“Neste país, quando o pobre coloca a mão em alguma coisa, alguém vem logo tirar. Mas nós não vamos soltar o que agarramos”, afirma Samara, durante o almoço oferecido aos visitantes, que tem histórias tão saborosas quanto a comida. Uma dá conta que, certa vez, precisavam da assinatura urgente do prefeito, e ninguém sabia onde ele estava. “Como temos muitos carroceiros entre nós, e eles catam coisas pela cidade toda, um nos avisou que o prefeito estava na casa da mãe. Fomos todos para lá e ele teve que nos atender”, conta, provocando sorrisos.
Não dá para sorrir, porém, quando somos levados para conhecer um dos cortiços, etapa final do roteiro. A visão dos diminutos cômodos improvisados, sem qualquer privacidade e com apenas dois banheiros para mais de uma dezena de famílias, impacta os visitantes de classe média que se tornam, dali por diante, testemunhas de uma realidade que desconheciam. O exemplo da força e da integridade das líderes corticeiras fornecem o antídoto contra o mefítico estigma que paira sobre as comunidades menos favorecidas.

O SESC FOI A PRIMEIRA INSTITUIÇÃO BRASILEIRA A ASSINAR O CÓDIGO DE ÉTICA MUNDIAL PARA O TURISMO. ASSIM, PROMOVE O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA ATIVIDADE, CONSIDERANDO ASPECTOS AMBIENTAIS, CULTURAIS E SOCIAIS
..:: MATRIZ AFRICANA
Combater o preconceito é precisamente um dos pilares do turismo comunitário, na visão do proprietário da R9 Turismo, de São Vicente (SP), Renato Marchesini, que organiza visitas a quilombos e terreiros de candomblé na Baixada Santista. Esta última opção foi incorporada ao seu portfólio em 2017, no auge dos ataques contra imagens e templos religiosos de matriz africana.
“Convocado por um membro do Conselho Estadual da Igualdade Racial, participei, no início de 2017, de uma reunião com representantes de terreiros. Foi quando conheci Pai Maurício”, conta Marquesini, sobre a visita para conhecer a Comunidade Afro São Roque e Caboclo Tupinambá, instalada no bairro Sítio São João, em Bertioga.
Ali acontecem os rituais da sociedade religiosa afro-brasileira Ilê Axé Ijexá Omolu Jagun (www.iledomolu.com.br), comunidade comandada por Pai Maurício e Mãe Conceição, que preserva o idioma iorubá e as tradições do povo Ijexá, oriundo do Benim, na África. A excursão, acompanhada por Problemas Brasileiros, foi organizada pelo Sesc Bertioga para os alunos da Escola Estadual “Professor Archimedes Bava”, na periferia da cidade. Participaram também professores e pais dos estudantes.
Logo na entrada, fomos recebidos pelos anfitriões vestidos de branco, com turbantes na cabeça e guias coloridas no pescoço. Após o café da manhã, circulamos pelo terreiro para conhecer os pejis, pequenos templos erigidos para cada orixá. São explicadas as características de cada um deles e os respectivos santos católicos vinculados pelo sincretismo religioso dos escravos, artifício para que seus deuses fossem tolerados. “Xangô é justo, mas não justiceiro”, explica uma filha de santo. O tanque de peixes, para Oxum, e os pássaros em gaiolas – para atrair Oxóssi e Ossanha – explicitam a vinculação do panteão africano com a natureza.
No espaçoso templo onde acontecem as principais festas e cerimônias religiosas, a yalorixá ocupa uma poltrona para comandar a execução dos pontos – músicas para os orixás tocadas em atabaques e acompanhadas de danças pelos filhos e filhas de santo. Em seguida, uma roda de conversa elucida as dúvidas. Um ponto muito enfatizado é o comprometimento ecológico: o terreiro pratica a reciclagem do lixo e outras ações de preservação ambiental.
Durante o almoço à base de peixe e galinha caipira, ficamos sabendo que o terreiro funcionava até 2016 no Guarujá, onde Mãe Conceição vendeu acarajés durante 20 anos na Praia da Enseada, após chegar de Itabuna (BA), cidade em que nasceu e se iniciou no candomblé. “Aqui, em Bertioga, estamos mais integrados à natureza”, ela diz, acrescentando que a propriedade, imersa na Mata Atlântica e próxima a uma cachoeira, fornece todas as plantas e ervas, além de galinhas e cabritos, consumidos em festas e rituais.
O passeio termina com anfitriões e visitantes embalados pelo samba de roda no estilo baiano. Para quem fica, a esperança de “sermos feliz em comunhão com a natureza, com nossos orixás e com nossos irmãos”. Entre os que se despedem, responsáveis por alunos: um pai evangélico e uma mãe católica, impressionados com tudo o que presenciaram, garantem ver dali por diante as religiões afro-brasileiras com outros olhos.

Fonte..:: Viagens com um Novo Olhar / Revista Problemas Brasileiros, nº450, ano 56.
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