Em meio às grandes transformações urbanas que marcaram Santos nas primeiras décadas do século XX, o Hotel Deodoro ocupou posição de destaque na paisagem do Gonzaga, especialmente no entorno da atual Praça da Independência. Sua história está relacionada à modernização da cidade, à expansão do turismo balneário, à prosperidade proporcionada pelo café e à atuação da Companhia Construtora de Santos, empresa que participou de importantes transformações arquitetônicas e urbanas do período.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.

Hotel Deodoro, em Santos SP. Foto Brasil Ilustrado, 1920. Apud BARBOSA, Gino Caldatto.
🏙️ Santos entre o café, o porto e a modernização urbana
Para compreender a importância do Hotel Deodoro, é necessário voltar às primeiras décadas do século XX, quando Santos atravessava um intenso processo de transformação.
O desenvolvimento da cidade estava diretamente relacionado à expansão das atividades portuárias e às exportações de café produzido no interior paulista. O porto de Santos tornou-se um dos principais pontos de circulação dessa riqueza, atraindo comerciantes, empresários, trabalhadores, investidores e visitantes.
A prosperidade econômica também transformou a paisagem urbana. Santos recebeu obras de saneamento, abertura e pavimentação de vias, novos equipamentos urbanos e melhorias que contribuíram para a expansão da cidade em direção às praias.
Nesse período, surgiram casarões, palacetes, hotéis e edifícios com características ecléticas e referências art nouveau, refletindo os gostos e valores de uma sociedade que buscava associar a cidade à ideia de progresso e modernidade.
O Gonzaga ganhou importância nesse processo. Próximo à praia e conectado às principais vias, o bairro passou a concentrar hotéis, restaurantes, estabelecimentos de lazer e espaços de convivência, tornando-se um dos principais núcleos da vida turística santista.
Santos começava, assim, a consolidar uma nova identidade: além de importante cidade portuária, tornava-se também um destino de lazer e turismo balneário.
🏗️ A Companhia Construtora de Santos
Nesse cenário de crescimento surgiu uma empresa que se tornaria fundamental para compreender a história da construção civil brasileira: a Companhia Construtora de Santos.
Fundada em 1912, em Santos, pelo engenheiro civil Roberto Cochrane Simonsen e outros empresários, a companhia surgiu em um momento de forte expansão econômica e de grandes necessidades de urbanização e infraestrutura.
A empresa introduziu métodos mais racionalizados de organização da construção. Em vez de depender exclusivamente do modelo tradicional de pequenos empreiteiros, passou a trabalhar com engenheiros, arquitetos, planejamento, padronização, divisão de tarefas e controle de custos e produção.
Essa organização estava relacionada às ideias do chamado scientific management, ou administração científica, que ganhava espaço no mundo industrial.
A atuação da companhia foi bastante diversificada, incluindo residências, vilas operárias, palacetes, edifícios, hotéis e obras de infraestrutura.
A pesquisa acadêmica de Gino Caldatto Barbosa, desenvolvida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, destaca a importância da Companhia Construtora de Santos para a história da arquitetura, da engenharia e da organização empresarial no Brasil.
⚙️ Roberto Simonsen e uma nova forma de construir
A importância da Companhia Construtora de Santos não estava apenas nos edifícios que produziu.
A empresa também representou uma mudança na própria maneira de organizar o trabalho da construção civil.
Roberto Simonsen procurou estruturar uma empresa capaz de planejar e coordenar diferentes etapas de uma obra, contando com profissionais especializados e adotando métodos de racionalização.
Essa estratégia permitiu que a companhia participasse de projetos cada vez maiores e mais complexos.
Entre 1921 e 1924, por exemplo, a Companhia Construtora de Santos firmou contrato com o Ministério da Guerra para a construção simultânea de dezenas de quartéis em diferentes estados brasileiros.
A companhia permaneceu atuante na construção civil até 1929, quando suas operações nesse segmento foram redirecionadas para a Sociedade Construtora Brasileira.
Dessa maneira, a história de um edifício relacionado à Companhia Construtora de Santos também pode ser compreendida como parte da história da modernização da engenharia e da construção civil brasileira.
🏨 O Hotel Deodoro no Gonzaga
É nesse cenário de crescimento urbano e turístico que aparece o Hotel Deodoro, localizado no entorno da Praça da Independência, no bairro do Gonzaga.

📍 Monumento dos Andradas, no centro da Praça da Independência. ⬅️ Antigo Parque Balneário Hotel / Kursaal, identificado pela inscrição “KURSAAL”.
➡️ Hotel Deodoro, à direita, na primeira edificação. Ao fundo, observa-se o Hotel Atlântico.
Cartão-postal histórico, provavelmente produzido para circulação turística e documental. A inscrição “TP 309” parece ser uma identificação editorial/número de série do cartão, mas não encontrei uma fonte online confiável que permita atribuir com segurança esse código a uma editora específica. A imagem, porém, pode ser relacionada ao conjunto de fotografias históricas da Praça da Independência reproduzido pelo site Novo Milênio.
O edifício fazia parte de uma paisagem muito diferente daquela encontrada atualmente.
Em seu entorno estavam importantes equipamentos de hospedagem e lazer, formando um conjunto que ajudou a consolidar aquela região como uma das áreas mais valorizadas da Santos balneária.
O material histórico utilizado neste levantamento atribui ao Hotel Deodoro uma construção por volta de 1918, relacionando sua execução à Companhia Construtora de Santos.
Também há referência de que o estabelecimento teria funcionado como uma filial do tradicional Hotel Paulista, que operava na capital paulista.
Anúncios da década de 1920 apresentavam o estabelecimento como um hotel de padrão elevado, associado a conforto, modernidade, vista para o mar, mobiliário de qualidade e serviços considerados sofisticados para a época.
Entre os recursos anunciados estavam instalações destinadas aos banhos quentes, uma comodidade que representava modernidade para os padrões daquele período.
🏛️ A arquitetura do Hotel Deodoro
O Hotel Deodoro é descrito nas referências utilizadas no levantamento como uma construção de forte inspiração neorrenascentista belga.
Entre suas características estavam os telhados acentuadamente inclinados, elementos ornamentais e uma volumetria marcante.
A arquitetura dialogava com o gosto de uma época em que referências europeias eram utilizadas para transmitir ideias de sofisticação, progresso e modernidade.

Fotografia histórica reproduzida do acervo do professor e pesquisador Francisco Carballa apud, BUSTO, Cláudia de Assis.
Imagem, possivelmente feita durante uma solenidade em 1922/1925, observa-se à esquerda o hotel Deodoro, por trás do monumento o Hotel Atlântico.
O edifício fazia parte de uma paisagem arquitetônica na qual conviviam diferentes referências estilísticas, principalmente o ecletismo e elementos art nouveau.
Esse cenário refletia a própria transformação econômica de Santos.
A riqueza ligada ao café, ao comércio e às atividades portuárias possibilitou investimentos em novos edifícios e equipamentos urbanos, enquanto a expansão do turismo estimulava a construção de hotéis e espaços de lazer.
🌊 Hotelaria, turismo e lazer em Santos
A história do Hotel Deodoro também está diretamente relacionada ao desenvolvimento do turismo balneário em Santos.
Durante as primeiras décadas do século XX, a praia passou gradualmente a ocupar uma posição importante na vida social da cidade.
O litoral deixou de ser percebido apenas como espaço associado às atividades portuárias e passou também a representar lazer, descanso, sociabilidade e turismo.
A presença de hotéis como o Deodoro, o Atlântico e o Parque Balneário contribuiu para consolidar o Gonzaga como uma das áreas mais importantes da vida turística santista.
O visitante encontrava uma cidade que reunia praias, hotéis, restaurantes, cafés, teatros, cassinos, comércio e espaços de convivência.
Essa combinação ajudou a criar uma nova imagem de Santos perante visitantes de outras regiões do estado e do país.
🇧🇷 O Monumento aos Andradas e a Praça da Independência
A história do Hotel Deodoro está profundamente relacionada à Praça da Independência.
O Monumento aos Andradas foi inaugurado em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência do Brasil.
O monumento homenageia os irmãos José Bonifácio de Andrada e Silva, Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e Silva.
A presença do monumento transformou a praça em importante espaço cívico de Santos.
O local passou a receber solenidades, comemorações, cerimônias e manifestações públicas, estabelecendo uma relação entre memória nacional e identidade santista. E o Hotel Deodoro estava inserido justamente nesse cenário.
📸 O Hotel Deodoro em uma fotografia de 1939
Uma das imagens mais importantes para compreender a presença do Hotel Deodoro na paisagem santista é o registro realizado pela fotógrafa Sophia Pretzel Waldheim, em 1939.

Segundo a Fundação Arquivo e Memória de Santos (FAMS), a fotografia mostra o Monumento aos três Andradas, comemorativo do primeiro centenário da Independência. À direita aparece o Hotel Deodoro e, ao fundo, o Hotel e Cassino Atlântico.
A imagem pertence ao Acervo Iconográfico da FAMS e possui grande importância documental. Ela permite observar, em uma única fotografia, três elementos fundamentais da história urbana santista: o monumento cívico, a hotelaria e a paisagem turística do Gonzaga.
A fotografia funciona, portanto, como uma verdadeira janela para a Santos de 1939.
🏙️ Da paisagem dos casarões à verticalização
A paisagem que abrigava o Hotel Deodoro não permaneceu intacta.
A partir principalmente da década de 1950, o entorno da Praça da Independência passou por profundas transformações.
Antigos casarões, palacetes e edifícios foram gradualmente substituídos por edificações multifamiliares, comerciais e construções de arquitetura moderna.
Esse processo acompanhou a intensa verticalização de Santos, especialmente nas áreas próximas à orla.
A transformação também esteve relacionada às mudanças no turismo.
Em 1946, o Governo Federal proibiu os jogos de azar no Brasil, provocando o fechamento dos cassinos e alterando significativamente o perfil turístico de Santos.
A cidade ingressava em uma nova fase, marcada por outras formas de turismo, lazer e ocupação urbana.
🧱 Quando a modernização transforma a paisagem
A história do Hotel Deodoro revela um fenômeno recorrente nas cidades que passam por intensos processos de crescimento: a modernização pode produzir desenvolvimento, mas também pode eliminar referências materiais do passado.
A transformação da Praça da Independência modificou profundamente a paisagem que existia nas primeiras décadas do século XX.
Muitos edifícios desapareceram, mas suas histórias permaneceram registradas em fotografias, jornais, documentos, cartões-postais, objetos e pesquisas históricas.
É nesse ponto que o patrimônio documental e o colecionismo histórico assumem uma importância especial.
✏️ O achado de Renato Marchesini: Um lápis lembrança do Hotel Deodoro
Entre os objetos que ajudam a recuperar essa memória está um curioso item de colecionismo identificado por Renato Marchesini: um antigo lápis lembrança do Hotel Deodoro.

Foto de Renato Marchesini
Pode parecer um objeto simples, mas esse pequeno artefato possui grande valor como documento da cultura material e da história do turismo.
Objetos promocionais de hotéis, restaurantes, empresas e estabelecimentos turísticos eram utilizados como lembranças e também como instrumentos de divulgação.
Um lápis com a identificação do Hotel Deodoro pode ser interpretado como uma pequena peça de publicidade, lembrança turística e memória.
Esse objeto conecta o presente a um estabelecimento que já desapareceu fisicamente da paisagem urbana.
🔎 Colecionismo como preservação da memória
O colecionismo histórico não deve ser compreendido apenas como o ato de reunir objetos antigos.
Quando esses objetos são identificados, preservados, contextualizados e documentados, eles podem transformar-se em importantes fontes para a pesquisa histórica.
Um simples lápis pode revelar:
- o nome de um estabelecimento;
- uma marca utilizada comercialmente;
- uma estratégia de divulgação;
- hábitos de consumo;
- relações entre hotelaria e turismo;
- aspectos da cultura material de determinada época;
- a existência de um empreendimento que desapareceu fisicamente.
No caso do Hotel Deodoro, o lápis ganha ainda mais significado porque o edifício já não integra a paisagem urbana contemporânea.
Assim, esse pequeno objeto passa a funcionar como um fragmento material da memória do hotel.
📸 Fotografia e objeto: Duas formas de preservar a história
O achado de Renato Marchesini ganha ainda mais importância quando colocado em diálogo com as fotografias históricas.
De um lado, temos a fotografia, que registra o edifício inserido na paisagem urbana.
De outro, temos o objeto de colecionismo, que preserva a identidade do estabelecimento em uma escala individual.
Juntos, fotografia e lápis ajudam a reconstruir a história do Hotel Deodoro.
Essa relação demonstra que a preservação da memória não depende exclusivamente da conservação de grandes monumentos.
Pequenos objetos também podem carregar grandes histórias.
🕰️ Uma janela para uma Santos que desapareceu
Ao observar a fotografia de Sophia Pretzel Waldheim, realizada em 1939, o Hotel Deodoro não deve ser visto apenas como um prédio antigo.
Ele aparece como parte de uma paisagem urbana viva, na qual monumento, hotel, turismo, lazer e sociabilidade estavam profundamente interligados.
A fotografia permite reconstruir mentalmente uma Santos que já não existe fisicamente.
Da mesma maneira, a fotografia atribuída ao período de 1922 a 1925, pertencente ao acervo de Francisco Carballa, permite visualizar o Hotel Deodoro próximo ao Monumento aos Andradas e ao Hotel Atlântico.
Esses registros são verdadeiros documentos da memória urbana santista.
🏛️ Patrimônio que permanece mesmo depois da demolição
A ausência física do Hotel Deodoro não significa ausência histórica.
Pelo contrário: quando uma construção desaparece, tornam-se ainda mais importantes os registros que permaneceram.
O patrimônio histórico não é constituído apenas por aquilo que ainda está de pé.
Ele também pode estar presente em documentos, fotografias, mapas, objetos, relatos orais, jornais, cartões-postais e coleções particulares.
Nesse sentido, o antigo Hotel Deodoro permanece presente na história de Santos por meio de diferentes vestígios.
Entre eles está o lápis lembrança identificado por Renato Marchesini, uma pequena peça que ajuda a devolver visibilidade a um importante capítulo da história da hotelaria santista.
📚 Hotel Deodoro: Arquitetura, turismo e memória
A história do Hotel Deodoro permite observar diferentes dimensões da história de Santos ao mesmo tempo.
O edifício está relacionado à modernização urbana, à expansão da hotelaria, ao turismo balneário, à cultura ligada ao ciclo do café, à arquitetura eclética, à atuação da Companhia Construtora de Santos e à transformação do Gonzaga.
Sua proximidade com o Monumento aos Andradas e com o Hotel e Cassino Atlântico o colocou em uma das paisagens mais simbólicas da Santos das primeiras décadas do século XX.
As fotografias de Sophia Pretzel Waldheim e do acervo de Francisco Carballa ajudam a visualizar sua presença na Praça da Independência.
E o lápis lembrança do Hotel Deodoro, identificado no âmbito do colecionismo histórico por Renato Marchesini, acrescenta uma nova dimensão à pesquisa: a preservação da memória por meio de um objeto cotidiano.
O Hotel Deodoro desapareceu da paisagem, mas não desapareceu da história.
📖 Referências bibliográficas e fontes
- BARBOSA, Gino Caldatto. Trabalho moderno: a construtora de Roberto Simonsen. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo – USP.
- BUSTO, Cláudia de Assis. Arquitetura Moderna da Praça da Independência de Santos como representação da memória e do patrimônio local. Revista Ceciliana, Universidade Santa Cecília, edição especial – Patrimônio Cultural: Memória e Preservação.
- FUNDAÇÃO ARQUIVO E MEMÓRIA DE SANTOS – FAMS. Registro fotográfico de Sophia Pretzel Waldheim, de 1939, com o Monumento aos três Andradas, o Hotel Deodoro e o Hotel e Cassino Atlântico. Acervo Iconográfico.
- NOVO MILÊNIO. Registros históricos da Praça da Independência e fotografias antigas de Santos.
- INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SANTOS – IHGS. Informações históricas sobre Roberto Simonsen e sua atuação em Santos.
🔗 Fontes para consulta
- Fundação Arquivo e Memória de Santos – FAMS: https://www.fundasantos.org.br/news.php?extend.1330.19
- Revista Ceciliana – Universidade Santa Cecília: https://sites.unisanta.br/revistaceciliana/edicao_especial_museus/TEXTO3.pdf
- Tese “Trabalho moderno: a construtora de Roberto Simonsen” – USP: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16133/tde-30032021-173326/pt-br.html
- Instituto Histórico e Geográfico de Santos – IHGS: https://www.ihgs.com.br/cadeiras/patronos/robertosimonsen.html
⚠️ Nota sobre a pesquisa histórica
A referência à construção do Hotel Deodoro por volta de 1918 e sua associação à Companhia Construtora de Santos foram mantidas a partir do material histórico utilizado neste levantamento.
As fontes acadêmicas consultadas confirmam a forte atuação da Companhia Construtora de Santos em Santos nas primeiras décadas do século XX e sua importância para a modernização da construção civil brasileira. Entretanto, a data exata de conclusão do Hotel Deodoro deve ser tratada com cautela até que seja localizada documentação primária específica que permita confirmar definitivamente essa informação.
Essa distinção é importante para preservar o rigor da pesquisa histórica e patrimonial.
💬 Espaço do Leitor: 🔰 Você já conhecia a história do antigo Hotel Deodoro e sabia que um simples objeto de colecionismo, como um lápis lembrança, também pode ajudar a preservar a memória de um hotel e de uma cidade? 🔰
Para Roteiros de Turismo na Baixada Santista / WWW.R9TURISMO.COM


