O chiclete Ping Pong marcou a infância de milhões de brasileiros e entrou para a história da publicidade e do colecionismo no país. Muito além da goma de mascar, a marca ficou conhecida pelas famosas bolas de chiclete, pelos álbuns de figurinhas, pelos brindes e por campanhas publicitárias que atravessaram gerações. Seu nome permanece associado à memória afetiva de quem frequentava as escolas, brincava nas ruas e colecionava figurinhas nas décadas de 1970, 1980 e 1990.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
🕰️ A origem do Ping Pong e a chegada do chiclete de bola ao Brasil
A história do Ping Pong está ligada à expansão do mercado de guloseimas industrializadas no Brasil e à influência cultural norte-americana durante e após a Segunda Guerra Mundial. A goma de mascar ganhou popularidade entre os brasileiros e abriu espaço para produtos voltados especialmente ao público infantil.
O Ping Pong é tradicionalmente associado à Kibon, empresa que, além dos sorvetes, comercializou diferentes tipos de doces. Há fontes históricas que apontam 1945 como o ano de lançamento do chiclete, enquanto uma reportagem da revista Continente situa o lançamento do produto em 1955. Essa divergência merece ser registrada, em vez de apresentar as duas datas como se fossem consenso.
A novidade era o formato arredondado, ideal para fazer bolas de chiclete, que se diferenciava das gomas de mascar tradicionais. Com embalagens pequenas e preço acessível, o produto conquistou espaço no cotidiano brasileiro.
🖼️ Anos 1950: A publicidade apresenta o Ping Pong ao público
Imagem histórica: anúncio publicitário do Ping Pong, década de 1950. Fonte: Propagandas Históricas.
Na década de 1950, a publicidade ajudou a transformar o chiclete em um produto desejado pelos jovens. Anúncios impressos destacavam a diversão, a modernidade e a identificação do produto com a juventude brasileira.
A frase “O favorito da juventude brasileira” demonstra como a propaganda procurava aproximar a marca de seu público. Naquele período, revistas, histórias em quadrinhos e outras publicações impressas eram meios importantes para divulgar produtos destinados às crianças e aos adolescentes.
O Ping Pong também acompanhou uma mudança nos hábitos de consumo: comprar um doce deixou de significar apenas saborear um produto e passou a representar uma oportunidade de brincar, trocar figurinhas e iniciar coleções.
🎨 Anos 1960: O personagem Bolão e as figurinhas colecionáveis
Imagem histórica: material promocional das figurinhas do personagem Bolão, associado ao início dos anos 1960. Fontes: Anos Dourados: Imagens & Fatos.
Nos anos 1960, as figurinhas distribuídas com o chiclete fortaleceram a relação entre o Ping Pong e o colecionismo infantil. Um dos destaques foi o Bolão, personagem criado pelo cartunista Luiz Sá, que também desenvolveu figuras populares nas histórias em quadrinhos brasileiras.
As ilustrações apresentavam situações relacionadas a esportes, profissões, turismo e outras atividades do cotidiano. A proposta incentivava as crianças a guardar, organizar e trocar as pequenas imagens com amigos e colegas da escola.
Essa estratégia transformou a embalagem em parte de uma experiência maior: além do chiclete, o consumidor recebia um item que podia ser guardado ou utilizado para completar uma coleção.
🦸 Anos 1970: Tatuagens, álbuns, quadrinhos e super-heróis
Imagem histórica: anúncio de 1979 da coleção de super-heróis do Ping Pong. Fonte: propagandashistoricas.com.br
Durante a década de 1970, o Ping Pong ampliou o apelo de suas coleções com personagens de quadrinhos e temas que despertavam a imaginação infantil. As figurinhas de super-heróis, por exemplo, aproximavam o produto do universo das histórias em quadrinhos, então muito presente no entretenimento das crianças.
O colecionismo também estimulava a convivência: Era comum trocar figurinhas repetidas, procurar as que faltavam e conversar sobre as imagens com os colegas. A coleção passou a ser tão importante para muitos consumidores quanto o próprio chiclete.
⚽ 1982 a 1994: O futebol e as Copas do Mundo
Imagem histórica: álbum e figurinhas Ping Pong relacionados à Copa do Mundo de 1982. Fonte: Cantos, Recantos e Encantos.
🎥 Vídeo: Comercial Chiclete Ping Pong – Copa da Espanha em 1982.
O vídeo apresentado é um anúncio ou vinheta promocional em estilo de animação clássica voltado para o mercado brasileiro, que relembra a atmosfera do Campeonato do Mundo de Futebol de Espanha de 1982.
A narrativa visual foca-se numa mascote ou personagem bem-humorada — caracterizada por ter o corpo em formato de almofada ou tecido com os dizeres “PING PONG”, luvas e chuteiras de futebol — que atua como guarda-redes perante uma baliza. Vemos diversas cenas de animação expressiva em que a personagem salta, gesticula, faz defesas e cai de forma divertida na relva.
Por fim, o anúncio revela o produto associado: a caderneta e os cromos oficiais do “Ping Pong – Espanha 82” (famosa marca de pastilhas elásticas/gomas da época), incluindo ainda a indicação de “replay” de uma das defesas.
🎥 Vídeo: Comercial chiclete Ping Pong 2 em 1 – Copa do México 1986
O vídeo é um anúncio clássico da marca de pastilhas elásticas Ping Pong, dedicado à temática do futebol e ambientado de forma festiva com elementos inspirados no México (como um apresentador vestido com poncho tradicional e chapéu mexicano).
Principais aspetos do vídeo:
- Conceito “2 em 1”: O comercial promove o chiclete Ping Pong que vinha com dois blocos num único pacote e trazia autocolantes (“transfix”) colecionáveis com motivos de futebol para colar onde quiser.
- Variedade de sabores: São apresentados diferentes sabores, incluindo os clássicos tutti-frutti, hortelã e a novidade de maçã verde.
- Contexto nostálgico: A publicidade remete para o clima de entusiasmo em torno dos grandes eventos de futebol, fazendo menção à preparação para os campeonatos mundiais da época
O futebol se tornou um dos temas mais marcantes das coleções ligadas ao Ping Pong. As séries relacionadas às Copas do Mundo permitiam reunir imagens de jogadores e seleções, transformando a paixão nacional pelo esporte em uma atividade de colecionismo.
Entre as coleções lembradas estão as relacionadas às Copas de 1982, 1986, 1990 e 1994. Os materiais promocionais aproximavam crianças e adolescentes dos ídolos do futebol e incentivavam a troca de figurinhas entre torcedores.
Imagem histórica: figurinhas de jogadores da coleção Ping Pong, associadas à Copa do Mundo de 1986. Fonte: Coleção de figurinhas antigas — eBay. Imagem de acervo de colecionador.
Um dos aspectos interessantes dessas coleções é que elas preservam registros visuais de jogadores, uniformes, escudos e estilos gráficos de outras épocas. Hoje, exemplares antigos podem despertar o interesse de colecionadores e pesquisadores da história do futebol e da publicidade.
📺 Anos 1980: O slogan “É gostoso e faz bola”
A publicidade televisiva consolidou a associação entre o Ping Pong e a habilidade de fazer grandes bolas de chiclete. O slogan “É gostoso e faz bola” sintetizava a proposta do produto de maneira simples, divertida e fácil de memorizar.
A marca não vendia apenas um doce: vendia uma brincadeira. Fazer uma bola grande, tentar superar os amigos e disputar quem conseguia a maior bolha eram atividades que ajudaram a fixar o Ping Pong na memória de diferentes gerações.
Os comerciais também refletiam a importância crescente da televisão na divulgação de produtos de consumo. A linguagem descontraída e a associação com momentos de lazer contribuíram para a presença da marca na cultura popular brasileira.
🧸 Anos 1990: Personagens infantis e novas coleções
Imagem histórica: publicidade da coleção Ping Pong inspirada em O Rei Leão, da década de 1990. Fonte: Você se Lembra.
Nos anos 1990, as coleções passaram a explorar também personagens e franquias de entretenimento populares entre as crianças. Um exemplo foi a promoção relacionada a O Rei Leão, com álbum e figurinhas inspirados no filme da Disney.
Outros temas associados às coleções da marca incluíram animais, natureza, desenhos animados, filmes e curiosidades. Essa diversidade permitia renovar o interesse do público e acompanhar as tendências culturais de cada período.
O Ping Pong, portanto, acompanhou transformações no universo infantil: dos personagens de quadrinhos e das coleções esportivas às produções cinematográficas e aos desenhos animados.
🍬 Sabores, embalagens e a experiência de consumo
Ao longo de sua trajetória, o Ping Pong ficou associado aos sabores frutados e às versões de goma de mascar voltadas à formação de bolas. Sabores como tutti-frutti e morango são lembrados por antigos consumidores, embora a disponibilidade tenha variado conforme a época e a versão do produto.
As embalagens pequenas também faziam parte da experiência. O consumidor comprava o chiclete e, em diferentes promoções, podia encontrar figurinhas ou outros materiais colecionáveis. Esse conjunto de produto, embalagem e brinde ajudou a construir a identidade da marca.
É importante lembrar que a memória dos sabores pode variar de pessoa para pessoa. Para muitos, o cheiro da embalagem, a textura da goma e a expectativa de encontrar uma figurinha são tão marcantes quanto o próprio sabor.
🏭 Da concorrência com o Ploc ao desaparecimento das prateleiras
A partir do final da década de 1960, o mercado brasileiro de chicletes de bola ganhou um concorrente importante: o Ploc, lançado em 1968 pela Q-Refres-Ko. Assim como o Ping Pong, o concorrente apostou em brindes e coleções para atrair o público infantil.
Com as mudanças empresariais e as incorporações ocorridas ao longo das décadas seguintes, as marcas passaram por diferentes administrações. Na década de 1990, os produtos ligados à Q-Refres-Ko foram incorporados à Kraft Foods, que posteriormente passou a integrar a trajetória empresarial da Mondelez.
A concorrência, as mudanças nas estratégias comerciais e a renovação do mercado contribuíram para a perda de espaço de marcas tradicionais. Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em abril de 2026, a empresa responsável pela comercialização informou que a última venda dos produtos ocorreu em 2015.
Apesar do desaparecimento das prateleiras, o Ping Pong continuou vivo na lembrança de antigos consumidores e no mercado de itens de coleção.
⚖️ Abril de 2026: A decisão sobre o registro da marca
Em abril de 2026, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) deferiu pedidos de caducidade relacionados aos registros das marcas Ping Pong e Ploc, após questionamentos sobre a falta de uso comercial. A decisão foi noticiada pela imprensa em 7 e 8 de abril daquele ano.
A caducidade extingue o registro afetado e seus direitos de exclusividade nas condições previstas na legislação de propriedade industrial. Isso, porém, não significa necessariamente que a expressão esteja definitivamente sem titular ou que qualquer pessoa possa utilizá-la sem restrições. A situação deve ser verificada nos registros e processos atualizados do INPI, inclusive diante de novos pedidos de registro.
O episódio demonstra como até marcas muito conhecidas podem perder a proteção de seus registros quando deixam de cumprir os requisitos legais de manutenção.
🗃️ O Ping Pong como patrimônio da memória afetiva brasileira
A história do Ping Pong vai além da indústria de doces. Ela ajuda a compreender as transformações da publicidade, do consumo infantil, das histórias em quadrinhos e das práticas de colecionismo no Brasil.
As figurinhas do Bolão, os álbuns de futebol, as campanhas de super-heróis e as promoções inspiradas em filmes mostram como um produto simples conseguiu acompanhar diferentes gerações e tendências culturais.
Hoje, anúncios antigos, embalagens, álbuns e figurinhas são fontes para estudar hábitos de consumo e formas de comunicação de outras épocas. Esses materiais também despertam o interesse de colecionadores que procuram preservar objetos ligados à infância.
O Ping Pong se tornou um símbolo de uma época em que comprar um chiclete podia significar muito mais do que saborear um doce: era também a oportunidade de colecionar, trocar, brincar e compartilhar momentos com os amigos.
📚 Fontes de pesquisa e referências históricas
1. Propagandas Históricas. Ping Pong (Juventude) — Anos 50. Anúncio publicitário da década de 1950. Disponível em: Consultar anúncio.
2. Anos Dourados: Imagens & Fatos. Figurinhas do Bolão (chicletes Ping-Pong). Publicação de 30 de outubro de 2013, com referências às coleções dos anos 1960. Disponível em: Consultar publicação.
3. Bigorna.net. Ping Pong apresenta as Aventuras do Bolão. Publicação de 30 de agosto de 2010, com referência à série de figurinhas de 1962. Disponível em: Consultar artigo.
4. Museu do Futebol. Futebol Cards Ping Pong. Acervo sobre os cartões colecionáveis, sua história e sua relação com o futebol brasileiro. Disponível em: Consultar acervo.
5. Revista Continente. Chiclete: um doce grudado à cultura pop. Reportagem sobre a história do chiclete no Brasil e a formação do mercado de colecionáveis. Disponível em: Ler reportagem.
6. Folha de S.Paulo. INPI decide que Mondelez perdeu marcas Ploc e Ping Pong. Publicação de 7 de abril de 2026. Disponível em: Ler reportagem.
7. Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Marcas: perguntas frequentes. Informações oficiais sobre caducidade e extinção de registros. Disponível em: Consultar orientações oficiais.
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Você se lembra do chiclete Ping Pong, das figurinhas do Bolão ou dos álbuns das Copas do Mundo? Qual coleção marcou sua infância e você ainda guarda alguma lembrança dessa época? 🔰




