Em 10 de agosto de 1958, a antiga Estrada Velha de Santos, também conhecida como Caminho do Mar, foi palco de uma importante competição automobilística: a II Subida de Montanha, uma prova de velocidade que reuniu pilotos, carros esportivos e grande público na Serra do Mar.
Por ..:: Renato Marchesini: Guia de Turismo, Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
Fotos: Engenheiro Jorge Lettry, chefe da equipe Vemag de Competição – Parte 1
A competição aconteceu em uma época em que os caminhos que ligavam São Paulo à Baixada Santista eram fundamentais para o deslocamento entre o planalto e o litoral. A moderna Rodovia dos Imigrantes ainda estava muito distante de existir, e o antigo Caminho do Mar fazia parte da rotina de quem percorria a Serra do Mar.
🏎️ Uma corrida pelas curvas da Serra do Mar
Em 1958, Roberto Carlos ainda não havia composto “As Curvas da Estrada de Santos”, lançada somente em 1969. Ainda assim, é impossível não associar a atmosfera daquela antiga estrada à famosa canção que, anos depois, ajudaria a eternizar a imagem das curvas da ligação entre São Paulo e Santos.
Observação: a música “As Curvas da Estrada de Santos”, de Roberto Carlos, foi lançada em 1969.
A II Subida de Montanha tinha uma proposta bastante semelhante às competições de subida realizadas em outros pontos do estado de São Paulo. O objetivo era simples e desafiador: percorrer o trecho de aproximadamente 7,2 quilômetros no menor tempo possível, enfrentando curvas, aclives e as condições particulares da Serra do Mar.
🚗 Carros normais e carros especiais
O regulamento dividia os participantes em duas grandes classes: automóveis normais e automóveis especiais.
Os carros classificados como normais eram modelos de produção, ou seja, veículos derivados daqueles vendidos ao público. O preparo mecânico era permitido, mas deveriam ser preservadas suas principais características originais.
Essa classe estava dividida em quatro categorias:
- até 250 cm³;
- até 1.300 cm³;
- até 2.000 cm³;
- Força Livre.
Já os chamados carros especiais eram verdadeiros veículos de competição. Podiam apresentar modificações mais profundas em motor, chassi, suspensão e sistema de freios.
Eles eram divididos em:
- até 2.500 cm³;
- Força Livre.
Fotos: Engenheiro Jorge Lettry, chefe da equipe Vemag de Competição – Parte 2
🌫️ A neblina muda o cenário da competição
No dia 10 de agosto de 1958, o clima inicialmente parecia favorável. O público se espalhou ao longo do trajeto, ocupando pontos estratégicos da estrada para acompanhar de perto a passagem dos competidores. A atmosfera lembrava aquilo que atualmente associamos às provas de rali, com espectadores posicionados nas margens do percurso.
A largada estava prevista para 8h, mas acabou acontecendo somente às 10h15.
O motivo foi a preocupação dos organizadores com as condições climáticas. Apesar da espera, o tempo não melhorou como esperado. Da metade do percurso até o alto da serra, especialmente a partir da conhecida Curva da Morte, a neblina tomou conta da estrada, reduzindo significativamente a visibilidade.
Mesmo diante das dificuldades, a competição foi realizada.
🏆 Rafael Gargiulo estabelece o recorde
Na categoria Força Livre dos carros especiais, o grande destaque foi Rafael Gargiulo.
Pilotando um monoposto equipado com motor Ford 8BA, ele completou o percurso em 7 minutos e 13 segundos, estabelecendo o recorde da pista.
Na categoria especial de até 2.500 cm³, a vitória ficou com Plínio de Cerqueira Leite, pilotando um Volkswagen especial, um protótipo de aparência semelhante ao famoso Porsche 550 Spyder.
Seu tempo foi de 7 minutos e 51 segundos.
🚘 Fuscas, DKWs, MGs, Porsches e outros protagonistas
A categoria dos automóveis normais foi a que reuniu o maior número de participantes.
Entre os veículos presentes estavam modelos que já faziam parte do cotidiano dos brasileiros e também automóveis esportivos importados.
Entre eles estavam:
- DKW;
- Volkswagen Fusca;
- MG;
- Porsche;
- Simca;
- Fiat 1100;
- Citroën 11 Légère.
Na categoria de até 250 cm³, o vencedor foi Álvaro Andrade, pilotando uma Romi Isetta.
Na categoria até 1.300 cm³, a vitória ficou com Flavio Del Mese, ao volante de um DKW.
Entre os carros de até 2.000 cm³, o Porsche de Guy Whitney foi o mais rápido.
Na categoria Força Livre, o vencedor foi Waldemyr Costa, com um Nash-Healey.
A diversidade de automóveis demonstra como as competições automobilísticas brasileiras já reuniam, naquela época, veículos de diferentes origens, características e níveis de preparação.
👨🔧 Pilotos que ajudaram a construir a história do automobilismo brasileiro
Além dos vencedores, a prova contou com participantes que posteriormente se tornariam conhecidos no automobilismo e em outras áreas.
Entre eles estava Anísio Campos, importante designer brasileiro, que participou pilotando um Simca Conversível de 1952.
Também estiveram presentes Hans Ravache e Godofredo Viana Filho.
Outro personagem de destaque foi Flavio Del Mese, que saiu do Rio Grande do Sul dirigindo seu DKW 1951 para participar da competição.
A prova também contou com a presença de Wilson Fittipaldi, que fez a narração pela Rádio Panamericana.
🎥 A corrida também virou filme
A II Subida de Montanha não ficou registrada apenas na memória dos espectadores e participantes.
Primo Carbonari, conhecido por seus registros jornalísticos cinematográficos, realizou um filme sobre a competição, permitindo que imagens da prova fossem posteriormente exibidas em salas de cinema de diversas regiões do Brasil.
Em uma época anterior à televisão ocupar um espaço tão amplo no cotidiano dos brasileiros, os cinejornais eram uma importante forma de divulgar acontecimentos esportivos, políticos, culturais e sociais.
🪖 Capacete: uma exigência que eliminou participantes
Nem todos os pilotos que pretendiam competir conseguiram largar.
O motivo pode parecer bastante óbvio atualmente: a falta de capacete adequado.
Naquele período, porém, as exigências de segurança ainda estavam em processo de consolidação no automobilismo brasileiro. A comissão organizadora manteve uma postura rigorosa e seguiu as regras estabelecidas pela FIA – Federação Internacional de Automobilismo.
A competição contou ainda com a supervisão da Comissão Desportiva Regional do ACB – Automóvel Clube Brasileiro, representado por Angelo Juliano e Osvaldo Fanucchi, além do acompanhamento da Polícia Rodoviária.
A preocupação com equipamentos de segurança demonstra que, mesmo em uma época em que o automobilismo era muito mais rudimentar do que atualmente, já existiam normas destinadas a reduzir os riscos enfrentados pelos competidores.
🏅 Troféus e medalhas foram entregues em São Paulo
Depois da competição, os vencedores receberam seus respectivos prêmios, troféus e medalhas.
A cerimônia de entrega aconteceu na sede do ACB, localizada na rua Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo.
A competição, portanto, não representou apenas um acontecimento esportivo isolado. Ela também fazia parte do processo de consolidação do automobilismo de competição no Brasil.
📜 Jorge Lettry e a memória da prova
Grande parte das informações sobre a competição foi preservada graças ao material gentilmente cedido pelo engenheiro Jorge Lettry, que esteve presente na prova como repórter do jornal HP.
Lettry teve posteriormente uma trajetória marcante no automobilismo brasileiro, tornando-se chefe da equipe Vemag de Competição durante a década de 1960.
As fotografias e informações utilizadas no registro histórico pertenciam ao seu acervo pessoal.
Jorge Lettry faleceu aos 78 anos, deixando importante contribuição para a memória do automobilismo brasileiro.
🛣️ Do antigo Caminho do Mar à moderna Rodovia dos Imigrantes
Hoje, quem percorre a ligação entre São Paulo e a Baixada Santista encontra uma realidade completamente diferente daquela de 1958.
A Rodovia dos Imigrantes, inaugurada décadas depois, representa uma das principais obras rodoviárias construídas para superar a Serra do Mar e facilitar o deslocamento entre o planalto paulista e o litoral.
Mas a história da ligação entre São Paulo e Santos não começou com ela.
Antes da Imigrantes, antes mesmo da Via Anchieta assumir protagonismo, o Caminho do Mar já era cenário de aventuras, viagens, desafios e, naquele agosto de 1958, velocidade.
As curvas da antiga estrada receberam pilotos dispostos a desafiar o cronômetro, enfrentando uma subida de pouco mais de sete quilômetros, carros preparados e uma inesperada parede de neblina.
🏁 Uma lembrança sobre quatro rodas
Na próxima vez que você passar pela estrada de Santos, especialmente pelas modernas vias que atravessam a Serra do Mar, vale imaginar como era aquele cenário há quase sete décadas.
Em 1958, pilotos e espectadores se reuniram no antigo Caminho do Mar para acompanhar uma competição que ajudou a escrever um capítulo da história do automobilismo brasileiro.
Muito antes de a música de Roberto Carlos transformar as “curvas da Estrada de Santos” em um dos grandes símbolos da cultura popular brasileira, aquelas curvas já eram palco de histórias reais de velocidade, coragem e aventura.
A Serra do Mar também tem uma história automobilística — e ela merece ser lembrada.
🌿 Roteiros pela Serra do Mar e Caminhos do Mar
Quer conhecer a história, a natureza e o patrimônio cultural da Serra do Mar e dos Caminhos do Mar?
Para roteiros de turismo na Serra do Mar / Caminhos do Mar:
🌐 www.r9turismo.com
História, turismo, patrimônio e memória se encontram nas antigas estradas que ligam o planalto ao litoral paulista.





























