As Ruínas de Abarebebê, também conhecidas como Convento Velho, constituem um dos mais importantes sítios arqueológicos e históricos de Peruíbe, no litoral sul de São Paulo. O local preserva vestígios de uma antiga igreja ligada à Aldeia de São João Batista e à atuação dos jesuítas no século XVI, em uma história profundamente relacionada à formação histórica de Itanhaém e Peruíbe.
Por ..:: Renato Marchesini: Bacharel em Turismo, Guia de Turismo, Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.

⛪ Abarebebê: uma história entre Peruíbe e Itanhaém
Um dos pontos que mais gera dúvidas quando se estuda a história de Abarebebê é sua relação com Nossa Senhora da Conceição e Itanhaém.
É importante fazer uma distinção: as atuais Ruínas de Abarebebê estão localizadas em Peruíbe, enquanto a Capela e posteriormente o Convento de Nossa Senhora da Conceição, no centro histórico de Itanhaém, correspondem a outro espaço histórico.
Ao mesmo tempo, os dois lugares estão profundamente conectados pela história regional.
Segundo a Prefeitura de Itanhaém, a devoção a Nossa Senhora da Conceição está presente desde os primeiros tempos da povoação e existem tradições segundo as quais uma imagem da santa teria sido levada para a ermida do Abarebebê, em Peruíbe, sendo posteriormente transferida, em 1671, para o Convento Nossa Senhora da Conceição, em Itanhaém.
Portanto, não devemos confundir as ruínas de Peruíbe com o convento existente atualmente em Itanhaém. São lugares distintos, mas fazem parte de uma mesma rede histórica de ocupação, religiosidade, catequese e formação territorial.
🏺 A antiga ermida e as primeiras construções religiosas
A história das primeiras construções religiosas da região é complexa e envolve diferentes tradições historiográficas.
A Prefeitura de Itanhaém registra, em sua cronologia histórica, que uma ermida de barro dedicada a Nossa Senhora da Conceição teria sido edificada no morro de Itaguaçu, onde atualmente se encontra o Convento Nossa Senhora da Conceição, em Itanhaém. A mesma cronologia relaciona o início da construção do Colégio São João Batista ao local onde atualmente está Peruíbe.
Por outro lado, a Prefeitura de Peruíbe identifica a Igreja do Abarebebê como uma das primeiras construídas no Brasil e informa que sua construção ocorreu na segunda metade do século XVI, relacionada à catequese dos indígenas que habitavam a região.
Por isso, é mais adequado falar em um conjunto de construções, aldeamentos e espaços religiosos vinculados ao processo histórico regional, em vez de afirmar que uma única edificação corresponde à “primeira igreja construída no Brasil”.
🌬️ Quem foi o padre Leonardo Nunes?
Entre os personagens mais importantes dessa história está o padre Leonardo Nunes, jesuíta que atuou na região durante os primeiros anos da presença da Companhia de Jesus no litoral paulista.
Leonardo Nunes ficou conhecido entre os indígenas pelo nome Abarebebê, geralmente associado à ideia de “padre que voa” ou “padre voador”, uma referência à rapidez com que percorria grandes distâncias para atender diferentes aldeamentos e comunidades.
Fontes históricas de Itanhaém relacionam Leonardo Nunes à construção da igreja e do colégio na Aldeia de São João Batista, enquanto outras fontes municipais relacionam sua atuação diretamente ao antigo núcleo que hoje corresponde às Ruínas de Abarebebê, em Peruíbe.
Seu apelido acabou se transformando no próprio nome pelo qual o sítio arqueológico passou a ser conhecido.
🌿 Catequese, aldeamento e presença indígena
O Abarebebê está diretamente relacionado ao processo de catequese indígena realizado pelos jesuítas.
A antiga Aldeia de São João Batista foi um importante núcleo de atuação missionária no litoral paulista. Segundo a Prefeitura de Peruíbe, no entorno da igreja também se desenvolveu um aldeamento e foi estabelecido um colégio destinado à educação de meninos.
Entretanto, compreender esse período exige olhar também para a história dos povos indígenas que já habitavam a região muito antes da chegada dos portugueses.
A catequese não foi um processo neutro: esteve relacionada à transformação de práticas culturais, formas de organização social, territórios e modos de vida indígenas.
Assim, as Ruínas de Abarebebê não devem ser interpretadas apenas como testemunho da presença jesuítica. Elas também representam um importante espaço para estudar as populações indígenas, seus territórios e as profundas mudanças provocadas pela colonização.
🗺️ A antiga relação territorial entre Itanhaém e Peruíbe
Para compreender essa história, também é necessário abandonar as fronteiras municipais atuais e imaginar o litoral paulista durante o século XVI.
Peruíbe e Itanhaém possuem uma história territorial profundamente conectada.
A documentação histórica da Prefeitura de Itanhaém registra que a antiga Aldeia de São João Batista, localizada na região correspondente à atual Peruíbe, fazia parte do contexto histórico da formação da Vila de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém.
Isso ajuda a explicar por que diferentes fontes históricas associam Abarebebê, Itanhaém, Nossa Senhora da Conceição, São João Batista, os jesuítas e a formação da região.
As atuais divisões municipais são posteriores e não devem ser utilizadas de maneira simplista para interpretar uma realidade territorial do século XVI.
🏘️ São João da Aldeia e a formação de Peruíbe
O antigo núcleo de São João Batista, associado às missões jesuíticas, faz parte da história de formação de Peruíbe.
A documentação municipal de Peruíbe registra que a área já era ocupada por indígenas antes da chegada dos portugueses e que, posteriormente, recebeu a atuação dos jesuítas e passou a ser conhecida como Aldeia de São João Batista.
A história desse núcleo ajuda a compreender como uma antiga aldeia indígena foi sendo transformada pela colonização, pela presença missionária e pelas mudanças econômicas e territoriais ocorridas ao longo dos séculos.
As ruínas que permanecem hoje são, portanto, fragmentos materiais de uma história muito mais ampla.
🪨 A localização e a paisagem histórica
As ruínas estão inseridas em uma paisagem que permite compreender a relação entre território, ocupação humana e litoral.
A localização elevada do antigo núcleo contribuía para a visualização da área circundante e permite, ainda hoje, refletir sobre as escolhas territoriais realizadas durante o período colonial.
A paisagem de Abarebebê deve ser entendida como parte do patrimônio histórico e cultural. Não são apenas as paredes remanescentes que possuem valor: o entorno também ajuda a contar a história do lugar.
🏺 A arqueologia das Ruínas de Abarebebê
As Ruínas de Abarebebê apresentam grande importância para a arqueologia histórica brasileira.
O sítio foi pesquisado por equipes ligadas ao Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), com investigações arqueológicas realizadas especialmente entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990.
As pesquisas identificaram vestígios materiais relacionados à ocupação do local, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a vida cotidiana e as transformações ocorridas naquele espaço.
A arqueologia é fundamental porque permite confrontar tradições, documentos escritos e vestígios materiais, construindo uma compreensão mais crítica da história.
🏺 A pia batismal e a memória material
Outro elemento importante associado à história do sítio é a pia batismal de Peruíbe, objeto que ganhou destaque na trajetória de preservação e musealização da memória de Abarebebê.
Estudos sobre a cultura material e a memória histórica do local mostram como objetos associados ao antigo aldeamento passaram a integrar coleções museológicas e pesquisas acadêmicas.
Esses objetos possuem enorme valor porque ajudam a conectar a história documental ao patrimônio material, permitindo que pesquisadores e visitantes tenham contato com vestígios concretos de um passado distante.
🏛️ Patrimônio histórico e arqueológico protegido
A importância das Ruínas de Abarebebê ultrapassa os limites de Peruíbe.
O sítio é reconhecido como patrimônio histórico e arqueológico de importância nacional e paulista e possui proteção patrimonial relacionada ao IPHAN e ao CONDEPHAAT. A Prefeitura de Peruíbe informa o tombamento pelo IPHAN e pelo CONDEPHAAT, enquanto fontes acadêmicas registram proteção estadual desde 1979.
Essa proteção é fundamental para evitar a destruição ou descaracterização dos vestígios arqueológicos.
Preservar Abarebebê significa preservar uma fonte insubstituível para o estudo da história de Peruíbe, Itanhaém, do litoral paulista e do próprio processo de formação do Brasil colonial.
🧭 Abarebebê e a história de Itanhaém
A conexão entre os dois municípios merece atenção especial.
Itanhaém conserva o Convento Nossa Senhora da Conceição e importantes referências da antiga Vila de Conceição de Itanhaém. Peruíbe, por sua vez, conserva as Ruínas de Abarebebê e a memória da antiga Aldeia de São João Batista.
Esses espaços não são a mesma construção, mas fazem parte de uma mesma história regional, marcada pela presença indígena, pela colonização portuguesa, pela atuação dos jesuítas e pela formação dos primeiros núcleos de ocupação do litoral paulista.
Essa conexão é tão importante que atualmente existem propostas e roteiros turísticos que integram os patrimônios históricos de Itanhaém e Peruíbe, incluindo as Ruínas de Abarebebê.
🌎 Turismo cultural e educação patrimonial
As Ruínas de Abarebebê possuem grande potencial para o turismo histórico-cultural, arqueológico e pedagógico.
Uma visita ao sítio pode ajudar estudantes e visitantes a compreender temas como:
- história indígena e história colonial;
- presença e atuação dos jesuítas;
- padre Leonardo Nunes e o nome Abarebebê;
- formação da Aldeia de São João Batista;
- história de Peruíbe e Itanhaém;
- arqueologia histórica;
- patrimônio cultural;
- processos de ocupação territorial;
- preservação da memória;
- educação patrimonial.
Nesse contexto, o turismo pode funcionar como uma ferramenta de educação, valorização da identidade local e preservação do patrimônio.
🔎 Por que preservar Abarebebê?
Preservar as Ruínas de Abarebebê é preservar uma parte fundamental da história do litoral paulista.
O sítio possibilita compreender diferentes dimensões da formação regional: os povos indígenas que ocupavam o território, a chegada dos portugueses, a atuação dos jesuítas, a catequese, a formação dos aldeamentos e as transformações territoriais que deram origem aos municípios atuais.
Também é necessário reconhecer que a história não deve ser contada apenas pela perspectiva dos colonizadores ou dos religiosos.
A valorização da memória indígena é indispensável para construir uma interpretação mais completa, crítica e responsável desse patrimônio.
📚 Um patrimônio que une passado e presente
As Ruínas de Abarebebê ou Convento Velho, em Peruíbe, são muito mais do que restos de uma antiga construção.
Elas representam um patrimônio arqueológico que conecta Peruíbe e Itanhaém, relacionando a antiga Aldeia de São João Batista, a atuação dos jesuítas, a trajetória do padre Leonardo Nunes, a devoção a Nossa Senhora da Conceição e a formação histórica do litoral paulista.
Ao mesmo tempo, é preciso compreender que as ruínas de Peruíbe e o Convento Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém são lugares distintos, embora estejam ligados por uma história regional comum.
Essa distinção é essencial para evitar confusões e, ao mesmo tempo, valorizar a riqueza histórica dos dois municípios.
Conhecer Abarebebê é conhecer uma parte da história de Peruíbe, de Itanhaém e do Brasil. Preservá-lo é garantir que as futuras gerações também possam estudar, questionar e compreender esse passado.
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Você já conhecia a ligação histórica entre as Ruínas de Abarebebê, em Peruíbe, e o Convento Nossa Senhora da Conceição, em Itanhaém? O que você pensa sobre a importância de preservar e divulgar esse patrimônio histórico e arqueológico? 🔰
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