O jovem brasileiro não se interessa por política? Ele é realmente um “alienado”? Esse é um tema controverso. O Movimento Escola Sem Partido intencionalmente bate na tecla do desinteresse do jovem por questões políticas e que essa possível discussão em sala de aula seria uma espécie de influência negativa dos professores sobre os alunos. Será que é isso mesmo? Ou há, de forma proposital, um estímulo à censura e à confusão de conceitos e valores com o intuito de fazer com que o jovem não tenha consciência das questões sociais, políticas, econômicas e culturais que o cercam e assim o debate possa ser monopolizado por esses grupos?
Tribuna Livre: ANDRÉ ROCHA SANTOS, Doutor em Sociologia (Unesp) e professor do Instituto Federal de São Paulo, Campus Registro.
Nos últimos anos o aumento da curiosidade dos jovens pela política foi visível. Estimulados pela internet, pelas redes sociais, pelas manifestações de junho de 2013, pelas eleições presidenciais de 2014 e pela ocupação de mais de 190 escolas pelos estudantes contra o plano de “reorganização” da rede estadual paulista em 2015, jovens desempenharam papel decisivo em todas essas discussões. Da mesma forma, nos anos seguintes, não faltaram motivos para os cidadãos brasileiros se manifestarem e darem a sua opinião, a saber: nas manifestações contra ou a favor o impedimento da presidente Dilma Rousseff, nos protestos contra o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, em oposição ao governo Michel Temer e sua agenda política de cortes no orçamento para Educação, Saúde e Previdência.
Em um momento conturbado como o que vivemos atualmente, em que muito se fala sobre e de política, fica evidente como muitas pessoas simplesmente não sabem do que estão falando. Embaraçados pelo incessante disparo de informações vindas principalmente da internet, misturam-se e confundem-se valores caros ao ideal republicano e ao estado democrático em vídeos, artigos, opiniões e declarações muitas vezes antidemocráticas e carregadas de ódio, preconceito e autoritarismo.
Na escola, noções básicas da política como cidadania, democracia, república, ditadura, liberalismo, socialismo, social-democracia, neoliberalismo, movimentos sociais, partidos políticos e outros, são essenciais. A abordagem do que são esses temas e teorias deve servir ao aprendizado e à conscientização. Da mesma maneira, conceitos fundamentais como poder, igualdade, liberdade, tolerância, ética, espaço público, ideologia, consenso, conflito, hegemonia e utopia necessitam servir ao esclarecimento e à compreensão do mundo que os cerca.
A busca desses conhecimentos pode e deve ser abordada com o objetivo de formá-los como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico, ajudando a construir sua identidade social e política. Valorizar o exercício da democracia, a legalidade e a legitimidade do poder, a cidadania, os direitos e deveres do cidadão, os movimentos sociais e as outras formas de participação, ou seja, valorizar a política enquanto prática social, que implica a participação do cidadão nos destinos da sociedade.
Procurar interromper esse debate é duro ataque à liberdade de expressão, além de atitude extremamente autoritária. Na década de 1930, em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda afirmou que a “democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido”. Infelizmente, mais de oitenta anos depois o desentendimento permanece.



