Papo de Biologia: CORUJA-BURAQUEIRA (Athene cunicularia)

Diferente da maioria de suas parentes, a Coruja-buraqueira (Athene cunicularia) desafia o estereótipo de que corujas só aparecem à noite. Com seus grandes olhos amarelos e um olhar penetrante, ela é uma das aves mais queridas e observadas do Brasil. Seja em campos abertos, restingas ou até em jardins urbanos, essa pequena ave de rapina é uma mestre da engenharia subterrânea e uma peça fundamental no controle biológico de insetos e pequenos roedores.

Por ..:: Renato Marchesini / Biólogo e Mestre em Ciências.

🦉 Classificação e Características Físicas

Esta pequena notável possui adaptações biológicas impressionantes que a tornam uma caçadora eficiente, tanto sob o sol quanto no crepúsculo.

  • Nome Científico: Athene cunicularia (do grego Athene, deusa da sabedoria, e do latim cunicularius, mineiro/caçador de coelhos).
  • Porte: Mede cerca de 25 cm de altura e pesa aproximadamente 150 g.
  • Visão e Audição: Possui uma visão 100 vezes mais potente que a humana e uma audição aguçadíssima. Como seus olhos são fixos, ela precisa girar a cabeça em até 270° para observar o que acontece ao seu redor.
  • Dimorfismo Sexual: Ao contrário da maioria das aves de rapina, o macho é ligeiramente maior que a fêmea, e as fêmeas costumam ter uma plumagem mais escura.

🏜️ O Habitat e a Engenharia Subterrânea

A coruja-buraqueira é típica de áreas abertas, como restingas, cerrados e pastagens. O que a torna única é o local de seu ninho: ela vive em buracos no solo, que podem chegar a 1,5 metro de profundidade.

Nas praias e restingas, a estabilidade desses túneis é garantida por uma curiosa “argamassa” natural. Antigos depósitos de substâncias glutinosas e óleos resultantes da decomposição de restos marinhos ajudam a dar liga à areia, impedindo que o túnel desmorone sobre os filhotes. É a união perfeita entre a geologia e a biologia para garantir a sobrevivência da espécie.

🦎 Hábitos Alimentares e Comportamento

A buraqueira é uma ave de hábitos principalmente diurnos e crepusculares. Sua dieta é variada e ajuda a equilibrar o ecossistema local:

  • Na praia: Alimenta-se de crustáceos como o sernambi e a maria-farinha.
  • No campo: Caça insetos (gafanhotos e besouros), pequenos répteis e roedores.
  • Estratégia curiosa: Elas costumam acumular estrume ao redor da entrada do ninho. O odor atrai insetos, facilitando a caça para os filhotes que estão aprendendo a sobreviver.

🐣 Ciclo Reprodutivo: Trabalho em Equipe

A reprodução geralmente se inicia entre março e abril. O casal trabalha unido: ambos cavam o buraco usando bico e pés, forrando o interior com capim seco.

  • Postura: De 7 a 9 ovos.
  • Incubação: Dura entre 28 e 30 dias. Enquanto a fêmea choca, o macho atua como o provedor de comida e segurança.
  • Crescimento: Com 14 dias, os filhotes já espreitam na entrada do buraco esperando alimento. Aos 45 dias, já estão prontos para deixar o ninho e começar suas próprias caçadas.

⚠️ Ameaças e Conservação

Por ser uma ave de rapina, a coruja-buraqueira quase não possui predadores naturais. Infelizmente, seu maior inimigo é a ação humana. O avanço imobiliário desordenado sobre as restingas, o tráfego de veículos em praias e o vandalismo contra os ninhos são as principais ameaças. Por serem aves tímidas, elas precisam de locais sossegados para que o túnel do ninho não sofra vibrações que causem soterramentos.


Você sabia que a coruja-buraqueira utiliza o próprio estrume como “isca” para atrair comida para seus filhotes? Já teve o privilégio de observar uma dessas sentinelas vigiando o ninho na beira da praia ou em algum campo? Conte sua experiência para nós nos comentários! 🔰

3 comentários em “Papo de Biologia: CORUJA-BURAQUEIRA (Athene cunicularia)

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