A Viagem dos Marchesini ao Brasil em 1952: O Navio Cabo de Hornos e da Imigração do pós-guerra

🚢 A chegada de Mario Marchesini e de sua esposa, Clara Zanetti, ao Brasil, em 20 de outubro de 1952, foi registrada em uma certidão de desembarque preservada pelo Memorial do Imigrante, em São Paulo. O documento informa que o casal era italiano, procedente de Gênova, e chegou ao Porto de Santos a bordo do navio Cabo de Hornos, com destino final a Campinas. Mais do que registrar uma viagem, esse documento permite recuperar parte de uma história familiar e compreender o contexto da imigração europeia para o Brasil no período posterior à Segunda Guerra Mundial.

Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.


📜 A certidão de desembarque: os dados da família Marchesini

A certidão foi emitida em 14 de outubro de 2009, pelo Memorial do Imigrante, vinculado à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, sob o protocolo nº 7.248/09. O documento apresenta os seguintes dados:

  • Nome: Mario Marchesini.
  • Nacionalidade: italiana.
  • Idade: 22 anos.
  • Sexo: masculino.
  • Estado civil: casado.
  • Filiação: não consta.
  • Profissão: registrada como “relejo”.
  • Última residência: Gênova, Itália.
  • Navio: Cabo de Hornos.
  • Porto de procedência: Gênova.
  • Destino declarado: Campinas, São Paulo.
  • Passaporte: nº xxxxxxxxxx, expedido em Vicenza, em 6 de agosto de 1952.
  • Data de desembarque: 20 de outubro de 1952, no Porto de Santos.
  • Responsável pela família: o próprio Mario.
  • Acompanhante: Clara Zanetti, sua esposa, então com 21 anos.
  • Religião indicada no registro: católica.
  • Visto: permanente, com referência ao artigo 9º do Decreto-Lei nº 7.967/1945.

A certidão é um registro documental importante porque permite identificar não apenas a data e o local de entrada no Brasil, mas também a procedência, a composição familiar, a profissão declarada e o destino da viagem. O Arquivo Público do Estado de São Paulo explica que as listas gerais de passageiros do Porto de Santos registravam informações como nacionalidade, parentesco, idade, profissão, religião, passaporte, procedência e destino dos imigrantes.


🚢 A história do Navio Cabo de Hornos

O navio Cabo de Hornos, da companhia espanhola Ybarra, em registro histórico. Foto publicada pelo portal Vida Marítima.

O navio que trouxe Mario e Clara ao Brasil tinha uma trajetória anterior à sua atuação nas rotas migratórias entre a Europa e a América do Sul. Construído nos Estados Unidos, passou por diferentes companhias e recebeu vários nomes ao longo de sua vida marítima.

Sua história pode ser organizada em ordem cronológica:

  • 1920: lançamento ao mar nos Estados Unidos, originalmente com o nome Empire State.
  • 1922: passou a se chamar President Wilson, operando inicialmente em linhas marítimas norte-americanas.
  • 1925: foi transferido para a Dollar Line.
  • 1938: passou ao controle da American President Lines, após mudanças na estrutura empresarial do setor marítimo norte-americano.
  • 1940: foi adquirido por empresas espanholas. Recebeu inicialmente o nome María Pipa e, em agosto daquele ano, passou a ser chamado Cabo de Hornos.
  • 1940–1950: nestas décadas integrou a frota da companhia espanhola Ybarra, atuando principalmente nas rotas entre a Europa e a América do Sul.
  • 1959: foi retirado de serviço e encaminhado para desmantelamento em Avilés, na Espanha.

O nome María Pipa, encontrado em registros históricos, merece atenção porque algumas referências apresentam variações na grafia. A sequência documentada pelo portal especializado Vida Marítima indica que o navio recebeu esse nome antes de ser rebatizado como Cabo de Hornos, em agosto de 1940.


⚓ Características e capacidade do navio

O Cabo de Hornos era um navio transatlântico de grande porte para sua época. As referências marítimas consultadas apontam aproximadamente 163 metros de comprimento e arqueação bruta de cerca de 12.597 toneladas. Os dados de capacidade variam conforme a fonte e a configuração das acomodações: uma referência sobre o navio informa espaço para aproximadamente 370 passageiros em camarotes, distribuídos em duas classes, além de cerca de 410 passageiros nos alojamentos inferiores, conhecidos como sollados.

Registro histórico do navio Cabo de Hornos atracado em Gênova. Imagem publicada pelo portal Vida Marítima.

A embarcação combinava o transporte de passageiros e de cargas, característica comum em muitos navios transatlânticos daquele período. Suas instalações ofereciam diferentes níveis de conforto, de acordo com a categoria da passagem adquirida.

Registro histórico do navio Cabo de Hornos. Fonte: Timetableimages.


🌎 A rota entre a Europa e a América do Sul

O Cabo de Hornos integrou a chamada Linha do Rio da Prata, que conectava portos europeus a cidades sul-americanas. Entre os pontos de embarque estavam Gênova, na Itália, e Cádiz, na Espanha. Na América do Sul, o navio atendia diferentes portos, incluindo cidades brasileiras e os destinos de Montevidéu e Buenos Aires.

A rota podia sofrer alterações conforme as condições de navegação, a disponibilidade de combustível e as necessidades operacionais da companhia. Registros históricos da navegação mostram escalas em portos como Barcelona, Cádiz, Santa Cruz de Tenerife, Rio de Janeiro, Santos, Montevidéu e Buenos Aires, embora nem todas as viagens cumprissem exatamente o mesmo itinerário.

A década de 1950 foi especialmente importante para esse tipo de transporte. A Europa ainda vivia os efeitos econômicos e sociais da Segunda Guerra Mundial, enquanto países sul-americanos recebiam imigrantes em busca de trabalho, estabilidade e novas oportunidades.

O Cabo de Hornos e seu navio-irmão, o Cabo de Buena Esperanza, tiveram participação nesse movimento migratório, transportando passageiros de diferentes nacionalidades. O portal Vida Marítima registra que, no início dos anos 1950, os dois navios realizavam travessias com a terceira classe lotada.


🧳 Como era a viagem de um imigrante nos anos 1950?

A travessia entre a Itália e o Brasil era uma experiência marcante. Para muitas famílias, representava a despedida de sua terra natal e o início de uma vida em um país desconhecido.

O embarque em Gênova: Antes de chegar ao navio, muitas famílias precisavam viajar de suas cidades de origem até o porto. Levavam malas, documentos, roupas e poucos objetos pessoais. No embarque, eram realizados procedimentos de identificação, conferência de passaportes e verificações exigidas pelas autoridades.

A vida a bordo: As condições variavam conforme a classe da passagem. Os passageiros das categorias superiores dispunham de camarotes e espaços de convivência mais confortáveis. Já os viajantes da terceira classe ocupavam alojamentos coletivos, com beliches e instalações compartilhadas.

Um relato de um antigo integrante da tripulação, reproduzido pelo portal Vida Marítima, descreve a separação dos alojamentos de homens e mulheres na terceira classe, inclusive durante o período noturno. Esse testemunho ajuda a compreender as diferenças de tratamento e as condições de viagem enfrentadas pelos imigrantes.

A rotina durante a travessia: Conversas, descanso no convés, jogos e momentos de convivência ajudavam a preencher os dias de navegação. Para os italianos, a saudade da família, da língua e dos costumes deixados para trás fazia parte da experiência.

A duração da viagem dependia do itinerário e das escalas realizadas. Por isso, não é possível afirmar o tempo exato que Mario e Clara permaneceram a bordo apenas com base na certidão de desembarque.

A chegada ao Brasil: A aproximação da costa brasileira representava um momento de grande expectativa. Depois de atravessar o Atlântico, os passageiros avistavam a paisagem do litoral, a vegetação e as montanhas da Serra do Mar.

Em 20 de outubro de 1952, Mario Marchesini e Clara Zanetti desembarcaram no Porto de Santos. A partir dali, a viagem prosseguiria em direção a Campinas, destino registrado no documento.


🧭 A profissão registrada como “relejo”

Um detalhe curioso da certidão está no campo destinado à profissão de Mario Marchesini, onde aparece a palavra “relejo”.

O termo pode representar uma grafia antiga, uma adaptação ou uma leitura documental relacionada à profissão de relojoeiro, correspondente ao italiano orologiaio. Entretanto, como a certidão não apresenta explicação adicional, essa interpretação deve ser considerada uma hipótese, e não uma identificação definitiva.

Caso se confirme essa leitura, Mario teria trabalhado com manutenção e conserto de relógios, atividade artesanal que exigia conhecimento técnico e habilidade manual. Campinas, indicada como destino da família, era uma cidade em desenvolvimento e oferecia oportunidades em diferentes setores do comércio e dos serviços.


📜 O visto permanente e o Decreto-Lei nº 7.967/1945

A certidão de Mario Marchesini menciona o visto permanente, com referência ao artigo 9º do Decreto-Lei nº 7.967, de 18 de setembro de 1945, legislação que tratava da imigração e da colonização no Brasil.

O artigo 9º estabelecia que o visto permanente seria concedido ao estrangeiro que estivesse em condições de permanecer definitivamente no país e tivesse a intenção de nele fixar residência. Portanto, a referência indica a modalidade de autorização migratória relacionada ao estabelecimento permanente no Brasil. Senado Federal+1

É importante observar que o artigo 9º não menciona a profissão de Mario nem estabelece que a religião católica fosse, por si só, um requisito para a concessão do visto. A religião aparece como informação no registro documental, mas não se deve concluir, sem outra prova, que tenha sido um fator determinante para a autorização.

A mesma legislação continha critérios migratórios que hoje precisam ser compreendidos dentro do contexto histórico e político da época. Seu artigo 2º, por exemplo, expressava uma política de imigração que privilegiava características de ascendência europeia, refletindo concepções discriminatórias presentes na legislação brasileira daquele período.


🗓️ Registros de passageiros: De 1941 a 1958

História do Navio Cabo de Hornos e da Imigração do pós-guerra. Vida Marítima.

Os registros históricos relacionados ao Cabo de Hornos permitem acompanhar a presença do navio nas rotas migratórias durante quase duas décadas. As relações de passageiros reproduzidas no material consultado apresentam desembarques principalmente no Porto de Buenos Aires, na Argentina, além de registros de chegadas ao Porto de Santos, no Brasil.

A seguir, alguns exemplos organizados cronologicamente. Eles ajudam a demonstrar a diversidade de famílias, origens e destinos associados às viagens do transatlântico.

▶️ 1941 a 1946 – os primeiros registros apresentados

Em julho de 1941, Julia Manguán Gil desembarcou em Buenos Aires, procedente de Bilbao. No mesmo período, famílias originárias de regiões como Teruel, Pontevedra e Galícia também aparecem nas relações de passageiros.

Em 1942, há registros de passageiros provenientes de Huesca e Ourense. Em novembro de 1944, Carmen Gomis Gomis e seus filhos chegaram à Argentina, procedentes de Cádiz, com posterior estabelecimento em diferentes localidades argentinas.

Em abril e junho de 1946, aparecem passageiros provenientes de Pontevedra, Barcelona e Lugo, alguns acompanhados de filhos e outros familiares.

▶️ 1947 e 1948 – famílias inteiras atravessam o Atlântico

As relações de 1947 registram passageiros de regiões como Barcelona, Murcia, Granada, Pontevedra, León e A Coruña. Entre eles estava Gabriel Feliu Mitjar, de 20 anos, que chegou à Argentina em junho de 1947 e se estabeleceu em Bahía Blanca.

Em 1948, os registros continuam apresentando famílias numerosas, casais e passageiros individuais. Há exemplos de pessoas que se estabeleceram em Buenos Aires, Mendoza, Santa Fé, Rio Negro e outras regiões argentinas.

▶️ 1949 e 1950 – continuidade do fluxo migratório

De um folheto promocional da Ybarra y Cía da década de 1950. Fonte: Timetableimages.

Durante esses anos, as relações de passageiros apresentam famílias originárias de Andaluzia, Galícia, Astúrias, Catalunha e outras regiões espanholas. Muitos viajavam com cônjuges e filhos, buscando se estabelecer em cidades do interior da Argentina.

Em julho de 1949, por exemplo, a família Galdeano, procedente de Granada, chegou à Argentina e se estabeleceu em Mendoza. Em novembro de 1949, a família Lorenzo, originária de Zamora, desembarcou em Buenos Aires e seguiu para Bahía Blanca.

Em 1950, aparecem passageiros procedentes de Barcelona, Almería, Málaga, Granada e outras localidades. Os registros mostram como as redes familiares e de conhecidos influenciavam a escolha do destino após o desembarque.

▶️ 1951 e 1952 – o período da chegada de Mario Marchesini

Em 1951, as listas continuam documentando a chegada de famílias e viajantes individuais. Há registros de passageiros procedentes de Granada, Almería, Zaragoza, León e outras regiões da Espanha.

Em 1952, além dos passageiros que chegaram à Argentina, aparecem registros de pessoas que desembarcaram no Brasil. Entre os exemplos apresentados no material estão:

  • 13 de abril de 1953: Gonzalo Bosch Puertas, natural de Salobreña, Granada, desembarcou em Santos.
  • 7 de junho de 1953: Dolores Pellicer Grau, procedente de Cullera, Valência, chegou ao Porto de Santos.
  • 3 de agosto de 1953: Juana Portillo León e seus três filhos desembarcaram em Santos.

Esses registros brasileiros demonstram que o navio também transportava passageiros destinados ao Brasil, além de atender os portos argentinos.

É nesse contexto de circulação transatlântica que se insere a viagem de Mario Marchesini e Clara Zanetti, em 20 de outubro de 1952, cuja chegada a Santos está documentada na certidão do Memorial do Imigrante.

▶️ 1953 a 1955 – a continuidade das viagens

As relações de passageiros de 1953, 1954 e 1955 continuam apresentando famílias procedentes de diferentes regiões da Espanha. Há registros de chegadas a Buenos Aires, com posterior fixação em cidades como Mar del Plata, Bahía Blanca, Mendoza, Comodoro Rivadavia e outras localidades.

Em 1955, por exemplo, aparecem famílias provenientes de Granada e Navarra, além de passageiros que viajavam com filhos pequenos.

▶️ 1956 a 1958 – os últimos anos da trajetória

Os registros de 1956 apresentam famílias de Sevilla, Almería, Logroño e Valência. Em 1957, aparecem passageiros procedentes de Zamora, Granada e Almería.

Já em janeiro de 1958, uma família originária de Cantoria, na Espanha, chegou a Buenos Aires a bordo do Cabo de Hornos. Outros passageiros registrados naquele ano vieram de Las Palmas, Huelva, León, Pontevedra e Lugo.

Essas relações demonstram a continuidade do transporte de imigrantes até os últimos anos de operação do navio. É importante destacar que os registros mencionados não representam uma única lista de desembarque em Santos: muitos se referem à chegada ao Porto de Buenos Aires, na Argentina.


⚓ O fim da trajetória do Cabo de Hornos

A aposentadoria do Cabo de hornos, Los cabos. Fonte: ar.pinterest

Depois de décadas de atividade, o Cabo de Hornos começou a perder espaço diante de embarcações mais modernas. A renovação da frota da companhia Ybarra e as mudanças no transporte marítimo contribuíram para o encerramento de sua carreira.

Em 1959, o navio foi retirado de serviço, permaneceu amarrado em Avilés, na Espanha, e acabou vendido para desmantelamento. Segundo o levantamento publicado pelo portal Vida Marítima, realizou 192 viagens pelo Atlântico e transportou mais de dez mil passageiros ao longo de sua trajetória. Vida Marítima+1

O encerramento de sua atividade não apagou a importância histórica da embarcação. Para milhares de pessoas, o Cabo de Hornos foi o meio de transporte que possibilitou atravessar o oceano e começar uma nova vida na América do Sul.


📚 Referências e fontes de pesquisa


💬 Espaço do Leitor:

🔰 Você tem familiares que chegaram ao Brasil por meio de navios transatlânticos como o Cabo de Hornos? Compartilhe nos comentários suas histórias, documentos e lembranças sobre a imigração. 🔰

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