Um mundo a observar: Rota criada no Forte dos Andradas, em Guarujá, pode ser ponto internacional para observação de pássaros. Mas há muito mais.
A choquinha-de-peito-pintado é uma ave que só pode ser encontrada em mata primária. Ou seja, extremamente preservada. “Se ela existe em determinado local, é porque o ambiente é bem formado. Ela é muito sensível à antropização (transformação do ambiente feita pelo homem)”, afirma o biólogo e ornitólogo (especialista em aves) Ricardo Arouca Júnior.
Por..:: Simone Queirós
E o tangará dançarino se destaca, como o próprio nome diz, por sua dança. Para acasalar, os machos da espécie capricham na performance para disputar o amor da futura companheira, que emite um som de aprovação ao escolher o seu favorito. O pintadinho, por sua vez, é um pássaro de mata aberta e que fica em arbustos. Em compensação, é tão rápido que fazer um registro seu é bem difícil.
Apesar de bem diferentes, as três aves acima têm dois pontos em comum: são bastante cobiçadas por observadores de aves e poderão, com uma pitada de sorte e muita paciência, ser encontradas com mais frequência a partir de agora em Guarujá.
A Cidade acaba de lançar, no Forte dos Andradas, uma rota de turismo científico. As áreas naturais da Primeira Brigada de Artilharia Antiaérea integram uma parceria formada entre o Exército Brasileiro e a Prefeitura de Guarujá para criar o Programa Guarujá Birdwatching Forte dos Andradas – birdwatching, em tradução livre, é observação de pássaros.
O objetivo é colocar o Município no circuito internacional de observadores de aves e descobrir novas espécies.
“Tem gente que faz longas viagens atrás de uma única espécie”, afirma a diretora de Planejamento Estratégico da Secretaria Municipal de Turismo, Cátia Regina Cabral.
O novo circuito foi conhecido na sexta-feira por especialistas e representantes de agências locais especializadas em ecoturismo. Eles percorreram uma estreita e sinuosa estrada cimentada na subida do Morro do Monduba, onde estão construções como elevadores e túneis escavados na rocha, peças de artilharia e um observatório. O trajeto tem aproximadamente um quilômetro.
..:: POTENCIAL
O foco do passeio piloto, entretanto, estava nas copas das árvores. Enquanto investiam nos cliques, os especialistas analisavam o potencial do espaço.
“Esta área promete muito, principalmente em razão da segurança que oferece. Temos total interesse em comercializar esse roteiro”, afirma o turismólogo Antônio Carlos Santos de Carvalho, proprietário da agência de turismo Nação Ecológica.
Renato Marchesini, gestor de projetos da R9 Turismo, também ficou satisfeito com o potencial do Forte. Hoje ele comercializa pacotes para observação de aves nos manguezais em algumas cidades da Baixada Santista. “É um mercado que ainda precisa amadurecer na região. A cada dois meses, levamos um grupo de aproximadamente 20 pessoas. Esse tipo de circuito é bem restrito e atrai muitos estrangeiros”.
Marchesini cita que a observação de aves como econegócio é algo novo no Brasil e se trata de um mercado em crescimento. “Assim como outros roteiros de contemplação, como a whale watching (observação de baleias) e a sky watching (observação de estrelas)”.
No caso das aves, é preciso ter bastante paciência. Além de rápidos, os pássaros se camuflam com perfeição em meio à vegetação. Por isso, não é um passeio rápido, muito menos agitado. “O observador de aves anda 100 metros a cada duas horas”, afirma Arouca.
Mesmo assim, pelo menos 30 mil turistas brasileiros e três mil estrangeiros praticam o birdwatching no Brasil todos os anos, segundo dados de 2012 do Ministério do Turismo. O País tem 1.839 espécies catalogadas. “Só perde para a Costa Rica, com mais de 2 mil. Mas, com o território que temos, o nosso potencial é muito grande”, afirma o ornitólogo.
..:: Segurança no roteiro: Diferencial
A primeira tentativa de fomentar esse atrativo turístico em Guarujá foi em outubro de 2011, quando um grupo de 12 pessoas saiu em expedição da Secretaria de Turismo para pontos como o Rio do Peixe, no Perequê, e a Prainha Branca, na Serra do Guararu.
Naquele mesmo dia, descobriram 11 espécies, que foram devidamente catalogadas no site Wikiaves (www.wikiaves.com.br). Na época, o Município contava oficialmente com 81 espécies registradas. Hoje são 166.
O roteiro, entretanto, não teve continuidade devido à falta de segurança nesses locais, o que no Forte dos Andradas não irá acontecer. No local, há um rigoroso controle, inclusive para preservar a mata.
Na atividade, só serão permitidos, por exemplo, materiais como binóculos de longo alcance, gravadores e máquinas fotográficas. As vestimentas em tons de camuflagem são recomendadas. O comando da brigada também ficará responsável por liberar as datas e horários para a visitação.
Em contrapartida, caberá à Prefeitura orientar os observadores de aves para as visitas; elaborar a listagem de aves do Forte; organizar exposições anuais de fotos e fornecer recomendações técnicas para a preservação das áreas naturais; fomentar programas educativos no local; catalogar espécies da flora nativa, visando ao replantio; e fomentar projetos de recomposição florestal, com foco no aumento da biodiversidade de aves no local.
..:: Monitoria
A Secretaria de Turismo de Guarujá dotou os monitores locais de um curso específico para o Roteiro de Aves. Atualmente, há 19 monitores ambientais preparados para acompanhar ornitólogos, fotógrafos e observadores.
Legenda da foto inferior:
Rota de turismo científico foi apresentada na sexta-feira. Após percorrer um quilômetro de estrada sinuosa, visitantes podem apreciar e registrar a natureza. Principal atração, aves se camuflam na mata.
..:: IMPRESSÕES
- Ibama:“Esse é um tipo de turismo muito interessante, que permite pegar um atrativo da região e aproveitá-lo de maneira sustentável, sem trazer impacto ao meio ambiente. A Baixada Santista tem muito potencial, mas ainda não aproveitado”, assinala Ingrid Furlan, chefe do escritório regional do Ibama, que compareceu ao passeio piloto no Forte dos Andradas.
- Forte:“O Forte dos Andradas vê com bons olhos essa iniciativa, que trará inclusive contribuições científicas para a sociedade. É uma parceria muito interessante e desejamos que se mantenha durante um bom tempo”, comenta Boanerges Lavra Júnior, coronel da reserva e chefe do Setor de Comunicação Social do Forte dos Andradas.
Fonte..:: Jornal A Tribuna, A2, 27 de Abril de 2014.
Para Roteiros de Turismo na Baixada Santista / WWW.R9TURISMO.COM



