Até quando a história de uma cidade resistirá ao tempo e ao abandono? Em uma cobertura detalhada sobre a real situação dos equipamentos culturais e acervos históricos regionais, Renato Marchesini revela o contraste entre o descaso e os esforços de preservação.
A TRIBUNA – A-14 | Cidades – Sábado, 10 de maio de 2012
📰Transcrição da Matéria:
São Vicente: História dos escravos agoniza
Isolado do público desde 2005, espaço que abrigava o museu sofre com abandono, paredes corroídas e excesso de umidade
Texto de Hércia Lima
Alvenaria de taipa negra, corroída pelo descaso em São Vicente. Crivado no pé do Morro do Voturuá e partido em dois na sua obra de inauguração do Parque Ecológico Voturuá (antigo Horto Municipal), o Museu do Escravo agoniza.
Isolado do público desde 2005 – antes mesmo do fechamento do restante do Parque – o local está em avançado processo de deterioração por conta do abandono. A estrutura, feita principalmente à base de taipa (argila e cascalho), se mostra bastante comprometida. No paredão dos fundos, inclusive, abriu-se um vão por onde é capaz de passar uma pessoa inteira, sem dificuldade.
Ao olhar por esta buraca, a mais triste e preocupante constatação. No chão em lama estão largadas centenas de trabalhos que compunham o acervo do Museu do Escravo – que, no total, contava com mais de 600 peças. Esse material está na íntegra sob escombros, das mesmas bancadas de teto apodrecida. Estão cercados por folhagens, terra e insetos.
A edificação pode ser apontada como um dos maiores prejuízos da história de São Vicente. Embora não se garanta ser mesmo de taipa, em vários pontos é possível observar a taipa escorrendo, construindo um trilho. Jamais a poeira já foi vista viva. Os cupins do telhado, também.
Mesmo apontado como em estado crítico pela própria Prefeitura nos últimos anos – que teria, inclusive, condenado a estrutura -, não há qualquer isolamento do espaço. Nem mesmo cartazes informando as causas de o espaço estar fechado ou alertando que os visitantes não podem se aproximar.
A aproximação é tão fácil que, mesmo com homens da Guarda Municipal e jovens do Projeto Jovem pelo parque, a Reportagem não precisou responder a qualquer questionamento. Pior que isso: uma das janelas frontais estava apenas encostada, sem qualquer trinco, escancaramento para mostrar que algumas estátuas feitas de argila permanecem no salão principal, sem qualquer trabalho de preservação.
..:: HISTÓRIA
Inaugurado em 13 de maio de 1976, pelo então prefeito Jorge Emmerich Sampaio, o Museu do Escravo foi durante muitos anos apontado como símbolo da população negra no município de São Vicente. A maior parte das cerca de 600 peças que compunham o acervo eram de argila e foram esculpidas por Geraldo Albertini.
A ideia do artista era reproduzir os costumes dos escravos, desde a escravidão até a Lei Áurea. Também apresentava ampla ala para as figuras africanas legítimas. O pedagogo, escritor e membro da Academia Vicentina de Letras, Angmar Gomes dos Santos, responsável pela ligação com a história da cultura negra, é um dos mais indignados com a situação atual do Museu do Escravo.
“É com tristeza que vejo o espaço nessas condições. Quem conheceu e me ajudou a dar sentido pelo museu, sofre de ver o imaginário e o patrimônio naquele estado”, critica.
Angmar lembra que, no final dos anos 1990, a Casa de Angola — que abrigava um restaurante de comida típica africana — foi incorporada à estrutura. Cita também que o local já abrigou feiras de arte e artesanato. “É inacreditável ver tanta história se perder.”
[Foto 1 – Esquerda]: Casa de taipa centenária: fechada para visitas, mas tomada pela ação do tempo e dos cupins.
[Foto 2 – Direita]: Relíquias do passado que resistem ao abandono.
..:: Preservação
Órgão de defesa de patrimônio histórico tombamento do museu… Escrita e liga da defesa da cultura negra e trabalham e lutam mesmo com o mesmo objetivo
..:: Casa de taipa pode desmoronar
O problema em torno da estrutura da casa de taipa que abrigava o Museu do Escravo é antigo. No ano passado, a Prefeitura, após uma profunda inspeção, concluiu que o imóvel infelizmente de tombamento.
Interessado na recuperação do espaço, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Cultural e Turístico de São Vicente (Condephasv) também acompanha uma reforma. Compromisso existe com a causa, mas não onde a restauração.
“Em julho deste ano entramos com o pedido de tombamento. Mesmo com super-restauros eventuais, temos interesse na recuperação e manutenção do Museu do Escravo”, diz o historiador Marcos Braga, presidente do Condephasv.
Em relação à preservação do acervo, o historiador cita que aproximadamente 164 peças foram encaminhadas provisoriamente à Casa Martim Afonso. “Nosso interesse é salvar o acervo, 164 peças lá, especialmente as estátuas e as próprias paredes, que precisam ser preservadas”, complementa.
O escritor Angmar Gomes dos Santos se abraça à mesma causa do tombamento do museu. A meta é conseguir pelo menos todo o acervo de volta. “Depois de restaurado, vamos tentar recolocar o Conselho Municipal da Comunidade Negra.”
..:: RESPOSTA
Procurada para comentar o assunto, a Prefeitura garantiu que o espaço será reformado e suas peças, restauradas. Ainda explicou que a estrutura do local encontra-se danificada porque foi infestada por cupins e serão necessárias trocas de todo o madeiramento e escoramento das paredes.
Sendo assim, a Secretaria de Turismo solicitou ao Ministério do Turismo um aporte de verba para compensar os custos da reforma.
Parte do acervo está resguardada na Casa Martim Afonso. Algumas peças antigas estavam comprometidas, e não foram transportadas.
Por fim, quanto à falta de uma placa explicando o real estágio do museu, a Prefeitura explicou que havia uma no tubo, porém foi retirada em função da reforma do Parque Ecológico Voturuá — concluída há 9 meses —, e será recolocada.
⚠️ A memória que resiste aos cupins — e ao descaso
Preservar o patrimônio histórico de uma cidade não é apenas cuidar de paredes antigas; é garantir que as futuras gerações conheçam suas próprias raízes. Infelizmente, a realidade que testemunhamos revela um cenário doloroso de abandono, onde a história vai se esfarelando diante dos nossos olhos sem a devida urgência do poder público.
Há muito tempo cobramos, dentro do Conselho Municipal de Turismo, o restauro urgente do local! O espaço guarda um valor inestimável — tanto material quanto imaterial —, mas a omissão contínua ameaça apagar definitivamente essa memória.
Fica a pergunta inevitável: O que falta para iniciarmos o restauro? Por que isso ainda não aconteceu?
Será que estão esperando o local ser totalmente consumido pelos cupins e pela umidade, tornando qualquer tentativa de recuperação impossível? A deterioração da estrutura e o risco real de desmoronamento não são fatos novos, mas a morosidade em agir transforma o tempo no maior inimigo da nossa história.
Não podemos aceitar passivamente o apagamento da nossa identidade. Compartilhe e multiplique esta ideia! Vamos juntos salvar este patrimônio material e imaterial, pois ele pertence a toda a sociedade e deve ser preservado com a dignidade que merece.
Seguimos firmes na cobrança por respostas e atitudes concretas. Estamos de OLHO!




OI
Naum consegui ler a matéria, tem o link do site ou uma foto de maior ampliação???
Olá Flávio, boa noite!
Desculpe-nos realmente ficou de difícil visualização.
Carregamos na postagem local para ampliação da matéria.
Gratos pela dica! Ficamos á disposição,
EcoAbraços e Muita Luz>>>
Fiquei chocada com essas imagens, o que aconteceu em São Vicente, que a Prefeitura abandonou completamente, este espaço que era tão lindo,eu lembro como era porque morei em São Vicente e Santos por muito tempo, frequentava muito este espaço, e conhecia o Artista que trabalhava com artes e todas elas ficavam expostas a visitação publica, é muito triste a falta de valorização dos seus artistas, principalmente este que se dedicou de corpo e alma a tantas obras, que com certeza devem estar todas deterioradas pela falta de cuidados, eu espero que agora com a recuperação do imóvel, possam restaurar todas as obras de arte deste grande artista, e que foi tão desconsiderada e pouco valorizada,isso para mim é muito triste, pois foi com esse grande artista, que me inspirou a descobrir o mundo da arte, que eu tinha dentro de mim, e graças a ele, fiz muitas esculturas, e em tudo eu aprendi a ver a arte, em todas as raízes de arvores a troncos carcomidos pelo mar, em cada galho quebrado, era uma bailarina que eu via, e tudo isso eu aprendi com esse formidável Artista, e fico feliz que daqui para a frente poderão resgatar suas grandes obras
arte desconsiderado