“Rainha do Abismo” foi descoberta no Costão da Serra de Itatins em estado considerado “selvagem”. Botânicos ainda precisam avaliar.
Por ..:: Manuel Alves Branco
A Rainha do Abismo, agora, vive em Peruíbe. Exemplares dessa flor tropical brasileira, natural da região paranaense da Mata Atlântica, foram encontrados por um jornalista e uma publicitária no costão da Serra de Itatins, em estado considerado “selvagem”.
E se a descoberta for confirmada por botânicos, passará a integrar o ecossistema e a biodiversidade deste município litorâneo dominado pela Mata Atlântica; as praias, a lama negra, a reserva natural do Juréia e o saudável ar carregado de ozônio. É também por misteriosas lendas locais que o planalto da Serra de Itatins, que domina a Cidade e o parque ecológico, aparecem discos voadores.
As diversas espécies da planta, que nascem sem cultivo humano em meio a fendas rochosas dos abismos, produzem flores de cores delicadas e encantam especialistas e colecionadores, principalmente do Exterior.
O jornalista Ivaldo Banchieri, mais conhecido como “Lelo”, e a publicitária Thaís Araujo decidiram investigar a região da serra em busca da planta, que os moradores mais antigos diziam encontrar na área nos anos de 1980.
..:: Batatas
Recentemente, fotografaram a eflorescência de duas espécies de “rainhas” em fendas rochosas. Passaram a visitar o local no outono, em busca de novas flores em pontos onde há uma concentração de tubérculos, espécie de batatas que, nos meses de seca e frio, aparecem sem folhas, somente com as raízes agarradas às rochas, ou no alto de troncos de árvores, pontos aparentemente sem recursos para sobrevivência.
Agora, pretendem comunicar a descoberta ao Ibama, aos administradores do Parque Ecológico da Juréia e à Prefeitura de Peruíbe, com o propósito de propor a criação de uma entidade ecológica, sem ligação com governos, para organizar visitas monitoradas de turistas interessados em observar as espécies.
Por enquanto, preferem manter segredo dos “abismos” onde encontraram as “rainhas”, por temerem que os visitantes possam acidentar-se, sem o acompanhamento de monitores que conheçam a área. Ou pior: por curiosos que se aventurem a remover as “batatas”, porque são um atrativo lucrativo para aficionados por plantas raras. Afinal, espécies cultivadas em batatas menores e muito floridas podem ser encontradas em lojas especializadas por valores que vão de R$ 20,00 a R$ 100,00.
..:: Planta nasce de uma grande ‘batata’ presa às rochas
A planta, conhecida pelo nome científico de Sinningia leucotricha, da família das gesneriáceas, nasce de uma grande ‘batata’ presa às rochas, recoberta por pelagem branca e prateada. Na verdade, não passa de uma prosaica batata.
É nativa do Brasil, e considerada em fase de extinção na sua fase selvagem. Mas pode ser encontrada em floriculturas por preços que variam de R$ 20,00 a R$ 30,00.
O que valoriza a descoberta em Peruíbe é o fato de ter sido encontrada em estado nativo, sem cultivo. Tem folhas credas, e inflorescência (daí como que surge as flores vermelho-alaranjadas ou brancas) em tubiformes de pequenas pétalas.
Cultivo: A espécie pode ser encontrada em floriculturas por valores de R$ 20,00 a R$ 100,00.
..:: Plantas correm risco de extinção
O jornalista Ivaldo Banchieri, 46 anos, se diz apaixonado por Peruíbe, onde mora desde menino, pela exuberância da natureza do Município. Foi nessa época que ganhou o apelido de Lelo. Ele trabalha na Fotografia há mais de um amplador. Também vive dela. Na década de 1990, uma das suas fotos foi capa da revista “Time”, nos EUA. Mostrava a morte de centenas de pinguins que conseguiram chegar às praias de Peruíbe, arrastados por correntes marítimas frias.
Ele costuma aventurar-se nas matas da Serra de Itatins e na reserva da Juréia para fotografar animais e plantas raras. Thais Araujo Cardoso dos Santos, publicitária, 24 anos, muitas vezes o acompanha nessas incursões. Os dois estão preocupados com o turismo predatório. Segundo Ivaldo “Lelo”, as rainhas-do-abismo são plantas que, em estado selvagem, correm risco de extinção. Ele acredita que essa talvez seja a primeira descoberta da presença da espécie no Litoral Paulista. Especialista nesse tipo de planta, o botânico Rogério Salviani indica que a menor espécie de rainha da “rainha” é a S. pusilla, nativa da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro.
Entre as maiores estão a S. gigantifolia, na região de Itatiaia, entre São Paulo e Rio de Janeiro, cujas folhas chegam a até um metro de diâmetro e as S. ilhensis e S. macrodactyla, nativas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A forma como essa espécie é polinizada por aves, animais e (insetos) nas rochas foi explicada por biólogos: a maioria de flores maiores e mais claras, são polinizadas por morcegos atraídos pelo néctar da meia-noite.
As flores vermelhas, tubulares, são polinizadas por beija-flores ou por borboletas. A florada, que é sinal de reprodução, ocorre na primavera, verão ou outono, dependendo da espécie. Algumas plantas são tão minimizadas que mereciam mais o título de “princesas”.
Outras florescem em buracos. Nos Estados Unidos, a organização The Gesneriad Society mantém uma coleção de associados apaixonados por rainhas-do-abismo.
A primeira espécie foi descoberta em 1870, no Serrado Tintas, no Estado do Rio de Janeiro, e levada para o Jardim Botânico de Bonn, na Alemanha, para ser cultivada por Wilhelm Sinning, homenageado com o nome científico do gênero.
Segundo botânicos, a “Rainha do Abismo” é uma espécie nativa do Salto do Apucaraninha, uma região paranaense com 1.100 metros de altitude, o que justifica o nome popular de abismo.
Os caules atingem até 25 cm de altura, sustentando quatro folhas ovais cobertas por essa pelagem branca e prateada. As flores nascem no verão e continuam desabrochando durante dois meses de outono.
Embora nativas do Brasil, pertencem a uma família chamada Gesneriaceae. E têm centenas de representantes espalhados por todos os continentes, entre os quais a “parenta” mais famosa é a violeta africana (Saintpaulia ionantha). Mas o gênero Sinningia, propriamente dito — com 70 espécies reconhecidas — é só brasileiro. Existe uma única espécie não brasileira, nativa da região de Chiapas, no México: S. richii. Das outras espécies foram descobertas a partir de exemplares coletados na Argentina e no Paraguai, porém informalmente já foram localizadas também em território nacional.
Fonte..:: Jornal A Tribuna 06 de maio de 2013.



