História e Fotos Antigas do Quilombo do Jabaquara em Santos SP

O Quilombo do Jabaquara, em Santos, foi um dos mais importantes espaços de resistência à escravidão e de acolhimento de pessoas escravizadas em fuga no Brasil durante os últimos anos do século XIX. Organizado em 1882, em uma cidade que se destacava pelo movimento abolicionista e pela atividade portuária, o quilombo tornou-se um importante ponto de chegada para fugitivos das fazendas do interior paulista. Sua liderança ficou associada a Quintino de Lacerda, homem negro liberto que desempenhou papel fundamental na organização da comunidade e na articulação política e social de seus moradores.

Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio e Mestre em Ciências.

📷 Fotografia rara e histórica do Quilombo do Jabaquara, em Santos (SP). Ano: (circulando registros entre 1888 e final do século XIX). Fotógrafo: Marc Ferrez.


🕰️ O contexto histórico de Santos no século XIX

Durante a segunda metade do século XIX, Santos transformava-se rapidamente em um dos principais centros econômicos do litoral paulista. O crescimento das atividades portuárias, a expansão do comércio e a necessidade de trabalhadores contribuíram para modificar profundamente a estrutura social da cidade.

Ao mesmo tempo, Santos tornou-se um dos principais focos do movimento abolicionista em São Paulo. Grupos de abolicionistas, entre eles os chamados Caifazes, atuavam na organização de fugas de pessoas escravizadas das fazendas do interior paulista.

Muitos fugitivos seguiam em direção ao litoral porque encontravam em Santos uma rede de apoio formada por abolicionistas, trabalhadores, comerciantes e outros setores da população.

Nesse contexto, o Quilombo do Jabaquara surgiu como um importante espaço de acolhimento e proteção, inserindo-se diretamente na luta contra a escravidão.


🌿 A formação do Quilombo do Jabaquara

O Quilombo do Jabaquara foi constituído em 1882, reunindo pessoas libertas e escravizadas que haviam fugido de diferentes localidades, principalmente do interior da província de São Paulo.

Sua formação esteve relacionada à atuação dos abolicionistas santistas, que ajudavam a organizar as fugas e proporcionavam condições para que os fugitivos chegassem à cidade.

A comunidade foi instalada em uma área então afastada do núcleo urbano, nas proximidades da atual Santa Casa de Santos e das encostas dos morros, em uma região de difícil acesso.

O terreno utilizado pelo quilombo estava relacionado a propriedades pertencentes a imigrantes, entre eles Benjamim Fontana, e sua utilização posteriormente seria motivo de disputas, especialmente com o avanço das obras de modernização urbana e portuária.

As estimativas sobre o número de pessoas que passaram pelo Jabaquara variam bastante nas fontes históricas. Há referências que mencionam milhares de moradores, com estimativas que vão de aproximadamente 3 mil a 10 mil pessoas e, em algumas fontes, números ainda maiores. Por isso, é mais adequado afirmar que o Jabaquara foi um dos maiores quilombos urbanos do período final da escravidão brasileira, sem tratar uma única estimativa como definitiva.


🏚️ Como era o Quilombo do Jabaquara

O quilombo ocupava uma área extensa e de difícil acesso, próxima às encostas dos morros. A comunidade era formada por pequenas casas, barracas, caminhos, áreas de convivência e espaços destinados ao comércio e ao armazenamento de alimentos.

Havia também um grande barracão e um espaço aberto utilizado para encontros, reuniões, descanso e comemorações.

A descrição feita pelo historiador José Maria dos Santos, registrada por Maria Lúcia Gitahy em Ventos do Mar, ajuda a imaginar a paisagem do antigo quilombo. Segundo o relato, os moradores construíram diversas habitações utilizando madeira, palha, taipa e folhas de zinco, abriram caminhos e estabeleceram pequenas atividades comerciais.

O conjunto teria formado uma espécie de pequena comunidade popular encravada entre os morros e cercada por áreas de cultivo, revelando que o quilombo não era apenas um local de esconderijo, mas também um espaço de convivência, trabalho e organização coletiva.

🏠 As antigas choupanas do Jabaquara em cartão-postal

Outras imagens raras e histórica relacionada ao antigo quilombo registram choupanas localizada no Morro do Jabaquara.

📸 Cartão Postal de Foto Antiga — Choupana no Morro do Jabaquara, Santos SP.

📸 Cartão Postal Tipográficos Uma Choupana, Nos Arredores de Santos – Jabaquara.

📸 São Paulo – Santos – Jabaquara, Uma Choupana – Cartão Postal antigo original, série em cores nº 245, editado por M. Pontes, circulado em 1929. Mede 14×9 cm.

As fotografias foram utilizada como cartão-postal durante os primeiros anos do século XX, quando a paisagem do antigo quilombo ainda fazia parte da memória visual de Santos. A existência dessa imagem demonstra que as antigas habitações do Jabaquara permaneceram visíveis durante algum tempo mesmo após o fim da comunidade e da escravidão.

Fotos antigas, divulgadas em cartões-postais, dos primeiros anos do século XX. Negociado em sites de leilões.


✊ Quintino de Lacerda, o líder do Jabaquara

Entre os personagens mais importantes dessa história está Quintino de Lacerda, homem negro nascido em Sergipe e que chegou a Santos como liberto, após ter sido escravizado pela família Lacerda.

Quintino estabeleceu relações tanto com a população negra quanto com setores da elite santista. Essa capacidade de circulação entre diferentes grupos sociais foi fundamental para sua atuação.

Ele participou diretamente da organização do Jabaquara, acolhendo fugitivos, articulando apoios e enfrentando aqueles que tentavam recapturá-los.

Sua trajetória demonstra as contradições da sociedade brasileira daquele período. Ao mesmo tempo em que enfrentava o racismo e as limitações impostas à população negra, Quintino utilizava suas relações sociais e políticas para ampliar espaços de proteção e oportunidades para outras pessoas negras.


⚖️ Quintino entre a resistência e as elites

A proximidade de Quintino com setores da elite santista fez com que sua trajetória fosse posteriormente interpretada de diferentes maneiras.

É importante, entretanto, compreender que essa relação não anulava sua atuação em defesa da população negra. Pelo contrário, Quintino utilizou essas conexões como instrumentos para abrir caminhos em uma sociedade profundamente marcada pela escravidão e pelo racismo.

Sua atuação envolveu o acolhimento de fugitivos, a organização do quilombo, a inserção de libertos e libertas no mercado de trabalho e a participação na vida política de Santos.

Essa posição intermediária produziu uma trajetória marcada por alianças, conflitos, contradições e estratégias de sobrevivência e resistência.


🧠 O preconceito presente nos elogios a Quintino

Um dos aspectos mais reveladores da história de Quintino está nos relatos de membros da elite que o elogiavam.

O abolicionista Silva Jardim, por exemplo, fez comentários extremamente elogiosos sobre Quintino, mas utilizou uma linguagem que hoje evidencia claramente o racismo presente na sociedade brasileira daquele período.

Ao classificá-lo como um homem negro excepcional e destacar suas qualidades físicas, morais e de liderança, o discurso acabava reforçando a ideia preconceituosa de que pessoas negras precisariam ser apresentadas como exceções para serem reconhecidas socialmente.

Esse tipo de representação é importante para compreender como o racismo se manifestava não apenas por meio da violência e da exclusão direta, mas também por meio de discursos aparentemente elogiosos que colocavam a população negra em uma posição de excepcionalidade diante da sociedade branca.


🏛️ Quintino de Lacerda e a política de Santos

A atuação de Quintino não ficou restrita ao Quilombo do Jabaquara. Ele exerceu diferentes funções públicas e tornou-se uma figura de destaque na política santista. Foi inspetor de quarteirão e posteriormente conquistou espaço na vida política municipal.

Sua eleição para a Câmara Municipal foi marcada por resistência e preconceito. Por ser negro e analfabeto, sua presença no espaço político provocou forte oposição de setores que não aceitavam sua ascensão.

Mesmo diante das tentativas de impedir sua posse, Quintino recorreu à Justiça e conseguiu garantir o direito de exercer o cargo.

Sua trajetória tornou-se, assim, um importante exemplo da participação política da população negra no período imediatamente posterior à Abolição.


⚔️ Quintino na Revolta da Armada

Quintino também participou de acontecimentos políticos e militares que marcaram os primeiros anos da República.

Durante a Revolta da Armada, em 1893, envolveu-se nas forças leais ao governo republicano.

Em reconhecimento à sua atuação, recebeu a patente honorária de major do Exército e foi homenageado com um relógio de ouro.

Esses episódios demonstram como sua trajetória ultrapassou os limites do antigo quilombo e alcançou diferentes áreas da sociedade santista.


⚓ A Abolição de 1888 e as transformações em Santos

A Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, mudou juridicamente a condição de milhões de pessoas escravizadas no Brasil, mas não resolveu os problemas sociais, econômicos e raciais que haviam sido produzidos por séculos de escravidão.

Em Santos, a situação era particularmente complexa. A cidade entrava em um período de grandes transformações urbanas e portuárias. O crescimento do porto e a implantação de novas estruturas de infraestrutura aumentaram o valor das áreas próximas ao centro e aos morros.

Nesse processo, a área onde havia funcionado o Quilombo do Jabaquara passou a despertar novos interesses econômicos.


⛏️ O fim do quilombo e a transformação da área

Com a modernização de Santos e a expansão das atividades portuárias, a área do antigo quilombo passou a ser disputada e gradualmente transformada.

O espaço que anteriormente servira como refúgio para pessoas que fugiam da escravidão passou a ser associado a novas atividades econômicas, incluindo a exploração de pedreiras.

A transformação do território revela uma das grandes contradições do período pós-abolição: a liberdade jurídica não significou automaticamente acesso à terra, moradia, trabalho digno ou igualdade social.

Quintino continuou atuando na busca por trabalho para pessoas negras, inclusive em atividades relacionadas à pedreira e ao porto.


👷 Trabalho, porto e conflitos sociais

A expansão do porto de Santos criou uma enorme demanda por trabalhadores.

Quintino participou da mobilização de trabalhadores negros para atividades no porto e em outros setores da economia local.

No final do século XIX e início do século XX, porém, surgiram conflitos entre diferentes grupos de trabalhadores. Em determinadas paralisações, trabalhadores negros chegaram a ser acusados por outros operários de atuar como “fura-greves”.

Esse episódio evidencia as complexas relações entre raça, trabalho, imigração e organização operária em Santos durante a formação de uma sociedade urbana e industrial.


🗳️ A importância de Quintino de Lacerda

Quintino de Lacerda tornou-se uma figura histórica justamente porque sua trajetória ultrapassou os limites da liderança comunitária.

Ele foi líder quilombola, trabalhador, agente político, funcionário público e participante das disputas sociais de seu tempo.

Sua experiência também demonstra que a população negra não foi apenas vítima passiva das transformações ocorridas no final do século XIX.

Ao contrário, homens e mulheres negros criaram estratégias de resistência, organizaram comunidades, buscaram trabalho, participaram da política e disputaram espaços na sociedade após a Abolição.


⚰️ A morte de Quintino de Lacerda

Quintino de Lacerda morreu em 10 de agosto de 1898, aos 43 anos.

No dia seguinte, uma grande multidão acompanhou seu funeral até o Cemitério do Paquetá, em Santos.

Relatos publicados pelos jornais A Tribuna do Povo e Diário de Santos mencionam que centenas e possivelmente milhares de pessoas participaram da despedida.

A dimensão do cortejo demonstra o prestígio que Quintino havia conquistado entre diferentes setores da população santista.

Sua morte marcou o desaparecimento de uma das principais lideranças negras da cidade naquele período.


🗺️ Onde ficava o antigo Quilombo do Jabaquara?

A localização do quilombo corresponde, de maneira aproximada, à região que atualmente envolve áreas próximas à Santa Casa de Santos, ao Morro do Jabaquara, ao Morro do Fontana e às encostas em direção à Nova Cintra.

A configuração urbana atual modificou profundamente a paisagem original.

O território que no século XIX era ocupado por morros, caminhos, pequenas moradias e áreas de vegetação foi progressivamente incorporado à expansão urbana.

Por isso, identificar a localização histórica do Jabaquara no mapa atual é também uma forma de compreender as transformações territoriais de Santos.


🌿 O significado do nome Jabaquara

O nome Jabaquara possui origem indígena e é tradicionalmente associado a significados relacionados a refúgio, esconderijo ou local de fuga, embora existam diferentes interpretações etimológicas.

A denominação também está relacionada ao antigo Rio Jabaquara, que atravessava a região e contribuiu para a formação da toponímia local.

A presença de nomes indígenas em diferentes pontos de Santos revela uma camada ainda mais antiga da história do território, anterior à formação da cidade colonial e ao processo de urbanização do século XIX.


📜 O Jabaquara e outros espaços de resistência negra

O Quilombo do Jabaquara não existiu isoladamente. Durante o século XIX, Santos possuía diferentes espaços de sociabilidade e resistência da população negra. Entre eles estava a comunidade associada a Pai Felipe, localizada em outra área da cidade.

Esses espaços demonstram que a população negra desenvolveu redes próprias de solidariedade, religiosidade, trabalho, convivência e resistência, fundamentais para enfrentar a escravidão e o racismo.


🧭 Do quilombo à cidade

A história do Quilombo do Jabaquara está diretamente relacionada ao processo de transformação de Santos.

Em poucas décadas, a região passou de área de refúgio de pessoas escravizadas em fuga para território incorporado à expansão urbana, às atividades econômicas e à modernização da cidade.

Essa transformação territorial também provocou o desaparecimento gradual das antigas construções e da paisagem associada ao quilombo.

Por isso, as fotografias antigas possuem um valor que vai muito além do aspecto estético: elas funcionam como documentos históricos capazes de preservar visualmente uma parte da memória negra de Santos.


🖤 O legado do Quilombo do Jabaquara

O Quilombo do Jabaquara representa um dos capítulos mais importantes da história de Santos e da luta contra a escravidão no Brasil.

Sua história reúne resistência negra, abolicionismo, fuga de escravizados, organização comunitária, trabalho, política, racismo, disputas territoriais e transformação urbana.

Mais do que lembrar um espaço físico que desapareceu, conhecer o Jabaquara significa reconhecer a participação decisiva da população negra na construção da história de Santos.

Quintino de Lacerda e os milhares de homens e mulheres que passaram pelo Jabaquara fazem parte da história da liberdade no Brasil.

Preservar essa memória é também uma forma de compreender que a Abolição não foi apenas resultado de uma lei, mas de décadas de resistência, organização, luta e protagonismo da própria população negra, somadas à atuação de diferentes setores do movimento abolicionista.


📚 História, memória e turismo cultural em Santos

O antigo Quilombo do Jabaquara possui enorme potencial para ações de educação patrimonial, turismo histórico e turismo cultural.

Conhecer os lugares relacionados à história negra de Santos permite ampliar a compreensão sobre a formação da cidade e valorizar personagens que durante muito tempo receberam pouca visibilidade na narrativa histórica tradicional.

Roteiros de memória podem conectar o antigo território do Jabaquara a outros espaços relacionados à história afro-brasileira, à formação do porto, à Abolição e à transformação urbana de Santos.

Dessa maneira, o turismo histórico pode contribuir para preservar a memória, estimular a educação patrimonial e fortalecer o reconhecimento da herança cultural afro-brasileira.


📍 Turismo Histórico e Cultural em Santos e Região

Para conhecer mais sobre turismo histórico, cultural, ambiental e educativo em Santos e região, acesse a R9 Turismo. R9 Turismo


💬 Espaço do Leitor: 🔰 Você já conhecia a história do Quilombo do Jabaquara e de Quintino de Lacerda, um dos personagens negros mais importantes da história de Santos? Conte nos comentários o que você sabe sobre esse patrimônio histórico e cultural da cidade. 🔰

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