A Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, localizada no centro de Fortaleza, no Ceará, é um dos mais importantes símbolos históricos, militares, urbanos e culturais da capital cearense. Sua trajetória está diretamente relacionada à ocupação do território, às disputas entre portugueses e holandeses, à formação da cidade de Fortaleza e às transformações políticas e sociais ocorridas no Ceará ao longo dos séculos.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com pós-graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.

Pormenor da Vila de N. Sra. da Assunção (c. 1730). No canto superior direito, o primitivo forte, em faxina e terra.
🏰 Das primeiras fortificações ao Forte Schoonenborch
A história da fortificação está relacionada ao processo de ocupação colonial do litoral cearense. Antes da construção do atual monumento, diferentes estruturas defensivas foram erguidas na região.
Em 1611, Martim Soares Moreno estabeleceu uma fortificação nas proximidades da foz do rio Ceará, em área relacionada às primeiras tentativas portuguesas de ocupação e defesa do território. Posteriormente, em 1649, durante o período de domínio holandês no Nordeste, o capitão Matias Beck chegou ao Ceará e construiu uma nova fortificação às margens do riacho Pajeú, sobre o monte Marajaitiba.
O forte recebeu o nome de Fort Schoonenborch, em homenagem a um governador holandês. A estrutura fazia parte das estratégias de ocupação e defesa utilizadas pelos holandeses durante as disputas pelo controle do Nordeste brasileiro.
⚔️ A retomada portuguesa e a mudança de nome
Em 1654, com a expulsão dos holandeses do Ceará, a fortificação passou novamente para o domínio português. A partir desse momento, recebeu a denominação de Forte de Nossa Senhora da Assunção.
A mudança de nome representou também uma transformação política e simbólica: a fortificação passou a integrar a estrutura portuguesa de controle e defesa do território.
Entretanto, é importante compreender que a atual Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção não corresponde simplesmente ao forte holandês de 1649. Ao longo dos séculos, a área recebeu sucessivas construções, reformas, demolições e reconstruções. A própria documentação histórica registra diferentes versões da fortificação.
🧱 Uma história marcada por reconstruções
As primeiras estruturas construídas no local apresentavam limitações técnicas e sofreram com a ação do tempo e das condições ambientais.
Segundo estudo publicado pelo Instituto do Ceará, a fortificação portuguesa foi refeita em 1660, mas posteriormente voltou a apresentar problemas estruturais. Ao longo do período colonial, ocorreram novas reconstruções e modificações.
Esse processo demonstra que a fortaleza que observamos hoje é resultado de uma longa sucessão de intervenções arquitetônicas e militares, e não de uma única obra realizada em determinado momento histórico.
🏗️ A construção da atual Fortaleza
A construção da fortificação que corresponde à estrutura atual começou em 1812, durante o governo de Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire, seguindo o projeto elaborado pelo tenente-coronel engenheiro Antônio José da Silva Paulet.
A pedra fundamental foi lançada em 12 de outubro de 1812. A obra foi concluída em 1817, constituindo uma fortificação de características abaluartadas, concebida segundo os conhecimentos militares de seu período.
O projeto apresentava uma configuração aproximadamente quadrangular, com baluartes nos quatro vértices, associados às invocações de Nossa Senhora da Assunção, São José, Dom João e Príncipe da Beira.
A construção também esteve inserida em um projeto mais amplo de modernização e organização urbana da Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Dessa maneira, a fortaleza não deve ser compreendida apenas como uma instalação militar, mas como parte do processo de transformação urbana e institucional da cidade.

Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (penúltima versão). Levantamento. Inspeção de Francisco Xavier Torres. 1800. Fonte Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa.
🏙️ A fortaleza e o nascimento de Fortaleza
Existe uma relação profunda entre a fortificação e a própria identidade da capital cearense.
A antiga Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção incorporou em sua denominação a referência à fortificação. Com o passar do tempo, o nome Fortaleza se consolidou como denominação da cidade.
Assim, a fortaleza não apenas protegeu e marcou o território: ela também participou da construção simbólica da identidade urbana da cidade.
O estudo de Marcos André Nascimento de Jesus, publicado nos anais da Universidade Estadual do Ceará, destaca justamente a relação entre a fortificação, a urbanização e as experiências sociais vividas pela população entre 1812 e 1835.

Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Projeto de Antônio José da Silva Paulet. Desenho (1825?). Fonte: Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar. Lisboa.
🗺️ Fortaleza como espaço de poder e modernidade
Durante o início do século XIX, a fortaleza passou a desempenhar um papel que ultrapassava sua função defensiva.
Ela se tornou parte de um espaço urbano em transformação, relacionado à organização política, econômica, social e jurídica da Vila/Cidade de Fortaleza.
O planejamento urbano associado ao período buscava organizar a cidade segundo um traçado mais regular, com influência de modelos urbanísticos portugueses.
Nesse contexto, a fortaleza passou a representar ideias como poder, defesa, autoridade, modernidade e organização urbana.
⚔️ A fortaleza e os conflitos políticos do século XIX
A história da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção também se conecta aos grandes conflitos políticos que marcaram o Brasil no início do século XIX.
A fortificação esteve relacionada ao contexto da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador de 1824, períodos de grande instabilidade política e confrontos no Nordeste.
A pesquisa histórica da UECE mostra como a fortaleza e seus arredores constituíram espaços nos quais ocorreram experiências de violência, manifestações políticas, celebrações e outras práticas sociais.
Desse modo, o monumento pode ser interpretado como um espaço de múltiplas experiências humanas, no qual diferentes grupos sociais produziram memórias e significados ao longo do tempo.
👩🦱 Bárbara de Alencar e a memória política
Um dos episódios mais marcantes associados à fortaleza envolve Bárbara de Alencar, personagem fundamental da história política do Ceará e participante da Revolução Pernambucana de 1817.
Bárbara de Alencar esteve presa em uma das celas da fortificação. Sua trajetória é particularmente significativa para compreender a participação de mulheres nas disputas políticas do período e a dimensão repressiva das estruturas de poder.
A memória de Bárbara transforma a fortaleza em um espaço que também permite discutir liberdade, resistência, participação política, repressão e direitos na História do Brasil.
🎉 Um espaço de conflitos, celebrações e sociabilidade
Embora seja lembrada principalmente como uma construção militar, a fortaleza também foi palco de experiências sociais variadas.
Pesquisas recentes destacam que o espaço esteve relacionado tanto a momentos de violência e repressão quanto a celebrações e manifestações populares.
Em 1831, por exemplo, ocorreram celebrações relacionadas ao reconhecimento de D. Pedro II como imperador do Brasil, após a abdicação de D. Pedro I.
Essa dimensão demonstra que os monumentos históricos não são apenas objetos arquitetônicos. Eles também são lugares vivenciados pela sociedade, carregados de lembranças, disputas, sentimentos, celebrações e diferentes interpretações.
🪖 A fortaleza e a presença militar
Ao longo dos séculos XIX e XX, a fortificação passou por diferentes intervenções e abrigou unidades militares.
No século XIX, novas construções foram realizadas no entorno, recebendo diferentes organizações militares. No século XX, a área consolidou sua importância para as estruturas do Exército Brasileiro.
Atualmente, o conjunto abriga a sede da 10ª Região Militar do Exército Brasileiro, mantendo sua relação histórica com as instituições militares.
🏛️ Patrimônio cultural e Monumento Nacional
A importância histórica, arquitetônica, arqueológica e paisagística da fortaleza ultrapassa sua função militar.
Em 15 de julho de 2008, a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Monumento Nacional, com inscrição nos livros de tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; Histórico; e das Belas Artes.
Esse reconhecimento reforça a necessidade de compreender o monumento como parte do patrimônio cultural brasileiro, cuja preservação interessa não apenas às instituições públicas, mas também à sociedade.
🧭 Patrimônio, turismo e educação histórica
A Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção possui grande potencial para o turismo cultural, histórico e pedagógico.
Uma visita ao monumento pode permitir que estudantes, moradores e turistas compreendam diferentes processos históricos:
- a presença indígena e a ocupação colonial do Ceará;
- as disputas entre portugueses e holandeses;
- a formação territorial da cidade;
- a arquitetura militar colonial e imperial;
- a urbanização de Fortaleza;
- as revoltas e conflitos políticos do século XIX;
- a história de Bárbara de Alencar;
- a formação das instituições militares;
- a preservação do patrimônio cultural brasileiro.
Nesse sentido, o turismo histórico pode funcionar como uma ferramenta de educação patrimonial, aproximando o visitante da história por meio do contato direto com o espaço onde diferentes acontecimentos foram vivenciados.
📚 Um patrimônio que precisa ser interpretado
Preservar uma fortaleza histórica não significa apenas conservar suas paredes, baluartes, pedras e estruturas arquitetônicas.
É necessário preservar também as memórias, os acontecimentos, os personagens e os diferentes grupos sociais relacionados ao lugar.
A pesquisa histórica contemporânea permite ampliar a interpretação do monumento, deixando de enxergá-lo exclusivamente como uma construção militar e compreendendo-o como um espaço social, urbano, político e simbólico.
Essa perspectiva é especialmente importante para o turismo cultural: o visitante não deve conhecer somente uma fortaleza de pedra, mas compreender as histórias humanas que transformaram aquele espaço em patrimônio.
🌎 A Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção no turismo cultural
Para o turismo, a fortaleza representa uma oportunidade de conectar história, patrimônio, arquitetura, memória, educação e identidade local.
Sua localização no centro de Fortaleza permite integrá-la a roteiros culturais que contemplem outros espaços históricos da capital cearense.
Mais do que um ponto para fotografia, o monumento pode ser apresentado como uma porta de entrada para compreender a formação histórica do Ceará e de Fortaleza.
O turismo cultural responsável deve estimular o conhecimento e a valorização do patrimônio, evitando transformar a história em simples produto turístico descontextualizado.
🔎 Curiosidades históricas
📍 Localização: a fortaleza está situada na área central de Fortaleza, junto ao riacho Pajeú.
🏰 Antecedente holandês: em 1649, Matias Beck construiu o Fort Schoonenborch no local.
🇵🇹 Retomada portuguesa: em 1654, a fortificação passou novamente para o domínio português e recebeu a denominação de Forte de Nossa Senhora da Assunção.
🏗️ Estrutura atual: a construção da atual fortaleza teve início em 1812 e foi concluída em 1817.
👷 Projeto: o projeto da atual fortificação foi elaborado pelo engenheiro Antônio José da Silva Paulet.
👩🦱 Bárbara de Alencar: uma das personagens da Revolução Pernambucana de 1817 esteve presa em uma das celas da fortificação.
🪖 Uso militar: o complexo mantém relação com o Exército Brasileiro e abriga a sede da 10ª Região Militar.
🏛️ Patrimônio: em 2008, foi reconhecida pelo IPHAN como Monumento Nacional.
📖 Referências bibliográficas e fontes
MAPA CULTURAL DO CEARÁ. Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Disponível em: Mapa Cultural do Ceará – Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Acesso em: 5 ago. 2026.
JESUS, Marcos André Nascimento de. Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção: símbolo de modernidade e poder. Anais da Universidade Estadual do Ceará – ANPUH-CE. Disponível em: Trabalho completo – UECE. Acesso em: 5 ago. 2026.
MUSEU EXEA. Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Museu Marítimo EXEA. Disponível em: Museu EXEA – Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Acesso em: 5 ago. 2026.
INSTITUTO DO CEARÁ. Bicentenário da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Revista do Instituto do Ceará, 2012. Disponível em: Instituto do Ceará – Bicentenário da Fortaleza. Acesso em: 5 ago. 2026.
WIKIPÉDIA. Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Disponível em: Wikipédia – Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Acesso em: 5 ago. 2026.
BARRETO, Aníbal. Fortificações no Brasil: resumo histórico. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958.
GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
TEIXEIRA, Paulo Roberto Rodrigues. “Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção”. Revista DaCultura, ano IV, n. 7, dez. 2004, p. 53-64. Referência bibliográfica indicada na documentação consultada.


