A Estação das Barcas de Vicente de Carvalho, historicamente relacionada ao antigo povoado e atracadouro de Itapema, possui uma trajetória diretamente ligada à formação urbana, ao desenvolvimento econômico, ao turismo e à mobilidade entre Santos e Guarujá. Sua história remonta ao final do século XIX, quando a criação da Vila Balneária de Guarujá exigiu novos meios de transporte para conectar a ilha ao continente e ao porto de Santos.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
A história desse lugar também ajuda a compreender a própria transformação de Itapema em Vicente de Carvalho, a expansão do turismo balneário, o crescimento das atividades portuárias e a consolidação de uma das mais importantes ligações hidroviárias da Baixada Santista.

Cartão Postal de Foto antiga da Estação de Barcas do Guarujá (s.d.).
⚓ Itapema antes da modernização do Guarujá
O antigo Itapema ocupava uma posição estratégica às margens do estuário de Santos. Muito antes da existência dos modernos terminais de passageiros, o local já possuía importância como ponto de circulação de pessoas e mercadorias.
No final do século XIX, com a criação da Vila Balneária de Guarujá, tornou-se necessário estabelecer uma ligação regular entre Santos e a nova área turística da Ilha de Santo Amaro.
Foi nesse contexto que o antigo Itapema passou a desempenhar papel fundamental como ponto de chegada dos passageiros que atravessavam o estuário de Santos.
A região posteriormente se desenvolveria como um importante núcleo urbano e portuário, dando origem ao atual distrito de Vicente de Carvalho, denominação oficial adotada em 1953.
🚢 As primeiras travessias e os vapores
A ligação regular entre Santos e Guarujá ganhou novo impulso no final do século XIX.
Segundo a Prefeitura de Guarujá, quando a Vila Balneária foi criada, os visitantes que chegavam a Santos utilizavam um pequeno vapor chamado Cidade de São Paulo, que atravessava o estuário até Itapema. Ali, os passageiros encontravam a estação inicial do sistema ferroviário que os conduziria até a região da praia de Pitangueiras.
Esse sistema criou uma importante sequência de deslocamento:
trem em Santos → travessia marítima → Itapema → trem a vapor → Vila Balneária de Guarujá.
Dessa maneira, o antigo atracadouro de Itapema tornou-se uma espécie de porta de entrada para o novo destino turístico.
🚂 O Tramway do Guarujá — 1893
Um dos momentos mais importantes dessa história aconteceu em 2 de setembro de 1893, quando foi inaugurado o Tramway do Guarujá, sistema ferroviário criado para facilitar o deslocamento dos visitantes entre o estuário e a Vila Balneária.
O empreendimento foi idealizado por Elias Fausto Pacheco Jordão, personagem fundamental para a implantação da estrutura turística inicial do Guarujá. A Prefeitura de Guarujá registra que a construção do Tramway foi iniciada em 1892 e sua inauguração ocorreu no ano seguinte.
A ferrovia tinha aproximadamente 9 quilômetros e conectava a região do estuário à área turística de Pitangueiras. A documentação municipal destaca que uma das estações estava relacionada às travessias entre Santos e Guarujá, enquanto a outra atendia a região próxima à praia e aos hotéis.
🛤️ Uma viagem que unia Santos ao balneário
Para os turistas da época, a viagem até o Guarujá era uma verdadeira experiência de transporte multimodal.
Quem vinha de São Paulo podia viajar de trem até Santos. Depois, fazia a travessia pelo estuário até Itapema, no Guarujá. Na estação, embarcava novamente no trem a vapor do Tramway, seguindo em direção à Vila Balneária e à praia de Pitangueiras.
O sistema conectava diferentes meios de transporte e permitia que o visitante chegasse ao destino turístico sem a necessidade das rodovias que conhecemos atualmente.
Itapema tornou-se, portanto, uma peça essencial na engrenagem que transformou Guarujá em destino turístico.
🏨 Da estação ao Grande Hotel de la Plage
O trem seguia em direção à região de Pitangueiras, onde estava localizado o sofisticado Grande Hotel de la Plage, um dos principais símbolos do início do turismo balneário no Guarujá.
A presença do hotel, dos chalés, do cassino e de outras estruturas da Vila Balneária ajudou a consolidar uma nova imagem do território: a de um destino de lazer voltado especialmente aos visitantes de maior poder aquisitivo.
O Tramway, portanto, não era apenas uma ferrovia. Ele fazia parte de um projeto mais amplo de desenvolvimento turístico e de valorização da Ilha de Santo Amaro.
A própria Prefeitura de Guarujá destaca que o sistema ferroviário foi criado justamente para proporcionar um meio de transporte confortável aos visitantes da nova Vila Balneária.
📸 O antigo cais e a estação de Itapema
As fotografias antigas do cais de Itapema são documentos importantes para compreender essa transformação.
Em registros do início do século XX, é possível observar a estrutura de madeira avançando sobre o estuário, a área de embarque e a proximidade entre a estação ferroviária e o atracadouro.
Uma documentação técnica da Prefeitura de Guarujá reproduz uma fotografia identificada como “Cais de atração das barcas e estação inicial da estrada de ferro que ligava o Itapema à orla marítima do Guarujá”, datada da década de 1900 e creditada à Fundação Arquivo e Memória de Santos.
Essas imagens permitem perceber como ferrovia e navegação funcionavam praticamente como um único sistema de transporte.
🔄 A modernização das travessias
Com o crescimento da população e o aumento do movimento turístico e comercial, o sistema de transporte entre Santos e Guarujá começou a passar por importantes transformações.
Em 1910, um novo atracadouro foi instalado em Santos, nas proximidades da atual Praça da República, em frente à região da Alfândega.
Poucos anos depois, outra mudança alteraria profundamente a relação entre as duas cidades.
Em 1918, foi implantado o serviço de ferry-boat, inicialmente permitindo a travessia de veículos entre Santos e Guarujá. A nova modalidade ampliou a circulação e passou a desempenhar papel importante no transporte entre as duas margens.
A partir desse momento, a ligação Santos–Guarujá passou a contar com diferentes sistemas, atendendo públicos e necessidades distintas.
🚗 Barcas, ferry-boats e o crescimento urbano
A implantação do ferry-boat modificou a dinâmica da ligação entre Santos e Guarujá.
Enquanto a travessia de passageiros por barcas continuava atendendo principalmente a população que precisava se deslocar diariamente entre as duas cidades, o sistema de ferry-boat permitia o transporte de automóveis, acompanhando a expansão do uso dos veículos rodoviários.
Por volta da década de 1930, registros indicam a utilização de embarcações com estrutura para transportar automóveis entre Ponta da Praia, em Santos, e a região de Vila Lígia, no Guarujá.
A mudança revela como a infraestrutura de transporte acompanhava as transformações econômicas e sociais da Baixada Santista.
🚂 O fim do Tramway do Guarujá
Durante mais de seis décadas, o trem do Guarujá participou da história do desenvolvimento turístico e urbano da cidade.
Entretanto, o avanço de outros meios de transporte tornou o sistema ferroviário progressivamente menos importante.
O Tramway do Guarujá foi desativado em 13 de julho de 1956, encerrando uma história iniciada em 1893.
A antiga locomotiva a vapor que participou desse período permanece como importante elemento da memória ferroviária do município e atualmente pode ser visitada no Pavilhão da Maria Fumaça, no centro de Guarujá.
🏘️ Itapema se transforma em Vicente de Carvalho
Enquanto o turismo se desenvolvia na região de Pitangueiras, outra dinâmica urbana acontecia em Itapema. O antigo povoado cresceu associado às atividades portuárias, ao comércio e ao fluxo diário de trabalhadores entre Santos e Guarujá.
Em 30 de dezembro de 1953, o antigo distrito de Itapema passou a ser oficialmente denominado Vicente de Carvalho, em homenagem ao poeta santista.
A mudança de nome acompanhou uma transformação muito maior: Itapema deixava de ser apenas um ponto de passagem para se consolidar como um dos principais núcleos urbanos do Guarujá.
👷♂️ Da estação turística ao transporte cotidiano
Com a expansão das atividades portuárias e o crescimento urbano da Baixada Santista, a travessia de passageiros passou a assumir uma função cada vez mais importante no cotidiano dos trabalhadores.

Foto Antiga do Terminal de Passageiros das Barcas em Vicente de Carvalho, anos 70 e 80.
A ligação entre Vicente de Carvalho e Santos deixou de estar associada predominantemente ao turismo e passou a desempenhar papel essencial na mobilidade regional.
Milhares de pessoas passaram a utilizar diariamente as embarcações para trabalhar, estudar, realizar compras, acessar serviços e estabelecer conexões entre os dois municípios.
Assim, o antigo caminho dos turistas que chegavam ao Guarujá no final do século XIX transformou-se em uma rede cotidiana de mobilidade metropolitana.
🚶♀️🚲 Uma travessia essencial para pedestres e ciclistas
A importância da estação permanece até os dias atuais. A travessia entre Santos e Vicente de Carvalho continua sendo utilizada por pedestres e ciclistas, mantendo uma ligação histórica que atravessa diferentes fases da ocupação e do desenvolvimento da Baixada Santista.
🏗️ Do antigo atracadouro ao terminal de passageiros
A infraestrutura também mudou profundamente.
O antigo cais de madeira, associado às primeiras décadas da travessia, foi sendo substituído e modernizado à medida que aumentavam o número de passageiros e as exigências de segurança e operação.
O local que um dia recebeu visitantes destinados ao Grande Hotel de la Plage passou a atender principalmente trabalhadores, moradores, estudantes e demais usuários que dependem da travessia entre Guarujá e Santos.
Essa transformação é uma das características mais interessantes da história da estação: o mesmo espaço que ajudou a criar o turismo moderno do Guarujá também se tornou uma infraestrutura fundamental para a vida cotidiana da população.
🌊 Um patrimônio da mobilidade da Baixada Santista
A Estação das Barcas de Vicente de Carvalho não deve ser observada apenas como um terminal de transporte.
Ela é parte de uma paisagem histórica formada por Itapema, pelo antigo cais, pelo Tramway do Guarujá, pela Maria Fumaça, pelas barcas, pelo ferry-boat, pelo Porto de Santos e pelo desenvolvimento urbano de Vicente de Carvalho.
Cada uma dessas estruturas representa uma etapa da transformação da Baixada Santista.
A história do local também demonstra como turismo, transporte, atividade portuária e urbanização estiveram profundamente conectados ao longo de mais de um século.
📷 Fotografias antigas como patrimônio histórico
As fotografias antigas da estação, do cais e das embarcações possuem enorme valor documental.
Uma imagem aparentemente simples — como uma barca chegando ao atracadouro ou uma locomotiva parada junto à estação — pode revelar informações sobre arquitetura, tecnologia, transporte, vestuário, atividades econômicas, ocupação do território e relações sociais.
Por isso, preservar, identificar e contextualizar essas fotografias é fundamental para a valorização da memória de Vicente de Carvalho e de toda a Baixada Santista.
Ao observar uma fotografia antiga, é importante perguntar:
Onde foi feita? Em que ano? Quem aparece? Qual era a função daquele espaço? Qual empresa operava o serviço? Como as pessoas chegavam até ali? O que mudou na paisagem?
Essas perguntas transformam uma fotografia em uma verdadeira fonte para a pesquisa histórica.
🧭 De Itapema ao Vicente de Carvalho contemporâneo
A trajetória da Estação das Barcas acompanha uma parte significativa da própria história do Guarujá.
No final do século XIX, Itapema era uma porta de entrada para a recém-criada Vila Balneária. Em 1893, tornou-se ponto de conexão com o Tramway do Guarujá. No início do século XX, passou a integrar uma rede cada vez mais complexa de transporte. Em 1918, a implantação do ferry-boat acrescentou uma nova possibilidade de ligação entre Santos e Guarujá.
Na década de 1950, o antigo Itapema consolidou sua identidade como Vicente de Carvalho. Depois, com a expansão urbana e portuária, a travessia de passageiros adquiriu uma função cada vez mais importante para a população trabalhadora.
Hoje, a estação continua conectando as duas margens do estuário.
Mudaram as embarcações, os cais, as tecnologias e o perfil dos passageiros — mas permaneceu a necessidade de atravessar o estuário.
🌉 Uma história que continua em movimento
Mais de um século depois das primeiras travessias regulares, a ligação entre Santos e Guarujá continua sendo um dos elementos estruturantes da mobilidade regional.
A história da Estação das Barcas de Vicente de Carvalho mostra que infraestruturas de transporte também são patrimônios históricos. Elas testemunham mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e urbanas.
Do pequeno vapor que transportava os primeiros visitantes da Vila Balneária ao moderno sistema de travessia de passageiros, existe uma linha histórica contínua.
Itapema, o Tramway, as barcas, o ferry-boat e Vicente de Carvalho fazem parte de uma mesma história: a história de pessoas que atravessam o estuário e ajudam, todos os dias, a construir a Baixada Santista.
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Você tem alguma fotografia antiga, lembrança ou história de família relacionada às antigas barcas, ao atracadouro de Itapema ou à Estação das Barcas de Vicente de Carvalho? Compartilhe nos comentários e ajude a preservar essa memória!


