Forte da Vila: A Antiga Fortificação de Santos que Desapareceu com a Expansão do Porto

O Forte da Vila, também conhecido como Forte da Praça, Forte de Nossa Senhora do Monte Serrat, Forte de Monserrat, Forte da Cidade ou Forte de Santos, foi uma das antigas estruturas militares responsáveis pela defesa da vila de Santos durante o período colonial.

A fortificação ocupava uma área estratégica no atual Centro Histórico de Santos, aproximadamente onde posteriormente seriam instalados os prédios da Alfândega e da Recebedoria de Rendas, na região da atual Praça da República. Sua história está diretamente relacionada à defesa da povoação, à organização militar da vila e, posteriormente, às grandes transformações urbanas e portuárias que modificaram profundamente aquela área da cidade.

Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio e Mestre em Ciências.


🏰 Forte da Vila, Forte da Praça e Forte de Nossa Senhora do Monte Serrat

O Forte da Vila recebeu diferentes denominações ao longo de sua história. Entre elas estão Forte da Praça e Forte de Nossa Senhora do Monte Serrat, nome posteriormente abreviado em algumas referências para Forte de Monserrat.

A estrutura foi implantada em uma área estratégica da antiga vila, próxima ao mar e às instalações que posteriormente fariam parte do complexo portuário e administrativo de Santos.

Forte de Nossa Senhora do Monte Serrate, em foto de Militão Augusto de Azevedo (11,0 x 16,6 cm. Acervo Museu Paulista).

Em registros iconográficos da fortificação, é possível observar elementos de sua configuração. Atrás do portão voltado para o lado do mar, por exemplo, aparece o mastro de um navio. À direita, uma rampa conduzia ao Corpo da Guarda e à Prisão.


📜 A origem da fortificação

Segundo as informações reunidas no material histórico, a fortificação teve sua origem ainda no século XVI, em 1543, quando Brás Cubas determinou sua construção para auxiliar na defesa da povoação de Santos diante das incursões dos Tamoios.

Em 1553, durante a visita do governador-geral Tomé de Sousa à Capitania de São Vicente, a fortificação recebeu reforço de artilharia.

A estrutura passou a desempenhar importante função na proteção da vila, em um período no qual as comunidades litorâneas estavam sujeitas a conflitos e incursões pelo mar.


🗺️ A localização no antigo centro de Santos

A antiga fortificação ocupava uma posição estratégica no espaço que corresponde atualmente à Praça da República, no Centro Histórico de Santos.

A área aproximava-se dos locais onde mais tarde seriam construídos os edifícios da Alfândega e da Recebedoria de Rendas.

Essa localização revela a importância do forte dentro da antiga organização urbana de Santos: tratava-se de uma área próxima ao litoral, às atividades comerciais e às estruturas administrativas da vila.


🧱 Da planta trapezoidal à forma circular

Originalmente, o forte apresentava uma planta em formato de trapézio. Em período posterior, a fortificação foi reedificada e adquiriu uma configuração circular.

As transformações arquitetônicas acompanharam as necessidades defensivas de diferentes épocas, assim como as mudanças nas técnicas militares e na organização da defesa da vila.


⚔️ Os comandantes da praça

A documentação histórica registra diferentes oficiais responsáveis pelo comando da fortificação.

Em 28 de maio de 1713, o capitão Pedro Monteiro de Mattos recebeu carta-patente para comandar a praça, com todas as honras, graças, franquezas, privilégios, isenções e liberdades previstas no documento.

Posteriormente, em 29 de maio de 1723, o capitão Miguel Antônio de Sobrat recebeu nova carta-patente para o comando.

Ele seria substituído pelo capitão de infantaria Leonardo de Macedo e Moura, integrante da Companhia de Ordenanças de Bertioga.

Em 29 de julho de 1735, o tenente-coronel Antônio Francisco Lustosa foi promovido a sargento-mor da praça.

Nesse período, a fortificação já possuía importantes estruturas de apoio, entre elas a Casa de Armas, o Armazém da Pólvora e as alpendradas do Trem.


💣 A artilharia do forte no século XVIII

Um relatório elaborado em 1736, pelo brigadeiro José da Silva Paes, registrou que a fortificação estava equipada com oito peças de artilharia em bateria.

Em 1770, durante o governo de D. Luís António de Sousa Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, um relatório enviado à Coroa informou que a praça possuía onze peças em baterias casamatadas, incluindo quatro peças de bronze.

Entretanto, outras referências apresentadas na documentação, como a de Muniz Jr. (1982), apontam para uma quantidade diferente, registrando seis peças de calibre 6 naquele período.

Essa diferença demonstra a importância de consultar diferentes documentos históricos quando se pretende reconstruir com precisão a configuração militar da fortificação em cada época.


🛠️ Reformas no final do século XVIII

No início de 1793, o capitão Antônio Ferreira Lustosa foi promovido a sargento-mor da praça.

Novas reformas ocorreram a partir de 1797, quando o tenente de milícias José Antônio Vieira de Carvalho contribuiu para a reconstrução do forte.

Entre os recursos fornecidos estavam tecido para os uniformes de cerca de duzentos soldados da guarnição, seis peças de artilharia, materiais de construção, carpinteiros e pedreiros.

Como recompensa pela contribuição, recebeu do governo da Capitania a mercê do comando honorífico do forte.


🗺️ A “Planta do Forte da Villa de Santos”

Entre os registros cartográficos relacionados à fortificação encontra-se a “Planta do Forte da Villa de Santos”, sem data identificada no material.

O documento foi elaborado pelo tenente-coronel José Antônio Teixeira Cabral e apresenta elementos cartográficos como rosa dos ventos, legenda e escala em palmos.


Imagem: Leituras Cartográficas Históricas e Contemporâneas, ed. conjunta BrasilConnects Cultura & Ecologia, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) e Exército Brasileiro, São Paulo/SP, março/2003.

A planta foi desenhada em folha de papel canson, com aproximadamente 35,5 x 47 centímetros, utilizando nanquim, tinta colorida e aquarela.

Esse tipo de documento possui grande importância para a pesquisa histórica e patrimonial, pois permite compreender a configuração espacial de uma fortificação que já não existe fisicamente.


🏛️ O forte no século XIX

Por volta de 1870, as dependências do antigo forte passaram a ser utilizadas como quartel do destacamento policial da cidade.

A mudança de função demonstra como antigas estruturas militares podiam ser reaproveitadas quando deixavam de atender plenamente às necessidades defensivas para as quais haviam sido construídas.

Em 1876, durante a reforma do prédio da Alfândega de Santos, os remanescentes da fortificação foram aproveitados para a instalação da Guarda-moria e para a construção de um galpão da Alfândega.


⚓ O desaparecimento do Forte da Vila

Em 1905, chegou a ser cogitada a possibilidade de aproveitamento do forte dentro de um novo plano de defesa do Porto de Santos.

Entretanto, suas ruínas acabaram desaparecendo em meio à expansão urbana e às grandes obras de modernização portuária.

Os remanescentes foram demolidos no contexto das obras realizadas pela Companhia Docas do Estado de São Paulo, relacionadas à expansão e modernização do porto.

Assim, uma estrutura que durante séculos integrou o sistema defensivo da antiga vila acabou sendo absorvida pelas profundas transformações urbanas e portuárias que marcaram Santos entre o final do século XIX e o início do século XX.


🏗️ Patrimônio desaparecido e memória de Santos

A história do Forte da Vila é um exemplo de como o crescimento de uma cidade pode modificar ou eliminar importantes referências de seu passado.

Hoje, a fortificação não existe mais fisicamente, mas sua memória permanece registrada em documentos, plantas, fotografias, mapas, relatos históricos e estudos sobre as antigas fortificações brasileiras.

A identificação correta de sua localização e a preservação de sua documentação são fundamentais para compreender a formação histórica de Santos e sua relação com a defesa do litoral paulista.

Para o turismo histórico e cultural, recuperar essa memória significa também valorizar lugares que desapareceram da paisagem, mas continuam fazendo parte da identidade histórica da cidade.


📚 Bibliografia

  • BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368 p.
  • GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
  • MORI, Victor Hugo; LEMOS, Carlos A. C.; ADLER, Homero F. de. Arquitetura Militar: um panorama histórico a partir do Porto de Santos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2003. 231 p.
  • SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.

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Este conteúdo integra a proposta de valorização do patrimônio histórico, cultural e turístico de Santos e da Baixada Santista, resgatando lugares, edificações e paisagens que ajudam a compreender a formação do território.

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