Tarsila do Amaral: 8 Obras que Ajudam a Compreender o Modernismo Brasileiro

A imagem anexada apresenta uma seleção de oito obras fundamentais de Tarsila do Amaral (1886–1973), uma das artistas mais importantes do modernismo brasileiro. Nascida em Capivari, no interior de São Paulo, Tarsila transformou influências das vanguardas europeias — especialmente o cubismo — em uma linguagem visual própria, marcada por cores vibrantes, formas simplificadas, paisagens brasileiras, personagens populares, elementos indígenas, referências afro-brasileiras e imagens do imaginário nacional.

Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.


🇧🇷 Tarsila do Amaral e a construção de uma arte brasileira

Tarsila do Amaral nasceu em Capivari (SP), em 1886, e morreu em São Paulo, em 1973. Sua trajetória artística esteve profundamente ligada à renovação cultural promovida pelo Modernismo brasileiro.

Depois de estudar na Europa, especialmente em Paris, Tarsila entrou em contato com artistas e tendências modernas. Entre seus professores estiveram André Lhote e Fernand Léger. Ao retornar ao Brasil, passou a incorporar essas experiências à representação de temas brasileiros.

Sua produção não foi simplesmente uma reprodução das vanguardas europeias. A artista reinterpretou essas influências a partir de paisagens, cores, personagens, plantas, animais, lendas e experiências brasileiras.

Essa combinação é essencial para compreender a importância de sua obra.


👩‍🎨 O Grupo dos Cinco e o Modernismo

Tarsila é frequentemente associada ao chamado Grupo dos Cinco, formado por Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia.

Embora Tarsila não estivesse no Brasil durante a Semana de Arte Moderna de 1922, sua aproximação posterior com os modernistas foi fundamental para o desenvolvimento do movimento.

Sua produção artística ajudou a fortalecer uma questão central para o modernismo: como criar uma arte moderna que também expressasse as particularidades do Brasil?

A resposta de Tarsila surgiu por meio de uma linguagem visual inovadora, que combinava referências internacionais com elementos brasileiros.


🌈 A fase Pau-Brasil e as cores brasileiras

Entre 1924 e 1928, Tarsila desenvolveu aquilo que ficou conhecido como sua fase Pau-Brasil.

Nesse período, suas pinturas passaram a apresentar paisagens urbanas e rurais, plantas, animais, trabalhadores, personagens populares e cenas do cotidiano brasileiro.

A artista valorizou cores que associava às suas lembranças e à cultura brasileira, como azuis, verdes, amarelos, rosas e tons intensos.

A própria trajetória de Tarsila revela o desejo de construir uma arte profundamente ligada ao Brasil. O MASP destaca que sua obra incorpora paisagens do interior, subúrbios, fazendas e favelas, além de personagens indígenas e negros, animais, plantas e figuras do folclore.


🦶 Abaporu (1928): uma imagem que mudou o Modernismo

Abaporu, pintado em 1928, é provavelmente a obra mais conhecida de Tarsila do Amaral e uma das imagens mais emblemáticas da arte brasileira.

A pintura apresenta uma figura humana com cabeça pequena, braços e pernas alongados e enormes pés, sentada ao lado de um cacto e diante de um sol.

A composição causa estranhamento justamente porque subverte as proporções tradicionais do corpo humano.

O quadro foi oferecido por Tarsila a Oswald de Andrade, seu marido naquele momento, como presente de aniversário. A pintura impressionou profundamente o escritor e contribuiu para o desenvolvimento das ideias que culminariam no Manifesto Antropófago, publicado em 1928.

O título Abaporu é associado a termos de origem tupi-guarani e costuma ser traduzido como “homem que come gente”, relacionando-se diretamente ao conceito de antropofagia cultural.

A ideia não era simplesmente copiar a cultura estrangeira, mas “devorar” influências externas, transformá-las e produzir algo novo, híbrido e brasileiro.

Atualmente, Abaporu pertence ao MALBA – Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, na Argentina.


👩🏿 A Negra (1923): corpo, identidade e representação

Pintada em 1923, A Negra é uma obra fundamental para compreender a trajetória de Tarsila.

A tela apresenta uma figura feminina negra monumental, com corpo simplificado, formas arredondadas e proporções deliberadamente alteradas.

A obra foi realizada em Paris e antecede a consolidação da fase Pau-Brasil.

Sua importância, entretanto, vai além da estética. A Negra também provoca discussões contemporâneas sobre raça, representação, colonialismo, classe social e a maneira como artistas pertencentes às elites brasileiras representaram pessoas negras. O próprio MASP destaca que a obra é controversa e merece ser analisada a partir dessas questões.

Portanto, observar A Negra hoje significa também questionar quem representa quem, como essa representação é construída e quais relações históricas de poder estão presentes na imagem.


🏭 Operários (1933): industrialização, trabalho e diversidade

Operários, de 1933, marca uma mudança importante na produção de Tarsila.

A pintura apresenta uma grande quantidade de rostos humanos, organizados diante de chaminés industriais.

A composição está relacionada ao processo de industrialização e transformação social de São Paulo, além da presença de trabalhadores de diferentes origens e grupos étnicos.

O acervo do Governo do Estado de São Paulo destaca que Tarsila produziu a obra após sua viagem à União Soviética, em 1931, experiência que ampliou seu contato com questões relacionadas à arte proletária e à realidade dos trabalhadores.

O conjunto de rostos transmite uma ideia poderosa: o indivíduo passa a integrar uma multidão de trabalhadores, associada ao crescimento industrial e econômico.

A tela também permite discutir migração, trabalho, desigualdade social, industrialização e diversidade populacional.


🐊 A Cuca (1924): folclore e imaginário brasileiro

A Cuca, de 1924, pertence à fase Pau-Brasil e apresenta uma criatura fantástica em meio a uma paisagem exuberante.

A figura da Cuca está associada ao imaginário popular e ao folclore brasileiro, especialmente à tradição de histórias e personagens utilizados para assustar ou ensinar crianças.

Tarsila transforma esse universo em uma composição de cores intensas e formas simplificadas.

Ao lado da criatura aparecem elementos da natureza, animais e plantas, construindo uma espécie de paisagem imaginária tropical.

O MASP destaca justamente a presença, na obra de Tarsila, de personagens do folclore, animais reais ou fantásticos e elementos vegetais representados com uma paleta de cores muito característica.

A Cuca demonstra como o folclore poderia ser incorporado à arte moderna sem abandonar a experimentação estética.


🌿 Antropofagia (1929): a síntese de duas figuras

Pintada em 1929, Antropofagia pertence ao período diretamente associado à chamada fase antropofágica de Tarsila.

A obra apresenta duas figuras humanas de formas alongadas, inseridas em uma paisagem tropical povoada por grandes plantas e um cacto.

O quadro dialoga visualmente com Abaporu e A Negra, criando uma espécie de síntese de elementos que já estavam presentes na produção da artista.

A própria Fundação Tarsila do Amaral relaciona o período antropofágico ao presente que a artista ofereceu a Oswald de Andrade — Abaporu — e à elaboração das ideias do movimento antropofágico.

A antropofagia, nesse contexto, era uma metáfora cultural: absorver influências estrangeiras, transformá-las e recriá-las a partir de uma perspectiva brasileira.


🥚 O Ovo (Urutu) (1928): natureza, mito e transformação

Na imagem anexada, a obra aparece como O Ovo (Urutu), de 1928.

A composição apresenta uma grande forma oval branca, acompanhada por uma figura serpenteante em tons rosados e vermelhos.

O título alternativo Urutu estabelece uma ligação com uma serpente brasileira, enquanto o “ovo” remete a uma imagem de nascimento, origem, transformação e potencialidade.

A combinação entre uma forma aparentemente simples e uma figura animal cria uma imagem enigmática.

A obra é particularmente interessante porque mostra como Tarsila não precisava representar a natureza de maneira realista. Ela podia transformar plantas, animais e objetos em formas quase fantásticas, mantendo a ligação com o universo brasileiro.

A presença de animais reais e fantásticos é recorrente na produção da artista e constitui uma das características marcantes de sua linguagem visual.


🌴 O Mamoeiro (1925): cotidiano, paisagem e memória

O Mamoeiro, de 1925, é uma das pinturas da fase Pau-Brasil.

A cena apresenta uma paisagem brasileira organizada por meio de casas, vegetação tropical, árvores, caminhos, pessoas e uma ponte sobre a água.

O mamoeiro, destacado no título, integra uma paisagem na qual natureza e vida cotidiana aparecem profundamente conectadas.

A obra evidencia o interesse de Tarsila por paisagens brasileiras aparentemente simples, transformando cenas do cotidiano em composições modernas.

A pintura é um bom exemplo de como a artista utilizava cores intensas e formas simplificadas para criar uma visão particular do Brasil. A obra pertence à Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.


🍍 Vendedor de Frutas (1925): trabalho, comércio e tropicalidade

Vendedor de Frutas, de 1925, apresenta um personagem masculino em uma pequena embarcação, cercado por frutas tropicais e elementos da paisagem brasileira.

O trabalhador aparece associado à produção, circulação e comercialização de alimentos, enquanto frutas como o abacaxi ajudam a construir uma imagem de tropicalidade.

A obra pertence à fase Pau-Brasil e demonstra o interesse de Tarsila por personagens populares, cotidiano, paisagem e cultura brasileira.

Segundo a documentação da Fundação Tarsila do Amaral, a obra foi pintada em 1925, em óleo sobre tela, e integra o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

A pintura também evidencia uma característica importante da artista: o trabalhador comum pode ocupar o centro da composição e tornar-se personagem da arte moderna brasileira.


🧩 O que une essas oito pinturas?

Apesar de serem diferentes, as oito obras apresentadas na imagem possuem elementos em comum.

Entre eles estão:

  • cores vibrantes e contrastantes;
  • formas simplificadas e geometrizadas;
  • influências do cubismo e das vanguardas europeias;
  • paisagens brasileiras;
  • personagens populares;
  • animais e plantas;
  • folclore e imaginário nacional;
  • questões sociais e culturais;
  • reflexões sobre identidade brasileira.

O resultado é uma arte moderna que não procura simplesmente reproduzir o que já existia na Europa.

Tarsila absorve referências internacionais e as transforma em uma linguagem visual profundamente associada ao Brasil. Essa característica é central para a compreensão de sua importância no modernismo.


🇧🇷 Tarsila e a ideia de brasilidade

A palavra brasilidade ajuda a compreender uma parte importante da produção de Tarsila.

Em suas telas aparecem paisagens, plantas, animais, personagens, trabalhadores, cidades, elementos do folclore e referências culturais brasileiras.

Porém, é importante evitar a ideia de que existe uma única representação possível do Brasil.

A obra de Tarsila também pode ser analisada criticamente a partir de classe, raça, colonialismo, relações de poder e representação social. O próprio MASP propôs, em sua exposição Tarsila Popular, novas leituras sobre essas questões.

Isso torna sua produção ainda mais importante para o século XXI: suas pinturas continuam permitindo novas perguntas e diferentes interpretações.


🖼️ Da pintura ao patrimônio cultural

As obras de Tarsila do Amaral ultrapassaram o espaço das galerias e museus e passaram a fazer parte do imaginário coletivo brasileiro.

Abaporu, A Negra, Operários, A Cuca e Antropofagia, entre outras, tornaram-se referências para compreender arte moderna, identidade nacional e cultura brasileira.

O reconhecimento internacional de Tarsila também cresceu significativamente. O MASP, por exemplo, dedicou à artista uma grande exposição em 2019, com novas perspectivas sobre sua produção e sobre as relações entre modernismo, cultura popular, raça, classe e colonialismo.

Sua obra, portanto, pertence não apenas à história da arte, mas também à memória cultural brasileira.


🎓 Tarsila do Amaral como ferramenta de educação

As pinturas reunidas no anexo podem ser utilizadas em aulas e projetos de História, Arte, Geografia, Literatura, Sociologia, Cultura Brasileira e Educação Patrimonial.

Cada obra abre uma possibilidade diferente:

📚 Abaporu: modernismo, antropofagia cultural e identidade.

👩🏿 A Negra: representação, raça, gênero e colonialidade.

🏭 Operários: industrialização, trabalho, migração e diversidade.

🐊 A Cuca: folclore, infância e cultura popular.

🌿 Antropofagia: modernismo e construção de uma linguagem brasileira.

🥚 O Ovo (Urutu): natureza, simbolismo e imaginário.

🌴 O Mamoeiro: paisagem, ruralidade e memória.

🍍 Vendedor de Frutas: trabalho, comércio, cotidiano e tropicalidade.

Assim, uma única imagem pode funcionar como uma pequena aula de história cultural brasileira.


📚 Referências bibliográficas e fontes

MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO ASSIS CHATEAUBRIAND (MASP). Tarsila Popular. São Paulo: MASP, 2019. A exposição e o catálogo apresentam novas perspectivas sobre a produção de Tarsila, incluindo questões de cultura popular, raça, classe e identidade.

MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO ASSIS CHATEAUBRIAND (MASP). Tarsila do Amaral: Cannibalizing Modernism. Exposição realizada em 2019.

MALBA – MUSEO DE ARTE LATINOAMERICANO DE BUENOS AIRES. Abaporu, 1928. Ficha e informações sobre a obra de Tarsila do Amaral.

MUSEUM OF MODERN ART (MoMA). Tarsila do Amaral: Abaporu, 1928. Material educativo sobre a obra e sua relação com o movimento antropofágico.

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO – ACERVO. Operários, 1933. Informações sobre a obra, sua composição e relação com a industrialização e o trabalho.

FUNDAÇÃO TARSILA DO AMARAL. O Mamoeiro. Informações técnicas e contexto da fase Pau-Brasil.

FUNDAÇÃO TARSILA DO AMARAL. Vendedor de Frutas. Informações técnicas e contexto da fase Pau-Brasil.

FUNDAÇÃO TARSILA DO AMARAL. Antropofagia. Informações sobre a fase antropofágica e a obra de 1929.


💬 Espaço do Leitor: 🔰 Entre Abaporu, A Negra, Operários, A Cuca, Antropofagia, O Ovo (Urutu), O Mamoeiro e Vendedor de Frutas, qual dessas obras de Tarsila do Amaral mais chama a sua atenção e qual mensagem você acredita que ela transmite sobre o Brasil?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

icone do conteúdo

Leia também

Fique por dentro

Ver todos os posts
Os Olmecas: A Primeira Grande Civilização da Mesoamérica e a Base das Culturas Maias e Mexicas

Os Olmecas: A Primeira Grande Civilização da Mesoamérica e a Base das Culturas Maias e Mexicas

Os olmecas são reconhecidos pelos arqueólogos e historiadores como a primeira grande civilização da Mesoamérica e frequentemente recebem o título...

Turismo Global deverá movimentar quase 15 bilhões de euros na economia mundial até 2036, aponta WTTC

Turismo Global deverá movimentar quase 15 bilhões de euros na economia mundial até 2036, aponta WTTC

O setor de viagens e turismo continua demonstrando sua força como um dos principais motores da economia mundial. De acordo...

Mercado Central de Fortaleza: História, Cultura, Artesanato e Turismo na Capital Cearense

Mercado Central de Fortaleza: História, Cultura, Artesanato e Turismo na Capital Cearense

Localizado no Centro de Fortaleza, ao lado da Catedral Metropolitana e próximo à Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, o...

Os Maiores Animais Marinhos do Planeta: Gigantes dos Oceanos

O vídeo “Os maiores animais marinhos” apresenta uma impressionante comparação de tamanho entre alguns dos maiores animais que vivem nos...

Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção: História, poder e memória de Fortaleza

Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção: História, poder e memória de Fortaleza

A Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, localizada no centro de Fortaleza, no Ceará, é um dos mais importantes símbolos...