No Centro de Guarujá (SP), durante décadas, um pequeno pavilhão instalado em uma das principais avenidas da cidade abrigou uma peça singular da história brasileira: o Chevrolet Ramona fabricado em 1929 que transportou o corpo de Alberto Santos Dumont após sua morte, em 23 de julho de 1932. O veículo tornou-se uma importante referência da memória do município e, durante muitos anos, foi uma atração turística associada à história do chamado Pai da Aviação.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
Fotos de..:: Renato Marchesini
✈️ Santos Dumont e seus últimos dias em Guarujá
Alberto Santos Dumont passou seus últimos dias em Guarujá, cidade que frequentava e onde mantinha uma relação com o ambiente sofisticado da antiga estação balneária.
Em 23 de julho de 1932, Santos Dumont morreu no Grand Hôtel La Plage, localizado na Praia de Pitangueiras. O edifício posteriormente foi demolido e, atualmente, o local é ocupado pelo Shopping La Plage.
A Prefeitura de Guarujá mantém atualmente uma referência física à memória do aviador no local, onde foram inaugurados uma placa comemorativa e um busto de Santos Dumont em 2023, durante as comemorações dos 150 anos de seu nascimento.
A morte do inventor marcou profundamente a história do município e, a partir daquele momento, Guarujá passou a estar definitivamente ligado a um dos personagens mais conhecidos da história da aviação brasileira.
⚰️ O Chevrolet Ramona de 1929
O veículo utilizado para transportar o corpo de Santos Dumont era um Chevrolet Ramona preto, fabricado em 1929.
O automóvel possui características construtivas bastante particulares. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura de Guarujá, o veículo passou por diferentes processos de restauração ao longo de sua história e possui elementos em madeira, incluindo portas laterais confeccionadas em cedro-rosa.
O trabalho de restauração também revelou detalhes decorativos sofisticados, como frisos com aplicação de folhas de ouro, elementos folheados a ouro no capô e acabamento em laca preta acetinada.
Essas características fazem do automóvel não apenas um objeto relacionado à história de Santos Dumont, mas também um exemplar de interesse para a história dos automóveis e dos serviços funerários do início do século XX.
🛣️ O cortejo que deixou Guarujá
Após a morte de Santos Dumont, o corpo foi colocado no Chevrolet Ramona para iniciar o deslocamento de Guarujá.
O cortejo percorreu a Avenida Puglisi e seguiu até a travessia entre Guarujá e Santos. A partir dali, o cortejo prosseguiu em direção a São Paulo e posteriormente ao Rio de Janeiro, onde ocorreu o sepultamento.
A travessia marítima entre as duas cidades era realizada pelo sistema de balsas, que já fazia parte da ligação entre as margens do estuário.
Assim, o automóvel que posteriormente seria preservado como patrimônio histórico percorreu, naquele momento, o caminho final do corpo de Santos Dumont para fora de Guarujá.
🏛️ O pavilhão na Avenida Leomil
Com o passar das décadas, o Chevrolet Ramona passou a ser preservado como uma peça histórica em Guarujá.
O veículo ficou instalado em um pavilhão construído no canteiro central da Avenida Leomil, próximo ao cruzamento com a Avenida Puglisi, região central da cidade.
O espaço fazia parte de um conjunto de referências urbanas voltadas à memória e ao turismo. Próximo dali também existia o Pavilhão da Maria Fumaça, estabelecendo uma relação entre duas atrações de caráter histórico.
O pavilhão transformou o automóvel em uma espécie de monumento à memória de Santos Dumont, permitindo que moradores e visitantes conhecessem o veículo associado aos seus últimos momentos em Guarujá.
🚂 O Pavilhão do Carro Fúnebre e a Maria Fumaça
A presença do carro fúnebre não era um elemento isolado na paisagem urbana.
O pavilhão que abrigava o Chevrolet Ramona estava relacionado visualmente ao espaço onde também era preservada uma Maria Fumaça, formando um conjunto de atrações que utilizavam veículos históricos para contar diferentes aspectos da memória do município.
Essa característica contribuiu para transformar aquele trecho do Centro de Guarujá em um espaço de interesse para quem buscava conhecer aspectos da história local.
O carro fúnebre, entretanto, possuía uma particularidade que o diferenciava: estava diretamente associado a um acontecimento histórico ocorrido na própria cidade.
🕰️ O veículo como patrimônio histórico
Durante décadas, o Chevrolet Ramona permaneceu associado à memória de Guarujá.
A importância do automóvel não estava somente em sua relação com Santos Dumont. O veículo também representa um período da história dos transportes, da construção automobilística e dos costumes urbanos brasileiros.
Sua preservação permite compreender aspectos materiais de uma época em que automóveis eram objetos de grande valor e sofisticação, além de registrar uma etapa da evolução dos transportes utilizados em cerimônias funerárias.
Por essa razão, o veículo pode ser interpretado simultaneamente como patrimônio automobilístico, histórico e cultural.
🔧 As restaurações realizadas por João Pires
A conservação do Chevrolet Ramona também está relacionada ao trabalho do restaurador João Pires, morador de Guarujá.
Segundo a Prefeitura, Pires realizou seu primeiro grande trabalho de restauração no automóvel em 1980, em um processo que durou mais de cinco meses. Para realizar o serviço, o veículo precisou ser levado para o quintal de sua residência, sendo necessário até mesmo retirar parte do muro para permitir sua entrada.
O restaurador também participou de uma segunda reforma, realizada em 2001, dessa vez na Garagem Municipal de Guarujá.
Seu trabalho envolveu diferentes profissionais e especialidades, incluindo marcenaria, mecânica, tapeçaria, vidraçaria e ferragens, demonstrando a complexidade necessária para conservar um automóvel histórico com tantas partes originais e detalhes artesanais.
📦 A retirada do pavilhão
Com o passar dos anos, o veículo apresentou necessidades de conservação cada vez maiores.
O automóvel foi retirado de sua antiga instalação e passou por um novo processo de preservação. Em 2022, o Chevrolet Ramona foi restaurado em Santos por meio de uma parceria envolvendo a Prefeitura de Guarujá e o Memorial Necrópole Ecumênica, que doou os serviços de restauração ao município.
O trabalho teve como objetivo recuperar o veículo e aproximá-lo de suas características originais, utilizando técnicas especializadas de conservação.
Após o restauro, o automóvel retornou temporariamente a Guarujá para integrar uma exposição dedicada a Santos Dumont.
🖼️ O retorno a Guarujá em 2022
Em 19 de maio de 2022, o Chevrolet Ramona restaurado voltou a Guarujá.
O veículo foi apresentado em uma exposição realizada no City Ferry Boat’s Plaza Shopping, na região da Vila Lígia, reunindo também fotografias, documentos e outros materiais relacionados à trajetória de Santos Dumont.
A mostra foi organizada pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Turismo, e recebeu visitantes durante o período das comemorações relacionadas ao nascimento e à morte do aviador.
O retorno temporário do veículo possibilitou que moradores e visitantes voltassem a ter contato direto com uma peça que durante décadas esteve associada à paisagem urbana de Guarujá.
🎖️ O veículo nas comemorações dos 150 anos de Santos Dumont
O ano de 2023 marcou os 150 anos do nascimento de Alberto Santos Dumont, ocorrido em 20 de julho de 1873.
Dentro das comemorações, Guarujá realizou uma solenidade para formalizar a doação do carro fúnebre ao Museu Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, no Rio de Janeiro.
A cerimônia ocorreu em junho de 2023 e marcou uma nova etapa na trajetória do veículo: depois de décadas como símbolo da memória de Santos Dumont em Guarujá, o automóvel passou a integrar uma instituição dedicada à preservação da história da aviação brasileira.
✈️ O destino do carro: Museu Aeroespacial
O Museu Aeroespacial (MUSAL), localizado no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, recebeu o Chevrolet Ramona como parte de seu acervo.
A transferência ampliou a dimensão nacional do patrimônio. O automóvel deixou de ser somente uma referência da história de Guarujá e passou a integrar um acervo especializado na preservação da memória da aeronáutica e da aviação brasileira.
A Prefeitura de Guarujá destacou, na época da doação, que o veículo se tornaria um destaque nacional do acervo do museu.
🏛️ O que permanece em Guarujá
A transferência do carro fúnebre não significa que a memória de Santos Dumont tenha desaparecido de Guarujá.
O local onde funcionava o Grand Hôtel La Plage permanece como referência histórica e atualmente abriga o Shopping La Plage. Em 2023, o município inaugurou naquele espaço uma placa comemorativa e um busto de Santos Dumont, reforçando a relação entre o aviador e a história da cidade.
Além disso, documentos e objetos relacionados ao personagem também fazem parte de iniciativas de preservação da memória local. A Biblioteca Municipal Martins Fontes, por exemplo, mantém entre seus itens históricos uma cópia da certidão de óbito de Santos Dumont.
📸 As fotografias como testemunhos da memória
As fotografias antigas do pavilhão possuem grande valor documental.
Elas permitem visualizar o Chevrolet Ramona dentro da estrutura construída para sua proteção, sua relação com a paisagem urbana e sua importância como atração turística.
A comparação entre imagens de diferentes períodos também possibilita acompanhar as transformações ocorridas no Centro de Guarujá, mostrando como monumentos, edifícios, vias e equipamentos turísticos foram sendo modificados ao longo do tempo.
Por isso, fotografias do antigo pavilhão não devem ser observadas apenas como registros de um automóvel: elas também documentam a história urbana e turística de Guarujá.
🧭 O carro fúnebre como patrimônio de Guarujá
A história do Chevrolet Ramona reúne diferentes dimensões do patrimônio.
Ele está relacionado à história de Santos Dumont, à trajetória da aviação brasileira, à história automobilística, à memória urbana de Guarujá e à própria evolução do turismo no município.
Durante décadas, o pavilhão permitiu que moradores e visitantes conhecessem presencialmente um objeto associado a um dos acontecimentos históricos mais conhecidos da cidade.
Atualmente, o veículo encontra-se vinculado ao acervo do Museu Aeroespacial, enquanto Guarujá preserva outros marcos materiais e simbólicos relacionados à presença de Santos Dumont.
🌎 Da memória local ao patrimônio nacional
A trajetória do carro fúnebre demonstra como um objeto histórico pode ultrapassar os limites do lugar onde sua história começou.
Em Guarujá, o Chevrolet Ramona estava diretamente relacionado à morte e ao cortejo de Santos Dumont. Depois de décadas de exposição pública, restaurações e mudanças de localização, o veículo passou a integrar uma instituição nacional dedicada à história da aviação.
Essa trajetória reforça a importância da preservação do patrimônio histórico, pois objetos aparentemente incomuns podem carregar informações únicas sobre pessoas, acontecimentos, tecnologias, costumes e lugares.
🏖️ Santos Dumont e o turismo histórico de Guarujá
A história do aviador constitui um dos capítulos importantes da memória cultural de Guarujá.
Um roteiro dedicado a Santos Dumont pode relacionar diferentes lugares: o antigo Grand Hôtel La Plage, atual Shopping La Plage; o local associado aos seus últimos dias; as referências históricas existentes na cidade; e a trajetória do carro fúnebre que percorreu as ruas de Guarujá em 1932.
Dessa maneira, a história deixa de ser apenas uma informação registrada em livros e fotografias e passa a ser interpretada a partir dos próprios lugares onde os acontecimentos ocorreram.
Para conhecer melhor a história, a cultura, o patrimônio e os lugares que ajudaram a construir Guarujá e Região, confira as propostas de roteiros de turismo histórico e cultural da R9 Turismo WWW.R9TURISMO.COM.
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Você se lembra do antigo Pavilhão do Carro Fúnebre de Santos Dumont em Guarujá? Chegou a visitar o local ou possui fotografias e histórias sobre esse importante patrimônio da memória guarujaense? 🔰










