Pode parecer estranho, mas não são apenas peixes que os barcos de pesca capturam em suas jornadas pelo mar. Ao longo das últimas décadas, milhares de aves como albatrozes e petréis acabavam acidentalmente fisgadas pelas embarcações, morrendo afogadas. Aos poucos, essa triste realidade está mudando, graças a um projeto desenvolvido em Santos.
Por..:: Marcus Fernandes
Esta semana, no Equador, o Projeto Albatroz apresentou, durante um encontro internacional, os últimos dados sobre as pesquisas que vem realizando ao longo dos últimos 20 anos.
A reunião foi promovida pelos países membros do Agreement on the Conservation of Albatrosses and Petrels (ACAP, ou Acordo Internacional para Conservação de Albatrozes e Petréis, em português).
Entre os resultados apresentados, destaque para os que foram obtidos com os testes realizados no Brasil, em junho deste ano, com um equipamento chamado ‘hook pod’. Trata-se de uma espécie de anzol que diferentemente daquele que é usado na pesca industrial, impede que a ave seja “fisgada” ao tentar comer a isca lançada pelos barcos.
Em certos tipos de pescarias, linhas com vários quilômetros de extensão, cravejadas de anzóis e iscas, são lançadas no mar.
As aves, já acostumadas a voar nas proximidades das embarcações, se lançam sobre as iscas. Muitas acabam presas e morrem afogadas. Além do impacto ambiental, há o econômico, já que prejudica a capacidade de captura.
Com o uso do ‘hook pod’ e de outros apetrechos, como o ‘toriline’ (fitas coloridas presas na linha que espantam as aves), essa situação está mudando.
No mundo, esse foi o primeiro teste realizado com o ‘hook pod’ em situação real e os resultados do seu desempenho estão incluídos no estudo que foi apresentado pelo pesquisador Ben Sullivan, da Birdlife International, organização parceira do Projeto Albatroz.
Os testes comprovaram que a tecnologia é capaz de proteger as aves e ainda permitir um sensível aumento da produção pesqueira.
Com o uso do hook pod, 251 peixes foram capturados. Sem ele, a quantidade baixou para 219.
“O desempenho foi melhor com a utilização do ‘hook pod’. No entanto, outras informações são necessárias para o alcance de resultados mais precisos”, explica Fabiano Peppes, coordenador técnico do Projeto Albatroz. Ainda durante este ano, serão realizados pelo menos mais três testes com o aparelho.
Além das pesquisas sobre o uso do ‘hook pod’, o Projeto Albatroz também apresentou os resultados positivos dos estudos do aprimoramento do ‘toriline’ e da utilização do peso que afunda a linha de pesca mais perto do anzol, aumentando a sua velocidade de submersão e, assim, diminuindo o tempo disponível das iscas na superfície para as aves.
..:: Sobre o Projeto Albatroz
A organização foi criada em Santos (SP) e há 20 anos atua na área de conservação de albatrozes e petréis. Colabora com a elaboração de políticas públicas, a exemplo do Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis (PLANACAP), além de desenvolver pesquisas para reduzir a captura não-intencional das aves marinhas pelos barcos de pesca e realizar ações de educação ambiental junto a pescadores e escolas.
O Projeto Albatroz tem o apoio de diversas organizações nacionais e internacionais e o patrocínio da Petrobras, por meio do programa Petrobras Ambiental.
..:: Espécies ameaçadas
Das 22 espécies de albatrozes que constam da Lista Vermelha da União para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), 17 estão ameaçadas em algum nível. No Brasil, das várias espécies de albatrozes que interagem com a pesca de espinhel pelágico, seis estão na lista brasileira de espécies ameaçadas.
Os petréis (ou pardelas), outra espécie de ave marinha, também correm o risco de serem extintos da natureza. A principal causa é a captura não-incidental das aves pelos barcos de pesca.
Mais informações..:: http://www.projetoalbatroz.org.br/



