Estudo: A Imagem do Brasil no Exterior e sua Relação com o Turismo

A falta de organização em “nossa casa” é um dos principais problemas que contribuem para manchar a imagem do Brasil no exterior. 
Por..:: Renato Marchesini
Nosso País e nosso povo continuam sendo conhecidos no mundo por suas Praias, Sol, Alegria, mulheres Fáceis, Eterna Diversão, Cordialidade e, é claro, Futebol e Samba. E seus produtos de exportação conhecidos ainda são o café e a banana.

 

 

A Construção da Imagem do Brasil: Do Éden à Realidade Urbana

Desde a “descoberta”, consolidou-se uma imagem do Brasil associada à grandeza territorial, abundância selvagem e sensualidade. Essa visão, iniciada na Carta de Pero Vaz de Caminha e alimentada por viajantes e colonizadores, perdurou até o século XIX como o arquétipo do “berço esplêndido”.

Contudo, a projeção moderna do Brasil para o mundo é dual: se por um lado exportamos arte, música e literatura vibrantes, por outro, somos reconhecidos por graves abismos sociais — violência, miséria e desigualdade. Essa imagem não é apenas uma percepção externa, mas uma visão projetada pelos próprios brasileiros através de suas expressões culturais.

1. Literatura: Entre a Muse e a Miséria

A literatura brasileira é o espelho das nossas contradições, oscilando entre o lirismo romântico e a crueza da denúncia social.

  • O Romantismo e a Natureza: Em Gonçalves Dias, as musas fundem-se à paisagem. José de Alencar idealizou o índio e o gaúcho, enquanto Bernardo Guimarães trouxe o drama da escravidão em A Escrava Isaura.

  • O Realismo e a Crítica: Machado de Assis dissecou a hipocrisia da elite brasileira. No século XX, Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala) expôs a “intoxicação sexual” e a violência na formação da nossa sociedade patriarcal.

  • A Crueza Regionalista: O sofrimento do povo e o declínio rural aparecem em obras-primas como Vidas Secas (Graciliano Ramos), Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto) e no Ciclo do Cacau de Jorge Amado.

  • Vida Urbana e Solidão: Autores como Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Rubem Fonseca exploram a solidão de quem troca o sertão pela metrópole, enquanto Nelson Rodrigues e Luís Fernando Veríssimo expõem, cada um à sua maneira, os desejos e tragédias da classe média.

2. Cinema e Personagens: O Estereótipo do “Malandro”

O cinema foi um dos principais veículos de estereótipos (muitas vezes equivocados) sobre o Brasil.

  • A Caricatura Internacional: Carmen Miranda tornou-se um ícone, mas também vítima de uma visão hollywoodiana que misturava todas as culturas latinas em um único pacote “exótico”. Na mesma linha, a Disney criou o Zé Carioca: o papagaio simpático, mas avesso ao trabalho, que imortalizou a imagem do brasileiro como o “malandro” que vive de trapaças e música.

  • O Cinema de Denúncia: Filmes como O Pagador de Promessas (única Palma de Ouro do país) e produções modernas como Cidade de Deus, Tropa de Elite e Central do Brasil substituíram a imagem do paraíso pela realidade da exclusão social.

  • O Brasil como “Porto Seguro”: Reforçou-se a ideia de que o país é um local de fuga para criminosos internacionais e um cenário onde “tudo é permitido”, como sugerido pelo polêmico filme Turistas.

3. Carnaval e Samba: Espetáculo vs. Erotização

O Carnaval é a nossa maior vitrine. Para o estrangeiro, muitas vezes é resumido a “96 horas de frenesi” e liberação sexual.

  • A Indústria Cultural: Por trás da luxúria mostrada pela mídia, o Carnaval é uma indústria de trabalho coletivo. Do “Abre-Alas” à “Ala das Baianas”, o evento revela a inventividade do povo no Sambódromo (Rio e SP) e nos Trios Elétricos (Salvador e Recife).

  • O Paraíso Permissivo: A cobertura midiática foca no exótico e no erótico, vendendo o Rio de Janeiro como um cartão-postal onde as regras sociais são suspensas, o que atrai o turismo, mas também fomenta problemas como a exploração sexual.

4. Futebol e Identidade Nacional

O futebol permanece como a principal fonte de orgulho e a lembrança mais positiva do Brasil no exterior. Nossos craques — de Pelé e Garrincha a Romário, Ronaldo e Neymar — são embaixadores culturais que preservam uma imagem de genialidade e alegria que resiste aos problemas sociais.

Para Refletir: 
Jornal Folha de São Paulo, 10/02/2012.
 

6. Considerações Finais: O Brasil Além dos Estereótipos

A síntese da imagem brasileira em clichês é o resultado direto da falta de uma estratégia nacional de longo prazo. Se queremos que o mundo nos veja de outra forma, precisamos, antes de tudo, mudar a nossa realidade. O paradoxo brasileiro é evidente: somos uma nação rica que convive com a miséria e a desigualdade. Esse cenário não apenas gera violência, mas limita o nosso potencial de brilhar no cenário global.

Para atrair o visitante ávido por nossa cultura, precisamos manter a “casa arrumada”, zelando pelo civismo e pelo patrimônio em todas as escalas. O fortalecimento do turismo não é apenas uma questão econômica, mas educacional. Investir no bom atendimento e na qualificação profissional é vital para um setor que ainda carece de excelência.

A solução não reside em shows de samba no exterior ou anúncios em revistas, mas em uma política de valorização da nossa identidade real. Precisamos nos orgulhar e promover nossa literatura urbana, nossa capacidade universitária e nossa diversidade regional — do artesanato às festas típicas — que muitas vezes são ignoradas.

É necessário reconhecer que o próprio brasileiro, por vezes, é excluído dessa riqueza por falta de condições financeiras ou de acesso. Portanto, combater a corrupção e a desigualdade social é, também, uma forma de marketing turístico. O Brasil é um produto mal explorado e com fôlego limitado a poucos segmentos. Ao diversificar nossa oferta e investir em infraestrutura, provaremos que somos, finalmente, o país do futuro e, acima de tudo, o país do presente.

 

Apesar de muitas questões….Afirmo!
Somos sim, o país do futuro e também do presente!
 

Fonte..:: Apostila Gestão de Empreendimentos Turísticos – Versão 6 – Renato Marchesini, 2015

 

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