🏨 Hotel dos Bandeirantes: Memória de um dos grandes hotéis da Praia do Gonzaga. Na primeira metade do século XX, a Praia do Gonzaga, em Santos (SP), consolidou-se como um dos principais espaços de lazer, turismo e hospedagem da cidade. Entre os grandes estabelecimentos que marcaram essa paisagem estava o Hotel dos Bandeirantes, inaugurado em 1922, na Avenida Presidente Wilson, nº 5.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
O hotel foi idealizado pelos empresários Miguel Angrisani e Vicente Francisco dos Santos Cruz, que obtiveram, em 1920, o aforamento de um terreno de Marinha junto à União para a implantação do empreendimento. A construção acompanhava o processo de valorização da orla santista e o crescimento da atividade turística associado aos hotéis instalados no Gonzaga e em outras praias da cidade.
🏗️ Uma construção de destaque na paisagem do Gonzaga
Com três pavimentos, o Hotel dos Bandeirantes apresentava uma arquitetura de características ecléticas, estilo bastante presente nas construções de Santos naquele período.
A localização era estratégica. O hotel estava diante da praia e fazia parte de um importante conjunto de estabelecimentos hoteleiros que ajudaram a transformar o Gonzaga em uma das áreas mais frequentadas da cidade.
Na década de 1920, anúncios publicados em jornais já divulgavam o estabelecimento como “Hotel dos Bandeirantes – Restaurante, serviço à la carte”, com endereço na Praia do Gonzaga.
A presença de anúncios em jornais demonstra que o hotel não atendia apenas aos hóspedes. Seu restaurante também procurava atrair moradores e visitantes que circulavam pela região.
🍽️ O térreo reunia serviços, restaurante e espaço de entretenimento
O pavimento térreo concentrava diferentes ambientes destinados ao funcionamento do hotel.
Entre eles estavam cozinha, despensa, rouparia, lavanderia, espaços destinados aos funcionários e a sala de refeições.
O restaurante era um dos destaques do estabelecimento. Segundo registros históricos, o salão possuía 55 mesas e oferecia serviço à la carte, constituindo também um espaço de convivência para quem frequentava a orla.
Nos fundos do hotel havia ainda um cassino, citado nas descrições históricas do estabelecimento como um dos espaços preferidos dos hóspedes.
É importante compreender esse ambiente dentro do contexto da hotelaria e do entretenimento da época. A palavra “cassino”, naquele período, estava associada aos espaços de diversão e sociabilidade existentes em grandes hotéis e estabelecimentos turísticos.
🛏️ Sessenta quartos e uma estrutura voltada ao turismo
Nos dois pavimentos superiores estavam distribuídos aproximadamente 60 quartos, destinados aos hóspedes.
Os registros históricos descrevem os aposentos como amplos e confortáveis para os padrões da época, muitos deles com uma ou duas janelas, mobiliário, lavatórios e telefone privativo — recursos que representavam conforto e modernidade para os padrões hoteleiros dos anos 1920.
Uma curiosidade é que o primeiro andar também possuía pequenos quartos destinados a empregados que acompanhavam seus patrões durante as viagens.
O hotel contava ainda com espaços para conferências, reuniões e eventos, ampliando sua função para além da hospedagem.
Assim, o Hotel dos Bandeirantes participava de uma nova concepção de hotelaria, na qual o estabelecimento não era apenas um lugar para dormir, mas também um espaço de alimentação, lazer, encontros sociais, negócios e eventos.
🌊 O Hotel dos Bandeirantes e a transformação do Gonzaga
O crescimento dos hotéis junto à praia acompanhava a transformação do Gonzaga em uma das áreas mais importantes do turismo santista.
No início do século XX, a orla passou a receber uma quantidade crescente de visitantes e equipamentos destinados ao lazer. Hotéis como o Parque Balneário, Internacional, Palace, Belvedere, Bandeirantes e Atlântico ajudaram a formar uma paisagem turística bastante característica.
Um mapa de Santos de 1954 registra justamente essa concentração de grandes hotéis na região do Gonzaga, indicando o Hotel dos Bandeirantes entre os estabelecimentos situados junto à praia.
A própria paisagem das praias também estava mudando. As antigas cabines de banho, por exemplo, faziam parte da experiência turística da época e aparecem em registros históricos relacionados aos hotéis Belvedere e Bandeirantes.
📸 Hotel Belvedere e Hotel dos Bandeirantes
Os prédios do Hotel dos Bandeirantes, na Praia do Gonzaga. O imóvel da esquerda também foi o antigo Hotel Belvedere, depois formando com o Bandeirantes um conjunto só.
Foto: Acervo José Carlos Silvares/Santos Ontem / Novo Milênio.
A fotografia é especialmente importante para compreender a antiga paisagem da Praia do Gonzaga.
Nela aparecem as construções que fizeram parte do conjunto hoteleiro da região. O edifício à esquerda corresponde ao antigo Hotel Belvedere, que posteriormente passou a formar um conjunto com o Hotel dos Bandeirantes.
Ao fundo e nas proximidades, outros empreendimentos da orla completavam essa paisagem, revelando como o Gonzaga possuía uma verdadeira concentração de hotéis voltados ao turismo de praia.
Registros iconográficos do período ajudam a compreender uma Santos diferente da atual, quando grandes edifícios hoteleiros ocupavam a frente marítima e funcionavam como símbolos da modernização urbana e da expansão do turismo.
📨 Um cartão-postal que atravessou o tempo
Entre os documentos históricos associados ao hotel está um cartão-postal publicitário, utilizado para divulgar o estabelecimento.
O cartão foi postado em 20 de abril de 1926.
Os cartões-postais naquele período: além de servirem para comunicação, também funcionavam como instrumentos de divulgação turística e propaganda comercial. Ao enviar um cartão com a imagem do hotel, o visitante levava para outra cidade uma representação de Santos e, ao mesmo tempo, contribuía para divulgar o destino.
O cartão-postal, portanto, não é apenas uma lembrança pessoal. Para a história urbana e turística, ele pode funcionar como uma fonte documental e iconográfica, permitindo observar edifícios, ruas, praias, publicidade, meios de transporte e diferentes formas de representação da cidade.
🏖️ Um cenário turístico formado por grandes hotéis
A localização do Hotel dos Bandeirantes permite compreender a importância que o Gonzaga alcançou no desenvolvimento turístico de Santos.
Durante décadas, a região reuniu alguns dos principais hotéis da cidade. O Hotel Atlântico, o Belvedere, o Bandeirantes e outros estabelecimentos formavam uma paisagem contínua de hospedagem e lazer junto à praia.
A evolução urbana de Santos também registra a concentração de hotéis no Gonzaga, entre eles o Avenida Palace, Parque Balneário, Belvedere, Bandeirantes e Atlântico.
O Hotel dos Bandeirantes também esteve ligado a acontecimentos que extrapolavam a simples hospedagem. Registros históricos apontam sua utilização por artistas, atletas e equipes esportivas que chegavam a Santos para compromissos e competições.
Um episódio curioso ocorreu em 1922, quando o aviador argentino Fels pousou na Praia do Gonzaga durante uma tentativa de realizar um raid aéreo entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro. A movimentação popular ocorreu justamente nas proximidades do Hotel dos Bandeirantes, demonstrando a importância daquele trecho da praia como espaço de concentração pública.
📉 O declínio e o fim do Hotel dos Bandeirantes
Com o passar das décadas, o cenário da hotelaria santista começou a mudar.
A transformação dos hábitos de viagem, a modernização urbana, as mudanças na ocupação da orla e a perda de importância de determinados modelos de entretenimento contribuíram para modificar o perfil dos antigos hotéis.
Na década de 1950, o Hotel dos Bandeirantes já apresentava sinais de decadência. Posteriormente, o imóvel foi vendido e sua estrutura entrou em processo de deterioração.
Em 1961, começou a demolição do antigo hotel. Anúncios publicados no jornal A Tribuna naquele período registraram inclusive a venda de componentes da antiga construção, como elevador, estruturas de madeira, telhado, vigas, tijolos, portas, janelas, vitrôs, ferro, canos e lavatórios.
A demolição representava mais do que o desaparecimento de um edifício. Era também o encerramento de uma etapa da história da hotelaria e da paisagem turística da Praia do Gonzaga.
🏢 Do antigo hotel ao Edifício dos Bandeirantes
Depois da demolição, o terreno recebeu um novo empreendimento. A Construtora Arena construiu o Edifício dos Bandeirantes, uma torre residencial de nove pavimentos tipo, além do térreo destinado a lojas e sobrelojas.
O novo edifício foi concluído no final da década de 1960 e manteve, no nome, a referência ao antigo hotel.
Segundo registros arquitetônicos, o empreendimento corresponde à obra nº 176 da Construtora Arena e foi construído em 1969.
A substituição mostra uma transformação comum nas cidades brasileiras durante o processo de verticalização: antigos hotéis, casarões e construções de menor altura deram lugar a edifícios residenciais e comerciais.
A paisagem mudou, mas o nome Bandeirantes permaneceu como uma espécie de elo entre duas épocas da cidade.
🏨 Hotel Belvedere, Bandeirantes e Atlântico
Nesta fotografia histórica também permite observar a relação entre os diferentes hotéis existentes naquele trecho da praia.
Cartão Postal de Fotografia Antiga de Santos SP: Hotel Belvedere e Bandeirantes no Bairro do Gonzaga (s.d).
O antigo Hotel Belvedere, posteriormente incorporado ao conjunto do Bandeirantes, aparece ao lado da construção principal. Ambos desapareceram posteriormente da paisagem urbana.
No lado direito da fotografia é possível perceber parte do antigo conjunto do Hotel Atlântico, antes das obras que modificariam sua configuração.
Dessa forma, uma única fotografia registra uma pequena parte da antiga “cidade dos hotéis” que existia no Gonzaga.
📚 Fotografias antigas como patrimônio histórico
Fotografias como essa possuem grande importância para a pesquisa sobre a história de Santos.
Elas permitem observar não apenas os edifícios, mas também a relação entre arquitetura, turismo, praia, publicidade e vida urbana.
O Hotel dos Bandeirantes pode ser analisado sob diferentes perspectivas: história da hotelaria, arquitetura, desenvolvimento urbano, turismo, patrimônio cultural e memória social.
O cartão-postal de 1926, por exemplo, ajuda a compreender como Santos era divulgada aos visitantes. Já as fotografias permitem comparar a antiga paisagem do Gonzaga com a configuração atual.
Por isso, preservar e estudar esses registros é fundamental para compreender as transformações da cidade ao longo do tempo.
🧭 O Hotel dos Bandeirantes nos roteiros de turismo histórico e cultural
Hoje, embora o Hotel dos Bandeirantes não exista mais fisicamente, sua história continua presente na memória urbana de Santos.
Conhecer sua trajetória permite compreender como a Praia do Gonzaga se transformou em um dos principais espaços turísticos da cidade, como funcionava a hotelaria nas primeiras décadas do século XX e como a verticalização modificou a paisagem da orla.
Um roteiro histórico-cultural pode utilizar fotografias antigas, cartões-postais, mapas e relatos para apresentar ao visitante aquilo que já não está diante dos seus olhos.
Nesse sentido, o patrimônio não está somente nos prédios que permanecem de pé. A memória dos lugares desaparecidos também faz parte da história urbana e turística de uma cidade.
O antigo Hotel dos Bandeirantes é um excelente exemplo dessa relação entre memória, turismo, patrimônio, fotografia e transformação urbana.
Para Roteiros de Turismo Históricos e Culturais em Santos e Região / R9 Turismo www.r9turismo.com
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Você conhecia a história do antigo Hotel dos Bandeirantes e sabia que o atual Edifício dos Bandeirantes ocupa parte do espaço onde funcionou esse importante hotel da Praia do Gonzaga?





