A capacidade reprodutiva da floresta está ligada à presença dos pássaros.

Cientistas brasileiros comprovam uma lógica catastrófica: o desaparecimento de aves maiores da Mata Atlântica leva à diminuição no número, na densidade e na resistência das árvores.

Darwin, admirado com as cores e o sabor das frutas tropicais, escreveu que as frutas não passam de iscas sofisticadas, aperfeiçoadas ao longo de milhares de anos. Sua função é atrair pássaros, que, ao ingerir os frutos e evacuar as sementes, facilitam a dispersão das plantas ao redor do planeta. O que foi descoberto agora é um novo mecanismo que entrelaça o destino das árvores ao dos pássaros. Na Tanzânia, as planícies do Serengueti são cortadas por rios em cujas margens estão as florestas. Nos últimos 60 anos, 80% destas florestas foram perdidas.

A morte delas vem sendo estudada cuidadosamente. Entre 1966 e 2006, a população de pássaros, a densidade de árvores, a quantidade de sementes produzida, sua taxa de germinação e a sobrevivência dos brotos foram monitoradas em 18 blocos de florestas, em diferentes estágios de degradação. O objetivo era compreender por que as florestas não regeneravam, mesmo quando protegidas. Os cientistas observaram que, quando a copa da floresta fica menos densa, o número de espécies de pássaros diminui bruscamente.

As 33 espécies que habitam as matas densas se reduzem a 18 nas florestas ralas. Grande parte dessa queda se deve ao desaparecimento dos pássaros que se alimentam de frutos. Ao comparar as sementes coletadas no solo de florestas densas e ralas, os cientistas descobriram que nas florestas densas 70% das sementes estavam sem a parte da fruta que encobre a semente (o pericarpo), o que indica que essas sementes haviam sido ingeridas por pássaros. Nas florestas ralas, por causa da ausência de pássaros, somente 3% das sementes estavam sem o pericarpo.

A grande maioria ainda estava no interior dos frutos. Com o objetivo de avaliar sua taxa de germinação e “pegamento” (capacidade de gerar uma plana de mais de 5 cm), as sementes coletadas em florestas em diferentes estágios de degradação foram semeadas. O que foi observado é que as sementes ainda recobertas pela parte externa da fruta não germinaram. As “descascadas” pela ação dos pássaros germinavam facilmente. Quando foram investigar o que impedia a germinação de sementes envolvidas por pericarpo, os ecologistas descobriram que, ao cair no solo, as sementes com pericarpo eram rapidamente atacadas pelos besouros, o que resultava na sua morte. Sementes sem pericarpo ou com pericarpo, mas coletadas antes do ataque dos besouros, tinham alta taxa de germinação.

A conclusão é de que os pássaros, ao ingerir a fruta e se alimentar do pericarpo, tornam as sementes resistentes ao ataque dos besouros, o que garante sua sobrevivência. Quando se inicia a degradação da floresta e a quantidade de pássaros diminui, grande parte das sementes cai no solo antes de serem comidas pelos pássaros. Essas sementes são presas fáceis para os besouros, que impedem o aparecimento de uma nova árvore. O resultado é que a redução da quantidade de pássaros dispara um ciclo vicioso em que menos sementes viáveis são produzidas, o que resulta em uma menor reposição de árvores na floresta. A conclusão é que a própria capacidade reprodutiva da floresta está intrinsecamente ligada à presença dos pássaros. Se os pássaros já dependiam das florestas, agora sabemos que as florestas dependem dos pássaros.

Fonte..:: Veja / Painel Florestal

icone do conteúdo

Leia também

Fique por dentro

Ver todos os posts

Répteis da Mata Atlântica: Conheça o Teiú (Salvator merianae)

O teiú (Salvator merianae), anteriormente conhecido cientificamente como Tupinambis merianae, é um dos maiores e mais impressionantes lagartos da fauna...

Veneno de Jararaca pode ser Arma Contra a Doença de Chagas

Em abril de 1909, o jovem cientista Carlos Chagas (1878-1934), então pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, comunicou ao mundo científico...

Guaxe: O Arquiteto Barulhento da Mata Atlântica

O Guaxe (Cacicus haemorrhous), também conhecido como japiim-do-mato ou japira, é uma das aves mais notáveis das nossas florestas. Pertencente...

Brejaúva: A Palmeira dos Espinhos Ornamentais e dos Brinquedos Naturais

A Brejaúva (Astrocaryum aculeatissimum) é uma das palmeiras mais singulares e imponentes da nossa floresta. Com um visual que mistura...

Açaizeiro: A palmeira que alimenta a Amazônia — 90% do fruto é caroço e apenas uma pequena parte se transforma em polpa

Conheça o açaizeiro, a composição do fruto do açaí, sua importância nutricional e econômica e as técnicas tradicionais de colheita sustentável na Amazônia.

Macaé: O Leão-Marinho que Virou Símbolo Afetivo de Santos e da Baixada Santista + Mascote para Colorir

Durante décadas, o nome “Macaé” emocionou milhares de crianças, turistas e moradores de Santos. Muito mais do que um animal...

Fundação SOS Mata Atlântica Lança Edital para Proteção do Mar e Costa

A Fundação SOS Mata Atlântica lançou um edital que destina até R$ 300 mil para projetos de conservação das zonas...

Espécies Invasoras: Uma Invasão Silenciosa em São Paulo

Os poucos redutos de florestas nativas da cidade de São Paulo estão ameaçados por um inimigo poderoso, que avança sem...

Canário-da-Terra (Sicalis flaveola): O Símbolo da Alegria nos Campos Brasileiros

O Canário-da-Terra (Sicalis flaveola) é uma das aves mais conhecidas e admiradas do Brasil. Famoso por sua plumagem amarela vibrante...