O navio negreiro – ou “tumbeiro” – foi o tipo de cargueiro usado para trazer mais de 11 milhões de africanos para serem escravizados na América. Em caravelas ou barcos a vapor, europeus, americanos e até mesmo negros se metiam no “infame comércio”. Os traficados eram, na maioria, meninos e jovens de 8 a 25 anos. Isso mudou nos últimos anos do tráfico. “Tudo quanto se podia trazer foi trazido: o manco, o cego, o surdo, tudo; príncipes, chefes religiosos, mulheres com bebês e mulheres grávidas”, disse o ex-traficante Joseph Cliffer, em depoimento ao Parlamento Britânico, em 1840.
Como não havia fabricação de navios apenas para o comércio de escravizados, até hoje já foram identificados pelo menos 60 tipos de embarcações adaptadas como tumbeiros. Se houve uma regra, é que eles ficaram menores e mais velozes no século 19, à medida que o tráfico se tornou ilegal e passou a ser perseguido pela política antiescravista dos ingleses a partir da aprovação da lei Bill Aberdeen, em 1845.
Veja como era a terrível viagem dos escravizados do século 19.
DANÇA TRISTE: Alguns traficantes levavam grupos de escravizados adultos para o convés e os obrigavam a fazer exercícios físicos. Sob a ameaça da chibata, os negros tinham de dançar e cantar. O resultado era um “espetáculo” melancólico, que dominava o navio
DANDO BANDEIRA: Autorizada por acordos com outras nações, na luta contra o tráfico a Inglaterra seguia e vistoriava navios suspeitos em alto-mar. Como os Estados Unidos não permitiam essa vistoria, barcos negreiros de várias nações hasteavam a bandeira americana para passar por baixo do nariz dos ingleses
TERROR INFANTIL: Além dos cerca de 20 tripulantes, apenas crianças podiam circular livremente no convés. Mas o rolê não era nada agradável. “Os jovens tinham acesso, mas muitos pulavam para fora do navio, pensando que seriam comidos”, afirmou aos ingleses o escravizado Augustino, traficado aos 12 anos
PIOR QUE O SAARA: “Houve um companheiro tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Suponho que foi jogado ao mar”, disse o escravo Mahommah Baquaqua. Entre fezes e temperaturas de até 55 ºC, comia-se apenas milho e bebia-se só meio litro de água por dia
MOVIMENTO NEGRO: Rebeliões eram frequentes. E algumas revoltas resultavam na conquista da embarcação pelos escravizados, como a do navio Amistad, em 1839. Outras, porém, como a do Kentucky, em 1845, acabaram com a morte de todos os escravos rebeldes, cujos corpos foram lançados ao mar
BANHO DE GATO: Para a higiene bucal, os escravizados faziam bochechos com vinagre. Para limpar o corpo, só podiam se enxaguar duas vezes durante toda a viagem. Muitos padeciam de graves infecções oculares e intestinais, e os que não morriam chegavam moribundos ou cegos
ESTANTE HUMANA: Os traficantes dividiam o porão em três patamares, com altura de menos de meio metro cada um. Presos pelos pés, mais de 500 escrizados se espremiam deitados ou sentados. “Ficavam como livros numa estante”, disse o traficante Joseph Cliffer
RADIOGRAFIA DO TRÁFICO: As seis principais rotas negreiras*
📊 Escravizados e sua origem:
| Letra | Região de origem | Número de escravizados |
|---|---|---|
| A | Serra Leoa | 66.974 |
| B | Costa do Ouro | 80.597 |
| C | Baía de Benin | 222.407 |
| D | Baía de Biafra | 217.781 |
| E | Congo e Angola | 952.937 |
| F | Moçambique | 236.504 |
| Total | — | 1.777.200 |
🌎 Escravizados que chegaram a diferentes destinos:
| Nº | Destino | Número de escravizados |
|---|---|---|
| 1 | Carolina (EUA) | 47.000 |
| 2 | Cuba | 502.998 |
| 3 | Jamaica | 69.000 |
| 4 | Guiana | 65.049 |
| 5 | Bahia | 161.883 |
| 6 | Sudeste do Brasil | 893.925 |
| Total | — | 1.739.855 |
Fonte: The Trans-Atlantic Slave Trade Database, estudo sobre o tráfico transatlântico de africanos escravizados, com dados referentes ao período de 1801 a 1862, conforme informado no material apresentado.
Fonte..:: Barreiras Notícias










