A famosa fotografia registra uma emblemática ação de marketing de guerrilha realizada em Santos (SP), em 1977, para promover a chegada aos cinemas brasileiros do remake de King Kong, produção lançada originalmente em 1976. A campanha transformou a paisagem urbana do Gonzaga em um verdadeiro cenário de Hollywood, aproximando o cinema do público muito antes da popularização da internet, das redes sociais e da publicidade digital.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.

🎬 A ação de divulgação em Santos
Em 1977, a praia do Gonzaga e seus arredores receberam uma ação promocional inspirada no gigantesco gorila do cinema. A iniciativa fazia parte das estratégias utilizadas para chamar a atenção do público para a estreia de King Kong nas salas de exibição da cidade.
A campanha explorava justamente aquilo que tornava o personagem tão fascinante: seu tamanho gigantesco e a sensação de que ele havia passado pela cidade.
Segundo registros históricos sobre a passagem do personagem por Santos, uma réplica de King Kong também foi instalada na Praça da Independência, no Gonzaga, em julho de 1977. A estrutura tinha aproximadamente três metros de altura e rapidamente se tornou uma atração para moradores, turistas, crianças e motoristas que circulavam pela região.
A divulgação alcançou importantes cinemas santistas, entre eles o Cine Indaiá, localizado na Avenida Ana Costa, além do Cine Caiçara, no Boqueirão, e do Cine Itajubá, no José Menino.
👣 Pegadas gigantes na areia
A ideia das pegadas gigantes deixadas na areia era especialmente eficiente para uma época em que a publicidade cinematográfica precisava ocupar os espaços públicos para despertar a curiosidade das pessoas.
A imagem sugeria que King Kong havia caminhado pela própria orla de Santos, criando uma espécie de intervenção urbana capaz de fazer a ficção parecer realidade.
Hoje, uma ação semelhante poderia ser realizada com projeções, realidade aumentada, redes sociais ou recursos digitais. Em 1977, entretanto, uma marca precisava criar experiências físicas e visuais que chamassem a atenção de quem passava pelas ruas.
Por isso, campanhas como essa podem ser entendidas como exemplos pioneiros de marketing de guerrilha, conceito associado a ações criativas, inesperadas e de grande impacto visual, realizadas fora dos formatos tradicionais de publicidade.
🏖️ O Gonzaga como cenário da campanha
A escolha do Gonzaga não foi casual. A região era — e continua sendo — uma das áreas mais movimentadas e conhecidas de Santos, reunindo comércio, hotéis, cinemas, restaurantes, circulação de moradores e grande fluxo de turistas.
A instalação de uma atração gigantesca em um espaço público garantia algo extremamente valioso para uma campanha cinematográfica: atenção espontânea.
O registro histórico da réplica instalada na Praça da Independência mostra como o personagem chegou a dominar visualmente a paisagem do bairro. A estrutura foi posicionada diante do Monumento à Independência e provocou a curiosidade de quem circulava pelo local.
🎥 Sobre o filme King Kong de 1976
King Kong foi uma releitura do clássico produzido em 1933. A nova versão foi dirigida por John Guillermin e produzida por Dino De Laurentiis, tendo Jeff Bridges, Jessica Lange e Charles Grodin entre os principais nomes do elenco.
A história acompanha uma expedição que chega a uma ilha desconhecida em busca de petróleo. Ali, os integrantes encontram uma comunidade nativa e o gigantesco gorila conhecido como King Kong.
A criatura se aproxima de Dwan, personagem interpretada por Jessica Lange, e posteriormente é capturada e levada para Nova York, onde passa a ser apresentada como uma atração extraordinária.
A tentativa de transformar um ser selvagem em espetáculo acaba conduzindo aos acontecimentos trágicos do final da história.
🏙️ As Torres Gêmeas substituem o Empire State Building
Uma das principais diferenças da versão de 1976 em relação ao filme original está no cenário do confronto final.
Na produção de 1933, King Kong escala o Empire State Building, então um dos maiores símbolos arquitetônicos de Nova York.
Na versão de 1976, o personagem sobe nas Torres Gêmeas do World Trade Center, incorporando à narrativa um dos símbolos mais modernos da cidade naquele período. As locações de produção incluíram o World Trade Center Plaza, em Manhattan.
Essa mudança ajudou a atualizar visualmente a história para o público da década de 1970 e também deu ao filme uma identidade própria.
🏆 Um filme premiado pelos efeitos visuais
A produção de 1976 também entrou para a história do cinema pelos seus efeitos especiais.
Na 49ª edição do Oscar, realizada em 1977, King Kong recebeu um Special Achievement Award (Visual Effects). A Academia atribuiu o prêmio a Carlo Rambaldi, Glen Robinson e Frank Van der Veer.
O trabalho envolveu diferentes técnicas para criar a presença do gigantesco gorila, combinando animatrônicos, efeitos mecânicos, maquiagem, figurinos e técnicas cinematográficas.
É importante fazer uma correção histórica: Rick Baker participou da criação e interpretação relacionada ao personagem, mas não foi o vencedor do Oscar de efeitos visuais de King Kong. A premiação oficial foi concedida a Rambaldi, Robinson e Van der Veer. A própria Academia destaca a participação de Baker na produção em sua trajetória profissional, mas seu primeiro Oscar competitivo viria posteriormente, por Um Lobisomem Americano em Londres (1981).
🌟 A estreia de Jessica Lange no cinema
Outro aspecto marcante da produção foi a presença de Jessica Lange, que estreou no cinema interpretando Dwan.
O filme ajudou a lançar a atriz internacionalmente e transformou sua participação em um dos elementos mais lembrados daquela versão de King Kong.
Ao lado de Jeff Bridges e Charles Grodin, Lange participou de uma produção que buscava atualizar o mito do gorila gigante para uma nova geração de espectadores.
📽️ O cinema como acontecimento urbano
A campanha de King Kong em Santos revela muito sobre a cultura de divulgação cinematográfica dos anos 1970.
Sem redes sociais, smartphones ou plataformas de vídeo, era necessário levar o filme até onde as pessoas estavam.
Uma réplica gigante, uma intervenção na areia ou uma ação realizada diante de um cinema tinham capacidade de gerar curiosidade, conversa e divulgação espontânea.
A estratégia era simples, mas poderosa: fazer com que as pessoas encontrassem King Kong antes mesmo de entrar na sala de cinema.
E Santos, especialmente o Gonzaga, oferecia o cenário perfeito para isso.
🏛️ Uma memória da história urbana de Santos
A fotografia não representa apenas uma campanha publicitária de um filme famoso. Ela também registra um momento da história cultural, urbana e comercial de Santos.
O episódio mostra como os cinemas de rua, a publicidade e os espaços públicos estavam profundamente conectados. A cidade podia se transformar temporariamente em cenário de uma produção de Hollywood — e um personagem fictício podia se tornar uma atração real para milhares de pessoas.
Além disso, registros como esse ajudam a preservar a memória de espaços que posteriormente foram modificados ou desapareceram, como antigos cinemas e estabelecimentos comerciais do Gonzaga.
🦍 King Kong voltou a Santos
A história ainda teve um segundo capítulo.
Em 1988, onze anos depois da campanha original, King Kong voltou a Santos para divulgar outra produção do personagem. Dessa vez, uma réplica ainda maior foi instalada diante do Cine Indaiá, novamente transformando o espaço urbano em ponto de atração. Segundo registros históricos, a réplica possuía mais de quatro metros de altura e pesava mais de 200 quilos.
Isso demonstra a força que o personagem continuava tendo como ferramenta de divulgação cinematográfica.
📸 Uma fotografia que virou documento histórico
Hoje, a imagem de King Kong associado à paisagem do Gonzaga pode parecer apenas uma curiosidade publicitária. Porém, ela representa muito mais.
A fotografia registra a união entre cinema, publicidade, turismo, espaço urbano e memória social, mostrando como uma campanha promocional podia transformar temporariamente uma área tradicional de Santos em um grande palco de entretenimento.
Mais de quatro décadas depois, a imagem permite imaginar como era circular pelo Gonzaga em 1977 e descobrir, inesperadamente, que King Kong havia “invadido” a cidade.
📚 Fontes e referências
- Academy of Motion Picture Arts and Sciences (Oscars) — registro oficial do Special Achievement Award de efeitos visuais concedido a King Kong em 1977.
- Memória Santista — registro histórico sobre as ações promocionais de King Kong em Santos, incluindo a instalação da réplica na Praça da Independência em 1977 e o retorno do personagem em 1988.
- IMDb — informações sobre o filme, direção, elenco, produção e locais de filmagem.
- Academy of Motion Picture Arts and Sciences — informações sobre a trajetória profissional de Rick Baker.


