Em 17 de agosto de 1973, o Jornal da Baixada estampava uma manchete que, vista mais de cinco décadas depois, impressiona pela atualidade: “Ponte ligando Santos e Guarujá sai esse ano”. A matéria registrava uma entrevista concedida à Rádio Local pelo secretário de Obras da Prefeitura de Santos e ironizava a sucessão de promessas sobre uma ligação direta entre os dois municípios. O curioso é que, décadas depois, ponte e túnel continuariam aparecendo no debate sobre a chamada ligação seca Santos–Guarujá.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
📰 “Ponte ligando Santos e Guarujá sai esse ano”
JORNAL DA BAIXADA
17 de agosto de 1973
Tiragem informada na publicação: 35.059.443 exemplares
Preço: Cr$ 5,00
A manchete anunciava:
“Ponte ligando Santos e Guarujá sai esse ano”
Logo abaixo, o jornal acrescentava, em tom bem-humorado:
“Em entrevista à Rádio Local, secretário santista de obras garante: ‘É sério, desta vez fica pronta’.”
A matéria tratava de um assunto que já fazia parte do cotidiano político e urbano da Baixada Santista: como estabelecer uma ligação permanente entre Santos e Guarujá sem depender exclusivamente das balsas ou do deslocamento rodoviário pela ligação existente entre as cidades?
🎙️ A promessa registrada pelo jornal em 1973
Segundo o texto publicado pelo Jornal da Baixada, a Rádio Local havia entrevistado o secretário de Obras da Prefeitura de Santos e o assunto da ponte, túnel ou outra solução de travessia voltou a ocupar espaço no debate público.
A matéria dizia, em tom claramente irônico, que o projeto deveria ficar pronto naquele mesmo ano, apesar de as obras sequer terem começado.
A publicação reproduzia ainda uma declaração atribuída ao secretário:
“Dessa vez é sério. A ponte fica pronta até o final deste ano ou, no mais tardar, no final desta década.”
E concluía com uma provocação: “Quando tiver que ficar pronta ela ficará. Quando…”
O final interrompido da frase reforçava o caráter satírico da reportagem. Mais do que simplesmente anunciar uma obra, o jornal registrava a frustração provocada pela repetição de projetos, anúncios e prazos que não se concretizavam.
🌉 Ponte ou túnel?
A própria manchete e o conteúdo da reportagem levantavam uma questão que atravessaria as décadas seguintes: Seria construída uma ponte ou um túnel para ligar Santos e Guarujá?
A escolha não era simples. A travessia precisava considerar não apenas o deslocamento de moradores, mas também a navegação no canal do Porto de Santos, uma das principais condicionantes para qualquer obra permanente entre as duas margens.
Ao longo da história, foram estudadas diferentes soluções de engenharia.
É importante observar que a discussão é anterior à década de 1950. Há registros de uma proposta de túnel apresentada em 1927, enquanto, no final da década de 1940, o engenheiro e urbanista Francisco Prestes Maia apresentou propostas de integração territorial entre Santos e Guarujá, incluindo uma ponte levadiça.
🗺️ Prestes Maia e o planejamento regional
O Plano Regional de Santos, associado ao trabalho de Prestes Maia e publicado em 1950, tratava de questões relacionadas à circulação, infraestrutura, expansão urbana e integração das áreas que compunham a região.
Entre suas propostas estavam soluções para melhorar a conexão entre as duas margens do estuário. Prestes Maia chegou a defender uma ponte levadiça, considerando as características do canal e a necessidade de permitir a passagem das embarcações que acessavam o porto.
A proposta demonstra que a ligação Santos–Guarujá sempre esteve relacionada a uma questão maior: Como conciliar mobilidade urbana e regional com a atividade portuária e a navegação?
🚢 O desafio do Porto de Santos
A localização da travessia é um dos principais fatores que tornam a obra complexa.
O Canal do Estuário não é apenas uma separação geográfica entre Santos e Guarujá. Ele integra o sistema portuário e é utilizado pela navegação de embarcações de diferentes dimensões.
Por isso, uma ponte precisa considerar altura e gabarito para os navios, enquanto uma solução subterrânea precisa enfrentar desafios de engenharia relacionados à profundidade, ao solo, à construção e à segurança.
Essa condição explica, em parte, por que ponte e túnel apareceram repetidamente como alternativas ao longo de quase um século.
📰 Uma manchete de 1973 que voltou a circular
Décadas depois da publicação original, a manchete do Jornal da Baixada voltou a chamar atenção.
Em 2013, a reprodução da notícia de 1973 circulou novamente na internet, justamente porque o tema da ligação Santos–Guarujá continuava presente no debate público. A coincidência entre a antiga promessa e as discussões contemporâneas transformou a manchete em um interessante documento da memória política e urbana da Baixada Santista.
A fotografia ou reprodução de uma página de jornal, portanto, não registra apenas uma notícia antiga. Ela permite observar como determinadas questões permanecem presentes na história de uma região.
🚇 A decisão pelo túnel em 2011
Em agosto de 2011, o governo paulista anunciou a opção por um túnel imerso para a ligação entre Santos e Guarujá.
Segundo a Prefeitura de Santos, a alternativa escolhida previa inicialmente uma estrutura com aproximadamente 900 metros, entre a região de Outeirinhos, em Santos, e Vicente de Carvalho, no Guarujá. A técnica seria diferente de um túnel convencional escavado: os módulos de concreto seriam construídos em terra, transportados e posteriormente imersos no canal.
Naquele momento, a previsão anunciada era de que os trabalhos avançassem nos anos seguintes, mas o cronograma não se concretizou conforme originalmente divulgado.
🏗️ Projetos, estudos e novos adiamentos
O projeto avançou para etapas de estudos ambientais e de engenharia.
Em 2013, por exemplo, o governo estadual entregou o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (EIA/Rima) relacionado ao projeto do túnel submerso. Naquela configuração, o projeto previa 762 metros de túnel, 950 metros de rampas e aproximadamente 4,5 quilômetros de obras viárias em superfície e viadutos.
Apesar dos estudos e projetos desenvolvidos, a licitação acabou sendo cancelada em janeiro de 2015, mantendo a ligação seca novamente no campo das discussões e dos projetos.
⏳ Mais de meio século depois da manchete
A comparação entre a manchete de 1973 e os projetos posteriores revela uma característica marcante da história da Baixada Santista: a distância entre anunciar uma ligação e efetivamente executá-la.
- Em 1973, o jornal anunciava que a ponte sairia naquele ano.
- Em 2011, o governo estadual anunciava a opção pelo túnel imerso.
- Em 2013, o projeto avançava para estudos ambientais e de engenharia.
- Em 2015, a licitação era cancelada.
A sequência mostra que a história da ligação Santos–Guarujá não pode ser reduzida a uma simples disputa entre ponte e túnel. Trata-se também de uma história de planejamento regional, engenharia, orçamento público, licenciamento ambiental, navegação, mobilidade urbana e decisões administrativas.
🌊 A ligação seca e a mobilidade regional
A travessia entre Santos e Guarujá possui importância que ultrapassa os limites dos dois municípios.
Santos concentra atividades portuárias, comerciais, de serviços e turísticas, enquanto Guarujá possui intensa atividade residencial, turística e econômica. A conexão entre os dois lados do estuário interfere também na circulação de trabalhadores, mercadorias e visitantes.
Durante décadas, a ligação foi realizada principalmente pelas balsas e pelo deslocamento rodoviário por meio da Rodovia Cônego Domênico Rangoni, percurso que aumenta significativamente a distância entre os municípios.
Por isso, a discussão sobre a ligação seca também envolve mobilidade metropolitana e integração territorial da Baixada Santista.
🏛️ De promessa histórica a projeto em construção
O tema entrou em uma nova etapa nos anos recentes.
Em 2025, o Governo Federal apresentou o projeto do Túnel Santos–Guarujá como uma obra destinada a estabelecer uma ligação permanente entre os dois municípios. O projeto divulgado prevê 1,5 quilômetro de extensão total, dos quais 870 metros serão submersos, além de faixas para veículos, espaço exclusivo para o VLT e passagem para pedestres e ciclistas.
O governo estadual também mantém atualmente uma página oficial dedicada ao empreendimento, apresentando-o como o primeiro túnel imerso do Brasil e informando as características previstas para a travessia.
Assim, a antiga pergunta estampada em jornais — “ponte ou túnel?” — ganhou, no projeto atual, uma resposta baseada na alternativa do túnel imerso.
📸 A importância histórica da matéria de 1973
A reprodução da página do Jornal da Baixada merece ser preservada não apenas pela curiosidade da manchete, mas pelo seu valor como documento histórico.
A publicação permite compreender como os moradores da Baixada Santista conviviam, já em 1973, com a expectativa de uma ligação permanente entre Santos e Guarujá.
Mais de 50 anos depois, a notícia continua sendo uma fonte importante para refletir sobre planejamento urbano, memória regional e infraestrutura.
Fotografias antigas, páginas de jornais, cartões-postais, projetos e mapas formam um conjunto de documentos que ajuda a reconstruir a história da região.
🧭 Santos, Guarujá e a memória do turismo regional
A ligação entre Santos e Guarujá também possui grande importância para o turismo histórico e cultural da Baixada Santista.
Os dois municípios fazem parte de uma região integrada por paisagens, patrimônio, atividades portuárias, praias, equipamentos culturais e diferentes formas de mobilidade.
Conhecer a história das propostas de ligação entre as duas cidades permite compreender que infraestrutura também é patrimônio da memória regional.
A manchete de 1973, aparentemente simples, transforma-se em uma verdadeira janela para o passado: mostra uma sociedade que aguardava uma obra, acompanhava as promessas das autoridades e discutia qual seria a melhor forma de atravessar o estuário.
📚 Uma manchete que atravessou gerações
A frase “Ponte ligando Santos e Guarujá sai esse ano”, publicada em 17 de agosto de 1973, ganhou uma dimensão histórica que provavelmente seus autores não imaginavam.
O documento registra um momento específico, mas também ajuda a contar uma história muito maior: a história de quase um século de propostas para estabelecer uma ligação seca entre Santos e Guarujá.
De uma proposta de túnel na década de 1920 às pontes estudadas posteriormente, passando pelos projetos associados a Prestes Maia, pela ponte helicoidal discutida na década de 1970 e pelo túnel imerso anunciado em 2011, diferentes gerações acompanharam essa busca por uma solução definitiva.
A história da ligação Santos–Guarujá, portanto, não está apenas nos grandes projetos de engenharia. Ela também está nas páginas dos jornais, nas fotografias, nos mapas, nos projetos esquecidos e na memória daqueles que acompanharam essa longa espera.
🌎 Turismo histórico e cultural na Baixada Santista
Para quem deseja conhecer a história, o patrimônio e as paisagens da região, o tema da ligação Santos–Guarujá oferece uma excelente oportunidade para compreender a formação territorial e urbana da Baixada Santista.
A preservação e interpretação desses documentos históricos podem contribuir para roteiros de turismo cultural que relacionem porto, cidade, mobilidade, patrimônio, engenharia, memória e paisagem.
Para roteiros de Turismo Histórico e Cultural na Baixada Santista: R9 Turismo
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Você se lembra de alguma outra promessa, projeto ou proposta de ponte ou túnel para ligar Santos e Guarujá? Conte nos comentários qual lembrança ou documento histórico você conhece sobre essa longa história. 🔰



