A erva-baleeira (Cordia verbenacea) é uma das mais importantes plantas medicinais nativas da Mata Atlântica. Reconhecida há séculos pelos povos indígenas e pelas comunidades tradicionais do litoral brasileiro, ela ganhou destaque na medicina moderna ao dar origem ao primeiro anti-inflamatório tópico brasileiro desenvolvido a partir do extrato de uma planta nativa, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Sua história demonstra como os conhecimentos tradicionais podem contribuir para importantes avanços científicos, valorizando a biodiversidade brasileira e o patrimônio etnobotânico do país.
Por ..:: Renato Marchesini: Biólogo e Mestre em Ciências.

🌿 Uma Planta Medicinal Conhecida Muito Antes da Ciência Moderna
Muito antes da comprovação científica de suas propriedades, a erva-baleeira já era utilizada pelos povos indígenas brasileiros como um eficiente anti-inflamatório natural.
Registros históricos presentes na obra “De Medicina Brasiliensi”, escrita pelo médico holandês Gulielmus Piso no século XVII, descrevem o uso da planta pelos indígenas no tratamento de inflamações, dores e ferimentos.
Esse conhecimento tradicional foi transmitido ao longo de gerações e permanece vivo até hoje, principalmente entre comunidades caiçaras, pescadores artesanais e populações rurais.
🌊 A Relação da Erva-Baleeira com as Comunidades Litorâneas
Nas regiões costeiras do Brasil, especialmente ao longo da Mata Atlântica, a erva-baleeira sempre ocupou lugar de destaque na medicina popular.
Tradicionalmente, suas folhas eram utilizadas na forma de:
- Pomadas artesanais;
- Extratos naturais;
- Compressas com folhas maceradas;
- Infusões e preparações medicinais.
Essas aplicações eram empregadas principalmente para aliviar ferimentos provocados por espinhos de peixes, cortes, contusões e inflamações decorrentes das atividades pesqueiras.
Acredita-se que o nome “erva-baleeira” tenha surgido justamente pela forte associação da planta com os pescadores e sua abundância nas regiões litorâneas.
💚 Um Poderoso Anti-inflamatório Natural
Ao longo do tempo, a medicina popular passou a utilizar a erva-baleeira em diversas situações, entre elas:
- Artrite;
- Artrose;
- Reumatismo;
- Contusões musculares;
- Inflamações em geral;
- Ferimentos superficiais;
- Picadas de insetos;
- Inflamações bucais (por meio de bochechos);
- Dores de dente;
- Auxílio na cicatrização de feridas;
- Tratamento complementar de úlceras superficiais.
Sua fama está diretamente relacionada às suas propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes, reconhecidas tanto pela medicina tradicional quanto por estudos científicos.
Importante: embora possua propriedades medicinais comprovadas para determinadas indicações, o uso da erva-baleeira deve ser feito com orientação de profissionais de saúde. Plantas medicinais não substituem tratamentos médicos prescritos.
🔬 Da Sabedoria Popular ao Primeiro Fitomedicamento Brasileiro
O conhecimento tradicional despertou o interesse da comunidade científica e levou ao desenvolvimento de um medicamento fitoterápico inovador.
Após anos de pesquisa, foi lançado o Acheflan®, considerado o primeiro anti-inflamatório tópico brasileiro desenvolvido exclusivamente a partir do extrato de uma planta nativa da flora nacional.
O medicamento pertence à categoria dos fitoterápicos, produzidos apenas com substâncias ativas extraídas de plantas, sem a adição de princípios ativos sintéticos.
O desenvolvimento desse produto envolveu:
- Sete anos de pesquisas científicas;
- Investimentos superiores a R$ 15 milhões;
- Pesquisadores da Unicamp, Unifesp e PUC-Campinas;
- Rigorosos testes de eficácia e segurança exigidos pela Anvisa.
Esse marco representa um importante exemplo da integração entre o conhecimento tradicional e a pesquisa científica brasileira.
🧪 As Substâncias Responsáveis pelos Benefícios
Pesquisas conduzidas pelo farmacologista Jayme Sertié, da Universidade de São Paulo (USP), permitiram identificar compostos bioativos presentes nas folhas da erva-baleeira.
Entre eles destaca-se a Artemetina, um flavonoide associado à ação anti-inflamatória.
Além dela, a planta contém:
- Outros flavonoides;
- Triterpenos;
- Óleos essenciais;
- Alantoína;
- Açúcares naturais;
- Diversos compostos fenólicos.
Essas substâncias são responsáveis pelas propriedades farmacológicas investigadas em estudos científicos.
🌱 Conhecendo a Erva-Baleeira
A erva-baleeira (Cordia verbenacea) pertence à família Boraginaceae e ocorre naturalmente em praticamente todo o território brasileiro, principalmente nas áreas litorâneas da Mata Atlântica.
Recebe diversos nomes populares, entre eles:
- Maria-milagrosa;
- Maria-preta;
- Baleeira;
- Salicina;
- Pimenteira;
- Catinga-de-barão.
É importante destacar que, em algumas regiões, ela também é chamada de catinga-de-mulata, nome que pode causar confusão com outra espécie medicinal completamente diferente: o tanaceto (Tanacetum vulgare).
🌸 Características Botânicas
A erva-baleeira apresenta características bastante marcantes:
- Arbusto que pode atingir aproximadamente 2 metros de altura;
- Folhas alongadas, ásperas e aromáticas, podendo alcançar 12 centímetros;
- Flores pequenas e brancas reunidas em inflorescências curvas;
- Frutos pequenos de coloração vermelha quando maduros;
- Odor intenso e característico.
No passado, suas inflorescências também eram utilizadas para limpar fornos de barro antes do preparo de alimentos, tradição comum em diversas regiões do interior brasileiro.
🌾 Como a Planta se Reproduz
A propagação da erva-baleeira pode ocorrer por:
- Sementes;
- Miniestacas retiradas de plantas adultas com mais de três anos de idade.
O cultivo é relativamente simples, sendo recomendado um substrato composto por:
- 2 partes de areia;
- 1 parte de terra vegetal.
Por ser uma espécie nativa, seu cultivo também contribui para a conservação da flora brasileira e para projetos de recuperação ambiental.
🌎 Biodiversidade, Ciência e Conservação
A história da erva-baleeira demonstra que a biodiversidade brasileira representa um enorme patrimônio científico, cultural e econômico.
Muitas plantas utilizadas tradicionalmente pelas populações indígenas e comunidades tradicionais ainda possuem potencial para originar novos medicamentos, cosméticos e produtos biotecnológicos.
Valorizar esse conhecimento significa também incentivar:
- A conservação da Mata Atlântica;
- A proteção dos conhecimentos tradicionais;
- A pesquisa científica nacional;
- O uso sustentável da biodiversidade brasileira.
Preservar nossas florestas é preservar também um verdadeiro laboratório natural, capaz de oferecer soluções para a medicina, a ciência e a qualidade de vida das futuras gerações.
💬 Espaço do Leitor: 🔰 Você já conhecia a erva-baleeira ou alguma outra planta medicinal nativa da Mata Atlântica? Na sua opinião, como o conhecimento tradicional dos povos indígenas e das comunidades locais pode contribuir para novas descobertas científicas? Compartilhe sua opinião nos comentários! 🔰



Saudações amigo!
Você sabe se essa erva se encontra ali na região de Peruíbe?
Muito grato!
Oi Eduardo, sim é possível encontrar lá.