🌎 A citação de Renato Marchesini presente na imagem — “Destino que aceita qualquer Turismo não merece Turismo melhor” — apresenta uma reflexão sobre planejamento, posicionamento estratégico, sustentabilidade e responsabilidade na gestão dos destinos turísticos. A frase propõe uma discussão importante: um destino não precisa aceitar indiscriminadamente qualquer forma de exploração turística; deve estabelecer critérios capazes de proteger seus recursos naturais, seu patrimônio cultural, sua população e a própria qualidade da experiência oferecida ao visitante.
Por ..:: Renato Marchesini / Bacharel em Turismo, Historiador, Geógrafo e Biólogo. com Pós-Graduação em (Ecoturismo, Gestão Pública, Gestão em Projetos, RH e Projetos Sociais, Gestão Educacional, Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Direitos Humanos, História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio e Mestre em Ciências.
🧭 A importância da segmentação e do posicionamento turístico
Um destino turístico que tenta atender todos os públicos, todas as demandas e todas as formas de turismo ao mesmo tempo, sem considerar sua capacidade territorial e suas características, pode comprometer justamente aquilo que o torna atrativo.
A segmentação turística não significa necessariamente excluir pessoas. Significa compreender quais experiências o território pode oferecer, para quais públicos, em quais condições e dentro de quais limites.
Quando não existe planejamento, podem surgir situações como:
- Turismo de massa sem controle: aumento da pressão sobre sistemas de transporte, saneamento, abastecimento de água, resíduos, praias, áreas naturais e espaços públicos.
- Descaracterização cultural: práticas turísticas podem transformar manifestações culturais, paisagens e modos de vida em produtos desconectados de seus significados originais.
- Pressão sobre os recursos naturais: ambientes frágeis podem sofrer impactos provocados pelo excesso de visitantes, ocupação inadequada, geração de resíduos, consumo de água e outras atividades.
- Baixo valor agregado: grande quantidade de visitantes não significa necessariamente maior benefício econômico para a comunidade local. É necessário observar quanto permanece no território, quem se beneficia e quais custos são gerados.
- Perda de identidade turística: quando todos os destinos procuram oferecer praticamente as mesmas experiências, torna-se mais difícil construir uma identidade própria e diferenciada.
- Conflitos com a população residente: o turismo mal planejado pode gerar aumento de preços, congestionamentos, ruídos, ocupação excessiva de espaços públicos e conflitos relacionados ao uso do território.
🎯 Turismo não é apenas quantidade de visitantes
Um dos principais desafios do planejamento turístico contemporâneo é superar a ideia de que mais turistas representam automaticamente mais desenvolvimento.
O crescimento do fluxo turístico precisa ser analisado em conjunto com indicadores econômicos, sociais, ambientais e culturais.
Um destino pode receber milhares de visitantes e, ainda assim, apresentar baixo retorno econômico para sua população, elevada geração de resíduos, degradação ambiental e perda de qualidade de vida para os residentes.
Por outro lado, estratégias voltadas para permanência maior, distribuição dos fluxos durante o ano, valorização dos negócios locais, qualificação dos serviços e diversificação das experiências podem contribuir para uma relação mais equilibrada entre turismo e território.
Portanto, a pergunta não deve ser apenas “quantos turistas queremos receber?”, mas também “que turismo queremos desenvolver e quais benefícios desejamos gerar?”
🌱 O que significa “turismo melhor”?
A expressão “turismo melhor” não deve ser interpretada como sinônimo de turismo destinado exclusivamente a pessoas com maior poder aquisitivo.
Qualidade turística não depende apenas do preço de um produto ou serviço.
Um turismo melhor é aquele que busca estabelecer relações mais equilibradas entre visitantes, moradores, empresas, poder público, patrimônio cultural e meio ambiente.
Entre seus princípios podem estar:
1. Planejamento estratégico: definir objetivos, públicos, produtos, roteiros e experiências compatíveis com as características do território.
2. Sustentabilidade: considerar os limites ambientais, sociais, culturais e econômicos do destino.
3. Preservação do patrimônio: proteger paisagens, bens históricos, manifestações culturais, comunidades tradicionais e recursos naturais.
4. Valorização da comunidade: garantir que a população residente participe dos processos de planejamento e possa se beneficiar economicamente da atividade.
5. Qualificação profissional: fortalecer a formação dos trabalhadores e dos prestadores de serviços turísticos.
6. Distribuição dos fluxos: evitar que a atividade fique concentrada em poucos locais ou exclusivamente em determinados períodos do ano.
7. Diversificação turística: desenvolver diferentes segmentos compatíveis com a vocação e a capacidade do território.
🏘️ Visitante e residente: Duas dimensões do mesmo destino
Um destino turístico não existe somente para quem o visita.
Antes de ser destino turístico, o território é espaço de vida para seus moradores. Por isso, políticas públicas de turismo precisam considerar os efeitos da atividade sobre a população residente.
A construção de um turismo responsável pressupõe diálogo entre moradores, empresários, trabalhadores, turistas, organizações da sociedade civil e poder público.
A comunidade deve ter espaço para participar das decisões que envolvem seu território, especialmente quando projetos turísticos podem modificar paisagens, atividades econômicas, formas de ocupação ou modos tradicionais de vida.
Nesse sentido, a satisfação do visitante não deve ser alcançada à custa da perda da qualidade de vida da população local.
🏞️ Capacidade de carga e limites do território
Outro aspecto fundamental é compreender que todo território possui limites.
Praias, trilhas, cachoeiras, unidades de conservação, centros históricos, comunidades tradicionais, áreas rurais e outros espaços turísticos possuem diferentes níveis de resistência aos impactos provocados pela visitação.
O planejamento pode utilizar estudos de capacidade de suporte, capacidade de carga turística, manejo da visitação e monitoramento de impactos, conforme as características de cada território.
Estabelecer limites não significa impedir o turismo.
Significa reconhecer que a conservação dos recursos que sustentam a atividade turística é condição para sua continuidade.
🌿 Turismo e conservação ambiental
No turismo de natureza, essa questão torna-se ainda mais evidente.
Uma área natural pode atrair visitantes justamente por apresentar paisagens preservadas, biodiversidade, rios, florestas, praias, restingas, manguezais ou outros ambientes de interesse.
Se a visitação destruir essas características, o destino poderá comprometer seu próprio patrimônio e sua capacidade de receber visitantes no futuro.
Por isso, atividades relacionadas ao ecoturismo e ao turismo de natureza devem incorporar educação ambiental, interpretação do patrimônio, conservação, segurança e respeito às comunidades locais.
O turismo deve contribuir para a valorização do patrimônio natural, e não transformar a natureza em um recurso de consumo ilimitado.
🏛️ Patrimônio cultural também precisa de proteção
O mesmo princípio vale para o patrimônio cultural.
Centros históricos, igrejas, edificações, sítios arqueológicos, festas populares, gastronomia, artesanato, manifestações tradicionais e conhecimentos comunitários podem ser importantes elementos da experiência turística.
Entretanto, transformar cultura em produto turístico exige responsabilidade.
A comunidade detentora daquele patrimônio deve ser considerada parte fundamental do processo. A atividade turística não pode simplesmente retirar elementos culturais de seu contexto e comercializá-los sem participação, reconhecimento ou benefício para seus protagonistas.
💰 Desenvolvimento econômico com responsabilidade
O turismo pode gerar emprego, renda, oportunidades empresariais e arrecadação pública.
Entretanto, o desenvolvimento turístico precisa ser medido também pela qualidade dos benefícios distribuídos no território.
Valorizar fornecedores locais, restaurantes, meios de hospedagem, guias de turismo, artesãos, produtores rurais, transportadores, empreendedores comunitários e profissionais da economia criativa pode aumentar a circulação da renda dentro do próprio destino.
Nesse sentido, um dos objetivos do planejamento deve ser fortalecer a cadeia produtiva local, evitando que grande parte dos recursos gerados pela visitação seja transferida para empresas e fornecedores externos.
🧭 O destino precisa saber o que quer ser
A identidade turística não deve ser construída apenas por campanhas publicitárias.
Ela precisa estar relacionada à história, geografia, cultura, natureza, economia, paisagem e identidade da população.
Um destino pode optar por desenvolver turismo cultural, ecoturismo, turismo de aventura, turismo rural, turismo gastronômico, turismo de negócios, turismo de eventos, turismo de base comunitária ou diferentes segmentos combinados.
O importante é que essas escolhas sejam feitas a partir de diagnóstico, planejamento, participação social e conhecimento do território.
🚦 Aceitar tudo também é uma escolha de planejamento
A frase “Destino que aceita qualquer Turismo não merece Turismo melhor” pode ser entendida, portanto, como uma provocação aos gestores e profissionais do setor.
Aceitar qualquer empreendimento, qualquer fluxo, qualquer atividade ou qualquer modelo de exploração turística sem avaliar suas consequências também é uma decisão de planejamento.
Não estabelecer critérios é, na prática, permitir que o mercado e as circunstâncias definam o futuro do destino sem uma estratégia coletiva.
Planejar significa justamente estabelecer diretrizes, prioridades, limites, responsabilidades e objetivos de longo prazo.
🌎 Turismo melhor começa com um território melhor planejado
Um destino turístico de qualidade precisa ser, antes de tudo, um bom lugar para viver, trabalhar, conservar seu patrimônio e receber visitantes.
Quando o planejamento turístico considera simultaneamente o visitante e o residente, a economia e o meio ambiente, a conservação e a visitação, o presente e o futuro, cria-se a possibilidade de um turismo mais equilibrado.
Assim, a frase de Renato Marchesini pode ser compreendida como um chamado à reflexão:
Não basta desejar mais turistas; é necessário definir qual turismo o território é capaz de receber, qual turismo deseja desenvolver e quais benefícios pretende gerar para sua população e para o patrimônio que sustenta sua identidade.
O verdadeiro desafio não é simplesmente atrair mais visitantes, mas construir condições para que o turismo seja economicamente viável, socialmente justo, ambientalmente responsável e culturalmente respeitoso.
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Na sua opinião, quais critérios um destino turístico deveria estabelecer antes de aceitar novos empreendimentos, fluxos e modalidades de turismo? 🔰



