⛪ A antiga Igreja de Jesus, Maria e José, conhecida também como Capela do Carvalho e Capela do Terço, foi um dos templos religiosos que marcaram a paisagem histórica de Santos (SP). Construída no final do século XVIII, a capela ficava junto ao antigo Ribeirão de São Jerônimo, na região conhecida como Rua da Praia, próxima ao que posteriormente se tornou a área portuária de Santos. O edifício, já em estado de deterioração, foi demolido em 1902, durante as transformações relacionadas às obras do Porto de Santos.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com pós-graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
🏛️ Uma capela construída no final do século XVIII
A Capela de Jesus, Maria e José teria sido construída no final do século XVIII, por iniciativa do coronel José Antônio Vieira de Carvalho, junto ao Ribeirão de São Jerônimo.
Ao longo de sua história, o templo recebeu diferentes denominações, entre elas Capela do Carvalho, Capela do Terço e Capela de Nossa Senhora da Conceição. Esta última denominação aparece em uma planta de Santos de 1798.
Sua localização junto à antiga faixa marítima fazia com que a pequena igreja se destacasse na paisagem urbana de Santos, em uma época em que a cidade ainda apresentava características predominantemente coloniais.
🗺️ A localização histórica da Capela do Carvalho
A localização da antiga capela foi alvo de algumas confusões em registros e estudos sobre a história santista.
Ela estava relacionada ao antigo Largo ou Pátio dos Gusmões, na região da antiga Rua da Praia, junto ao Ribeirão de São Jerônimo e próxima à área que posteriormente seria profundamente modificada pelos aterros e pelas obras de expansão do porto.
Com a transformação da área portuária, a antiga relação direta da capela com a faixa marítima desapareceu da paisagem. Referências históricas situam o antigo local nas proximidades do atual sistema viário do Centro Histórico, diante da área do antigo Armazém 2.
🎨 1826 — William John Burchell registra a capela
Um dos registros mais antigos e importantes da capela foi realizado pelo botânico, naturalista e desenhista inglês William John Burchell, durante sua passagem por Santos em 1826.
Burchell registrou a paisagem do porto santista tendo em primeiro plano a Igreja de Jesus, Maria e José. A representação mostra a capela inserida em uma paisagem ainda diretamente relacionada ao mar, ao Ribeirão de São Jerônimo e às construções da antiga cidade.
O desenho possui grande importância documental porque permite conhecer visualmente uma edificação que desapareceria décadas depois.
O desenho de William John Burchell, feito em 1826, constitui um dos mais importantes registros visuais da antiga capela.
Imagem: reprodução do trabalho de Gilberto Ferrez, O Brasil do Primeiro Reinado Visto pelo Botânico William John Burchell, 1815/1829, Rio de Janeiro, Fundação João Moreira Salles/Fundação Nacional Pró-Memória, 1981.
📷 1862 — A antiga capela registrada em fotografia

1862 – Foto Antiga: Capela de Jesus, Maria e José, antiga do Terço, na Rua da Praia de Santos (SP).
A fotografia apresentada como sendo de 1862 registra a capela em um momento em que a construção já apresentava sinais de deterioração.
A imagem também permite observar o casario tradicional de Santos, incluindo sobrados característicos dos séculos XVIII e XIX. Esses edifícios formavam parte importante da paisagem urbana da antiga cidade.
Outro detalhe histórico é a presença dos lampiões de azeite instalados junto aos muros das casas ou igrejas, uma característica da iluminação urbana daquele período.
A documentação fotográfica de Militão Augusto de Azevedo é particularmente importante para o estudo da transformação urbana de Santos no século XIX. A fonte histórica consultada também identifica uma imagem da capela como registro de 1865, portanto é importante preservar a distinção entre as diferentes datas atribuídas às reproduções.
🏘️ O casario e a iluminação de Santos no século XIX
A fotografia não registra somente a igreja. Ela funciona como uma verdadeira janela para a Santos do século XIX.
O sobrado presente na imagem apresenta características da arquitetura tradicional santista, enquanto os lampiões instalados nas paredes revelam aspectos da infraestrutura urbana daquele período.
Esses detalhes ajudam pesquisadores e interessados em patrimônio a compreender como era a vida cotidiana em uma cidade portuária antes das grandes reformas urbanas e da expansão moderna do Porto de Santos.
📰 A imagem publicada em 1971
Foto publicada no suplemento A Escolinha do Diário Oficial de Santos, em 28 de agosto de 1971.
Décadas depois do desaparecimento da capela, sua imagem continuou sendo reproduzida em publicações dedicadas à memória santista.
A publicação demonstra a importância que as fotografias antigas passaram a desempenhar na preservação da memória urbana, especialmente no caso de edifícios que já não existem fisicamente.
🗃️ A Coleção Arnaldo Aguiar Barbosa
Outra reprodução da mesma cena pertence à Coleção Arnaldo Aguiar Barbosa, constituindo mais um registro importante para a documentação iconográfica da antiga capela.
Foto da Coleção Arnaldo Aguiar Barbosa, publicada no jornal Cidade de Santos, em 16 de janeiro de 1983.
A publicação posterior demonstra como diferentes coleções particulares e jornais contribuíram para manter essas imagens acessíveis ao público.
Aqui, reprodução direta do copião fotográfico original do jornal.
🖼️ Outra reprodução da fotografia histórica
Outra cópia desta imagem.
A existência de diferentes cópias e reproduções da mesma fotografia evidencia a circulação das imagens históricas da Capela do Carvalho ao longo do século XX.
Essas reproduções são importantes para estudos comparativos e para a preservação da memória visual da cidade.
📚 O registro preservado pelo Instituto Moreira Salles
Imagem em albúmen, com 11,5 × 17,4 cm, pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles.
A fotografia foi reproduzida no livro Santos e seus Arrabaldes – Álbum de Militão Augusto de Azevedo, organizado por Gino Caldatto Barbosa e publicado pela Magma Editora Cultural, em São Paulo, em 2004.
A preservação desse tipo de material em acervos especializados demonstra a importância da fotografia histórica como documento de patrimônio cultural.
🏛️ A interpretação de Gino Caldatto Barbosa
Sobre a antiga capela, o arquiteto Gino Caldatto Barbosa escreveu, em 2004, que a construção teria sido erguida no final do século XVIII pelo coronel José Antônio Vieira de Carvalho e que ficava em frente ao mar, junto ao Ribeirão de São Jerônimo.
Segundo a descrição reproduzida na fonte histórica, a capela também era conhecida como Capela do Carvalho ou Capela do Terço, enquanto uma planta de Santos de 1798 utilizava a denominação Capela de Nossa Senhora da Conceição.
A construção apresentava características da arquitetura religiosa tradicional do litoral paulista, incluindo uma torre sineira que nunca chegou a ser concluída.
⚓ Uma capela junto ao mar e ao porto
A posição da capela era um de seus elementos mais marcantes.
Ela se encontrava em uma área diretamente relacionada ao estuário, ao antigo Ribeirão de São Jerônimo e à faixa marítima, fazendo com que sua arquitetura se destacasse na paisagem.
Antes dos grandes aterros e das modificações provocadas pela modernização do porto, o edifício fazia parte de uma paisagem em que cidade, água, embarcações e construções religiosas estavam muito próximas.
Essa configuração desapareceu com as transformações posteriores da área portuária.
🎨 A paisagem que inspirou William Burchell e Militão
A aparência peculiar da capela chamou a atenção de William Burchell, que a desenhou em 1826.
Anos mais tarde, Militão Augusto de Azevedo também se interessou pela mesma região e realizou registros fotográficos que contribuíram para preservar visualmente aquela paisagem.
Segundo a interpretação de Gino Caldatto Barbosa, Militão utilizou uma sequência de tomadas para construir uma visão panorâmica da região portuária, ampliando as possibilidades de representação que uma fotografia isolada oferecia.
Esse diálogo entre desenho de viajante e fotografia é particularmente interessante para a história da iconografia urbana de Santos.
🖌️ A Capela do Carvalho nas artes visuais
A antiga igreja também foi representada por outros artistas. A memória da construção sobreviveu não apenas por meio de fotografias e desenhos, mas também através de pinturas e outras interpretações artísticas da paisagem santista.
Entre os artistas relacionados à representação da antiga capela está Benedito Calixto, importante nome da pintura histórica e paisagística de Santos e do litoral paulista.
Essas representações possuem diferentes características e devem ser analisadas como documentos artísticos, complementares às fotografias e aos desenhos realizados a partir da observação direta.
📜 1892 — Uma fotografia atribuída a esse período
Na edição comemorativa dos 75 anos do jornal A Tribuna, publicada em 26 de março de 1969, foi reproduzida uma fotografia da capela.
A mesma imagem também aparece no livro Os Andradas, de Alberto Sousa, publicado em 1922, com a indicação de que a fotografia seria de 1892.
Esse tipo de informação deve ser tratado com atenção, pois reproduções antigas podem apresentar diferentes atribuições de data. Ainda assim, o registro é valioso por documentar a existência da capela em sua fase final.
🏚️ 1902 — A demolição da antiga igreja
No início do século XX, a situação da antiga Capela de Jesus, Maria e José era bastante diferente daquela registrada por Burchell em 1826.
A construção encontrava-se em estado avançado de deterioração e acabou sendo demolida em 1902, durante o período de grandes transformações relacionadas à construção e expansão do Porto de Santos.
A demolição marcou o desaparecimento definitivo de um dos elementos religiosos mais antigos daquela área da cidade.
⚓ A transformação provocada pelas obras do Porto de Santos
A demolição da capela deve ser compreendida dentro de um processo muito maior de transformação urbana e portuária.
A expansão do porto modificou profundamente a antiga relação da cidade com o mar. Áreas que anteriormente estavam diretamente junto à água foram aterradas e incorporadas ao novo sistema portuário.
Com isso, a antiga capela deixou de existir fisicamente e sua localização passou a fazer parte de uma paisagem completamente diferente.
🏢 1904 — O destino do terreno
Dois anos após a demolição, em 1904, o terreno da antiga capela foi adquirido pela firma Zerrener, Bülow & Cia., conforme os registros históricos reproduzidos pelo Novo Milênio.
O episódio demonstra como a transformação da região estava relacionada não somente às obras de infraestrutura portuária, mas também à crescente ocupação econômica daquela área estratégica de Santos.
🕰️ Uma igreja que sobrevive nas fotografias
Hoje, a Igreja de Jesus, Maria e José — Capela do Carvalho ou Capela do Terço — não existe mais fisicamente, mas sua memória permanece registrada em fotografias, desenhos, pinturas, livros e documentos históricos.
As imagens de William Burchell, Militão Augusto de Azevedo e outros artistas e fotógrafos permitem reconstruir visualmente parte da paisagem perdida.
Mais do que uma antiga construção religiosa, a capela representa uma parte importante da história urbana de Santos: a cidade colonial, a relação com o mar, a religiosidade, o casario antigo e a transformação provocada pela modernização portuária.
🎨 A memória da capela na arte contemporânea
A memória da antiga Igreja de Jesus, Maria e José também continua inspirando artistas contemporâneos.
Abaixo, um trabalho do artista Eduardo Verderame que retrata a Igreja de Jesus, Maria e José.
A representação artística contribui para aproximar o público de um patrimônio que desapareceu fisicamente, mas permanece presente na memória histórica e cultural de Santos.
Conheça também outros trabalhos do artista Eduardo Verderame. AQUI
📚 Fonte e referências históricas
Fonte principal: Novo Milênio — Santos de Antigamente: Capela do Carvalho (Jesus, Maria, José). AQUI.
Referências mencionadas no material: Gino Caldatto Barbosa; Militão Augusto de Azevedo; William John Burchell; Gilberto Ferrez; Instituto Moreira Salles; A Escolinha do Diário Oficial de Santos; jornal Cidade de Santos; jornal A Tribuna; Alberto Sousa.
A pesquisa iconográfica sobre a capela demonstra como fotografias, desenhos, pinturas, mapas e publicações antigas podem ser utilizados conjuntamente para reconstruir a história urbana de Santos.
🧭 Passeios e roteiros históricos em Santos e região
A história da antiga Capela de Jesus, Maria e José é apenas uma parte da rica memória do Centro Histórico de Santos e da Baixada Santista.
Para conhecer passeios e roteiros de turismo histórico e cultural em Santos e região, acesse:
R9 Turismo — Turismo, Cultura, História e Patrimônio / WWW.R9TURISMO.COM
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Você já conhecia a história da Igreja de Jesus, Maria e José, também chamada de Capela do Carvalho ou Capela do Terço? Se pudesse voltar no tempo e visitar um local histórico de Santos que desapareceu, qual escolheria? 🔰








