A Cidade da Criança, localizada na região do bairro Solemar, em Praia Grande (SP), foi um dos projetos socioeducativos mais singulares do litoral paulista. Criado a partir da ideia de oferecer moradia, educação, formação profissional, lazer e oportunidades de trabalho a crianças e adolescentes desassistidos, o complexo chegou a funcionar praticamente como uma pequena cidade autossuficiente.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio e Mestre em Ciências.

📷 Foto antiga do Pavilhão da Cidade da Criança, em Praia Grande SP (s.d.).
A imagem registra parte da estrutura arquitetônica do complexo, permitindo observar a dimensão da antiga instituição e compreender visualmente a escala do projeto implantado na região de Solemar.
🏗️ A criação da Cidade da Criança
A ideia surgiu no final da década de 1950, a partir de um grupo de empresários da região liderado por Wadih Pedro. A proposta era criar um espaço destinado a crianças órfãs ou em situação de abandono, oferecendo muito mais do que abrigo: a intenção era proporcionar educação, formação profissional, convivência comunitária e preparação para a vida adulta.
O português Adriano Dias dos Santos, proprietário de uma extensa área de terras em Solemar, doou o terreno para a realização do projeto. A pedra fundamental foi lançada em 1960.
O complexo foi planejado para oferecer uma estrutura ampla, com alojamentos, refeitório, salas de aula, biblioteca, piscina, campo de futebol, quadra coberta e diversas oficinas profissionais.

👷 Foto antiga de trabalhadores durante a construção de um dos pavilhões da Cidade da Criança, em Praia Grande SP (s.d.).
A fotografia registra uma etapa da implantação do complexo e ajuda a reconstruir visualmente o processo de construção de uma das experiências sociais mais singulares da história de Praia Grande.
Um dos aspectos mais impressionantes era sua infraestrutura própria. A água potável era captada a partir da Serra do Mar, enquanto a energia elétrica era produzida por turbinas próprias movimentadas pelas águas do Rio Itinga, que atravessa a área.
Por isso, a Cidade da Criança não funcionava simplesmente como uma instituição assistencial. Na prática, constituía uma verdadeira “cidade dentro da cidade”.
👦 Educação, trabalho e formação profissional
Os meninos ingressavam no complexo por volta dos 11 anos e permaneciam no local até serem convocados para o Serviço Militar.
A rotina combinava estudo e formação profissional. Em um período do dia, os jovens frequentavam as aulas; no outro, participavam das oficinas, onde aprendiam diferentes profissões.
Entre as atividades estavam tipografia, marcenaria, mecânica, padaria, barbearia, colchoaria e fabricação de calçados.
O modelo procurava preparar os jovens para a vida profissional. Segundo os registros apresentados no material histórico, os menores recebiam remuneração pelo trabalho, que era depositada em seus nomes. Ao deixarem a instituição, poderiam retirar o valor acumulado e já possuíam uma profissão.
A padaria chegou a produzir aproximadamente 1.500 pães por dia, enquanto a fábrica de calçados representava cerca de 40% da arrecadação do complexo.
Outro aspecto destacado nos registros é que o espaço não possuía muros ou guardas destinados a impedir a saída dos internos. A disciplina era baseada na convivência comunitária, na organização e nas regras internas.
⚙️ Um complexo praticamente autossuficiente
A Cidade da Criança buscava produzir parte significativa dos bens e serviços necessários para sua própria manutenção.
Além da produção de alimentos, havia fabricação de calçados, móveis, colchões e materiais gráficos. Os serviços prestados pelas oficinas também contribuíam para a geração de receitas.
Em 1968, por exemplo, a fábrica de calçados registrou receita de NCr$ 29.591,72. A tipografia contava com impressoras e equipamentos próprios, oferecendo serviços gráficos por preços inferiores aos praticados no mercado.
A marcenaria também desempenhava papel importante. Mesmo sem gerar receita direta naquele período, produzia móveis, portas, janelas, vigamentos, armários e cadeiras para utilização dentro da própria Cidade da Criança, proporcionando economia à instituição.
🗺️ A localização e a dimensão do complexo
O terreno estava localizado entre o Rio Itinga e a Vila Hortência, ao longo do km 85,5 da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega.
A área possuía aproximadamente 440 metros de frente, avançando em direção ao espigão da Serra do Mar e seu divisor.
A propriedade havia pertencido a Adriano Dias dos Santos, que realizou a doação do terreno para viabilizar a implantação da obra.
📜 As finalidades previstas no estatuto
O estatuto da associação estabelecia como finalidade a manutenção da Cidade da Criança para abrigar e educar menores desassistidos, oferecendo ensino primário e profissional.
Também estava entre seus objetivos colaborar com as autoridades constituídas na assistência e proteção ao menor desamparado.
Com o passar do tempo, a instituição recebeu subvenções da Prefeitura da Estância Balneária de Praia Grande e do Governo do Estado, além de recursos provenientes de doações, mensalidades de associados e das próprias atividades produtivas.
🏢 Os 20 blocos da Cidade da Criança
A estrutura do complexo era formada por 20 blocos, destinados a diferentes funções:
- Pavilhão da Administração – salas, arquivo, biblioteca, sala de música, gabinete odontológico, enfermaria, sala de recuperação, almoxarifado e sanitários.
- Igreja Católica, dedicada a Santa Luzia.
- Pavilhão Comercial – padaria, barbearia, bazar, sala de merenda, depósito e frigoríficos.
- Fábrica de calçados.
- Tipografia e artes gráficas.
- Carpintaria e mercearia.
- Usina hidrelétrica.
- Colchoaria e estofamento.
- Residência dos funcionários.
- Estábulos e pocilgas.
- Lavanderia.
- Dormitórios.
- Refeitório e cozinha.
- Salas de aula.
- Estádio, arquibancada e vestiários.
- Oficina mecânica.
- Depósito.
- Ginásio de esportes.
- Escola Profissionalizante “Adelaide Patrocínio dos Santos”.
- Auditório “Adriano Dias dos Santos”.
O auditório e a escola profissionalizante foram inaugurados em 28 de junho de 1980.
🏫 A Escola Profissionalizante e o novo auditório
Em 1980, foram inauguradas as novas instalações da Escola Profissionalizante “Adelaide Patrocínio dos Santos” e do Auditório “Adriano Dias dos Santos”.
A solenidade contou com a presença de Adelaide Patrocínio dos Santos, Wadih Pedro, do deputado federal Athiê Jorge Coury, representando o governador do Estado, além de outras autoridades e representantes de instituições da região.
Durante a cerimônia, foram hasteadas as bandeiras e os alunos da Cidade da Criança cantaram o Hino Nacional.
A construção dos dois prédios representou um investimento de aproximadamente 6 milhões, segundo o registro histórico utilizado como fonte. Escola e auditório ocupavam uma área de aproximadamente 1.570 metros quadrados.
A escola possuía oito salas de aula, dependências administrativas, sanitários e cozinha destinada à preparação da merenda.
Já o moderno auditório tinha capacidade para 320 pessoas, com poltronas, palco, sanitários e espaços destinados aos artistas.
📚 Cultura, lazer e esportes
A vida dos jovens não se limitava às aulas e às oficinas profissionais.
A biblioteca, que reunia aproximadamente 2 mil volumes, recebeu parte de seu acervo por meio de doações, inclusive do Projeto Rondon. Entretanto, naquele momento, encontrava-se sem funcionamento por falta de pessoal habilitado.
No campo do lazer, os internos assistiam a filmes aos sábados e frequentavam a Praia de Solemar. Também utilizavam a piscina natural formada pelo Rio Itinga, que atravessava o terreno.
Os esportes tinham presença constante na rotina. Os alunos praticavam diferentes modalidades e participavam de competições e torneios internos e externos.
Havia ainda sessões de cinema, projeções de slides, palestras educativas, excursões, comemorações e celebrações religiosas na Capela de Santa Luzia.
👞 As oficinas e a formação profissional
As oficinas constituíam um dos principais pilares do projeto.
Na oficina gráfica, trabalhavam 12 menores, divididos entre os períodos da manhã e da tarde. Quem trabalhava à tarde estudava pela manhã.
A fábrica de calçados empregava 27 meninos e produzia cerca de 70 pares por dia. A marcenaria contava com 14 aprendizes; a oficina mecânica, seis; a colchoaria, quatro; a padaria, quatro; e a barbearia, quatro.
Cada oficina possuía mestres contratados para ensinar os jovens.
Na fábrica de calçados, havia profissionais especializados vindos de Franca, tradicional polo calçadista paulista. O empreendimento buscava ampliar a produção e gerar recursos para a manutenção da instituição.
🥖 A padaria e a produção de alimentos
A padaria atendia ao consumo dos moradores da Cidade da Criança e fazia parte da estrutura produtiva do complexo.
Além de garantir o fornecimento de pão, também contribuía para a formação profissional dos jovens.
A lógica da instituição era integrar educação, trabalho, disciplina, convivência e autonomia, procurando preparar os internos para uma futura vida independente.
🎺 Música e atividades comunitárias
A música também fazia parte da formação dos jovens.
A banda da Cidade da Criança reunia cerca de 30 meninos e tinha como mestre o sargento Walter, da Força Pública, que frequentava o complexo três vezes por semana.
Durante o período letivo, as atividades musicais aconteciam à noite e, nas férias, durante o dia.
🤝 A proposta de promoção humana
Os registros históricos apresentam a Cidade da Criança como uma experiência que pretendia superar o modelo tradicional de simples acolhimento institucional.
A proposta era oferecer aos jovens condições para desenvolver capacidades, aprender uma profissão, conviver em comunidade e construir autonomia.
Essa concepção aparece associada à ideia de “promoção humana”: criar condições para que cada pessoa pudesse descobrir e utilizar seu potencial, fazer escolhas conscientes e participar da construção de uma sociedade melhor.
🌎 Reconhecimento internacional
Durante a década de 1970, o projeto chegou a ser apresentado como uma referência internacional no atendimento a crianças e adolescentes, sendo associado à atuação da UNESCO.
Esse reconhecimento ajudou a projetar Praia Grande para além de sua condição de destino turístico litorâneo, mostrando que o município também abrigava uma experiência social considerada singular para sua época.
⚠️ As mudanças e o declínio
A história da Cidade da Criança também foi marcada por profundas transformações sociais e legais.
Com a entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, o trabalho infantil passou a ser proibido nos moldes praticados anteriormente.
Como uma parcela importante da receita da instituição vinha das atividades produtivas realizadas pelos jovens, a mudança provocou forte impacto sobre o modelo econômico que sustentava o complexo.
Posteriormente, dificuldades financeiras, o falecimento de fundadores e dirigentes e questões jurídicas relacionadas à propriedade contribuíram para o processo de enfraquecimento da instituição.
🌿 O abandono do complexo
Sem os recursos necessários para manter a antiga estrutura, o complexo entrou em processo de decadência.
Grandes pavilhões, equipamentos e máquinas passaram a sofrer os efeitos do tempo e da ação da vegetação da Serra do Mar.
Questões jurídicas envolvendo a propriedade e os estatutos da associação também dificultaram intervenções públicas destinadas à recuperação da área.
Assim, aquilo que um dia funcionou como uma pequena cidade autossuficiente passou a permanecer cada vez mais isolado e degradado.
🏙️ Cidade da Criança: Memória de Praia Grande
A Cidade da Criança deu origem ao nome de um bairro do distrito de Solemar, em Praia Grande.
Sua história está diretamente ligada à Associação Assistencial da Cidade da Criança (AACC), responsável pelo projeto que chegou a ser reconhecido como referência internacional no atendimento a adolescentes durante a década de 1970.
Hoje, a memória do complexo permite refletir sobre diferentes aspectos da história social brasileira: educação, assistência à infância, formação profissional, trabalho, autonomia, políticas públicas e transformação da legislação de proteção à criança e ao adolescente.
Ao mesmo tempo, suas antigas construções representam um importante patrimônio histórico e afetivo de Praia Grande.
Preservar essa memória significa compreender não apenas os edifícios e equipamentos que existiram naquele lugar, mas também as pessoas que passaram por ali, os profissionais que trabalharam no projeto e os jovens que tiveram parte de suas vidas marcada pela experiência da Cidade da Criança.
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