionam tentativas de ataque na região de São Sebastião, na Ilha Grande e no atual estado do Espírito Santo.
Em Vitória e arredores, os ingleses também enfrentaram resistência. A sequência de fracassos, somada à fome, às doenças e à deterioração das condições dos navios, comprometeu definitivamente a viagem.
Thomas Cavendish morreu no mar em 1592, aos 31 anos, durante a tentativa de retornar à Inglaterra. As circunstâncias exatas de sua morte não são conhecidas com segurança.
Um dos sobreviventes associados à expedição foi Anthony Knivet, marinheiro que permaneceu no Brasil e posteriormente relatou suas experiências. Seus registros constituem uma fonte histórica relevante para o estudo das viagens, dos conflitos e das relações sociais no território colonial, embora devam ser analisados criticamente, como qualquer testemunho histórico.
A trajetória de Cavendish terminou muito distante do sucesso alcançado em sua primeira circum-navegação. A segunda expedição, marcada por perdas e fracassos, tornou-se um exemplo dos riscos enfrentados pelas viagens marítimas de longa distância no século XVI.
📜 1588, 1590 ou 1591? A controvérsia sobre a data do ataque
Um dos aspectos mais importantes para compreender a passagem de Thomas Cavendish pelo litoral paulista é a divergência entre as datas apresentadas pelas fontes históricas.
O material historiográfico reunido sobre o episódio apresenta diferentes referências cronológicas:
- 1588: data mencionada em algumas narrativas posteriores, embora a cronologia conhecida da primeira viagem de Cavendish indique seu retorno à Inglaterra naquele ano.
- 1590: data atribuída ao ataque em uma passagem da obra de Francisco Martins dos Santos, conforme a transcrição consultada.
- 1591: data tradicionalmente associada à invasão de Santos durante o Natal, relacionada à segunda expedição de Cavendish, iniciada naquele ano.
A divergência aparece inclusive nas referências bibliográficas citadas por pesquisadores da história santista. Por isso, é importante evitar apresentar todas essas datas como se fossem equivalentes ou plenamente confirmadas.
A cronologia geral da segunda expedição favorece a associação do ataque a dezembro de 1591, seguida das tentativas posteriores de obter suprimentos em 1592. Entretanto, a conferência das edições originais e dos documentos primários é necessária para esclarecer definitivamente as divergências presentes nas transcrições históricas.
A Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, no atual município de Guarujá, integra o contexto mais amplo da defesa do litoral santista. Sua história está relacionada às preocupações militares e estratégicas da região, embora a evolução das fortificações tenha ocorrido ao longo de diferentes momentos da colonização.
🏰 Os ataques estrangeiros e a defesa do litoral santista
A incursão de Cavendish não foi o único episódio de conflito marítimo enfrentado pela região durante o período colonial.
Em 1583, a esquadra inglesa associada a Edward Fenton esteve no litoral santista. Os relatos históricos descrevem tensões com os moradores e autoridades locais, em um contexto de preocupação crescente com a presença de embarcações estrangeiras.
Esses episódios contribuíram para reforçar a percepção de que os portos, as povoações e os engenhos da costa precisavam de maior proteção. A construção e o aperfeiçoamento das fortificações fizeram parte das respostas adotadas ao longo do tempo, embora não tenham sido consequência de um único ataque.
Em 1615, décadas depois, a região voltou a enfrentar uma incursão estrangeira, dessa vez relacionada ao corsário holandês Joris van Spilbergen, cuja esquadra atacou propriedades e engenhos do litoral.
A sucessão desses episódios demonstra a importância estratégica da Baixada Santista nas rotas marítimas e nas disputas entre potências europeias durante os séculos XVI e XVII.
🗺️ O legado histórico de Cavendish em Santos e São Vicente
A passagem de Thomas Cavendish pelo litoral paulista representa um capítulo significativo da história colonial brasileira. Seus efeitos foram sentidos na segurança das povoações, na economia açucareira, nas relações entre os habitantes e na necessidade de proteger as rotas marítimas.
A história também permite compreender que Santos e São Vicente, embora próximas geograficamente, tiveram trajetórias urbanas e econômicas próprias. Os ataques estrangeiros fizeram parte de um conjunto mais amplo de transformações, disputas e estratégias de ocupação do território.
Atualmente, a preservação de lugares históricos, como o Outeiro de Santa Catarina, a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande e o Engenho São Jorge dos Erasmos, contribui para manter viva a memória dos primeiros séculos da colonização.
Conhecer essa história é valorizar o patrimônio cultural da Baixada Santista, compreender os conflitos que marcaram a formação do território e reconhecer a importância da pesquisa histórica para distinguir fatos documentados, interpretações historiográficas e tradições transmitidas ao longo das gerações.
📚 Fontes e referências para aprofundamento
- SANTOS, Francisco Martins dos; LICHTI, Fernando Martins. História de Santos: Poliantéia Santista. Santos, 1986. Referência citada no material histórico consultado.
- FRIGERIO, Ângela Maria G.; ANDRADE, Wilma Therezinha F. de; OLIVEIRA, Yza Fava de. Santos: um encontro com a história e a geografia. Obra citada no material de referência.
- BARROSO, Gustavo. Segredos e revelações da História do Brasil. Obra mencionada nas narrativas sobre a invasão de Santos.
- HAKLUYT, Richard. The Principal Navigations, Voyages, Traffiques and Discoveries of the English Nation. Coleção histórica que reúne relatos de viagens marítimas inglesas.
- KNIVET, Anthony. Relatos de suas experiências no Brasil e de sua participação na expedição de Thomas Cavendish.
Nota editorial: As datas, os nomes das embarcações e os detalhes dos ataques apresentam divergências entre si; por isso, as informações controversas foram identificadas como relatos ou tradições historiográficas, e não como fatos definitivamente comprovados.



