Praça dos Andradas em Santos SP: A Casa da Câmara e Cadeia e uma Fotografia de 1865

Uma das mais importantes imagens históricas de Santos (SP) registra, em 1865, uma paisagem ainda muito diferente daquela que conhecemos atualmente. O antigo Campo da Chácara, posteriormente denominado Largo da Cadeia Nova e, no final daquele mesmo ano, Praça dos Andradas, apresentava características que misturavam elementos urbanos e rurais. Ao centro da paisagem estava a nova Casa da Câmara e Cadeia, enquanto ao fundo apareciam a Igreja de São Francisco de Paula e outras construções que ajudam a reconstruir visualmente um importante período da história santista.

Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.

Foto: Casa de Câmara e Cadeia em 1865, em Santos SP. Fotografia de Militão Augusto de Azevedo,

A primeira imagem apresentada neste artigo foi realizada em 1865, ano particularmente importante para a história do edifício. Na fotografia, o espaço ainda apresenta características bastante abertas. Animais aparecem pastando no largo, enquanto algumas casas térreas acompanham as laterais do terreno.

Ao fundo, à esquerda, destaca-se a Igreja de São Francisco de Paula, reformada em 1835/1836. No centro da composição encontra-se a Casa da Câmara e Cadeia, então uma das construções mais importantes da cidade.

A fotografia pertence à Coleção Arnaldo Aguiar Barbosa e foi publicada pelo jornal Cidade de Santos em 16 de janeiro de 1983, em reprodução direta do copião fotográfico original do jornal.

Foto: “Largo da Cadeia Nova” – albúmen 11,4 x 16,9 cm – acervo do Instituto Moreira Salles. Publicada na Revista USP nº 41, de março/maio de 1999.


📜 Do Campo da Chácara ao Largo da Cadeia Nova

Antes de receber o nome de Praça dos Andradas, o espaço era conhecido como Campo da Chácara ou Campo de São Jerônimo.

A denominação São Jerônimo estava relacionada ao Ribeirão de São Jerônimo, curso d’água que atravessava as proximidades da área e contribuía para a existência de terrenos alagadiços.

Durante a primeira metade do século XIX, o local ainda apresentava uma ocupação relativamente esparsa. Casas térreas, terrenos úmidos e áreas abertas compunham uma paisagem que, vista atualmente, pode parecer surpreendentemente rural.

A construção da nova Casa da Câmara e Cadeia alteraria gradualmente a importância daquele espaço.


🏛️ A construção da nova Casa da Câmara e Cadeia

A antiga sede da Câmara e Cadeia de Santos ficava junto ao Convento do Carmo, em uma área mais antiga do núcleo urbano.

Com a necessidade de transferência das instalações, foi escolhido um terreno mais afastado do centro tradicional para a construção de um novo edifício.

As obras da nova Casa da Câmara e Cadeia começaram em 1839 e se prolongaram por décadas.

O longo período de construção revela as dificuldades enfrentadas para concluir uma edificação pública de grandes dimensões para a Santos daquele período.

Quando finalmente ficou próxima de sua conclusão, a construção já se destacava na paisagem urbana.


🏛️ A Casa da Câmara e Cadeia como símbolo da administração pública

A construção tinha uma função que ia muito além de sua presença arquitetônica.

A Câmara Municipal representava o poder político local, enquanto a cadeia cumpria a função de estabelecimento prisional.

Era comum, no período, que essas funções estivessem reunidas em um mesmo edifício.

A nova construção demonstrava também a importância crescente de Santos e a necessidade de criar espaços institucionais compatíveis com uma cidade que já desempenhava papel relevante nas atividades comerciais da região.


📷 Uma segunda versão da mesma fotografia

A imagem seguinte apresenta a mesma cena registrada por Militão Augusto de Azevedo, porém reproduzida com outro enquadramento e condições de iluminação diferentes.

A fotografia, intitulada “Largo da Cadeia Nova”, é uma impressão em papel albuminado, medindo 11,4 × 16,9 cm, pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles.

O registro foi publicado na Revista USP, nº 41, de março/maio de 1999, editada pela Coordenadoria de Comunicação Social da Universidade de São Paulo.

A existência de diferentes reproduções da imagem é especialmente interessante para a pesquisa histórica, pois permite observar como enquadramento, iluminação e cortes fotográficos podem modificar a percepção de uma mesma paisagem urbana.


📐 Militão Augusto de Azevedo e a fotografia de Santos

O autor da imagem, Militão Augusto de Azevedo, foi um dos mais importantes fotógrafos brasileiros do século XIX.

Seu trabalho possui enorme valor para a história urbana de Santos e de outras cidades brasileiras, pois seus registros documentaram ruas, edifícios, praças, igrejas, paisagens e transformações urbanas.

No caso de Santos, suas fotografias permitem conhecer uma cidade que ainda não havia passado pelas grandes transformações provocadas pelo crescimento do Porto de Santos, pela expansão ferroviária, pelo ciclo do café e pelas obras de saneamento que marcariam as décadas seguintes.

Por isso, uma fotografia como essa funciona como verdadeiro documento visual da cidade oitocentista.


🏗️ 1865: Finalmente, a inauguração

Segundo o estudo de Gino Caldatto Barbosa, publicado no livro Santos e seus Arrabaldes – Álbum de Militão Augusto de Azevedo, a Casa da Câmara foi inaugurada em agosto de 1865, aproximadamente vinte anos depois do início de sua construção.

Naquele momento, o edifício era considerado um dos maiores da cidade.

Em 7 de abril daquele ano, a Câmara Municipal publicou edital para a contratação de serviços destinados à conclusão das obras.

Entre os trabalhos previstos estavam cantarias, assoalhos, forros, portões e seis portas de vidro para as janelas da fachada principal.

Esses detalhes mostram que o edifício ainda estava recebendo seus acabamentos quando Militão realizou seu registro.


🪟 Uma fotografia que registra o edifício quase concluído

É justamente esse estágio de construção que confere à fotografia de 1865 um valor documental excepcional.

As paredes aparecem recém-caiadas, enquanto as seis vidraças do andar superior ainda não estavam totalmente concluídas.

A fotografia não registra apenas uma praça ou um edifício. Ela captura um momento específico da construção da cidade.

É possível observar, ao mesmo tempo, uma nova instituição pública em processo de conclusão e uma paisagem urbana que ainda preservava características rurais.

Essa combinação torna o registro particularmente significativo para a história de Santos.


⛪ A Igreja de São Francisco de Paula

À esquerda da Casa da Câmara e Cadeia aparece a Igreja de São Francisco de Paula, construção do século XVIII que passou por reformas em 1835 e 1836.

A presença da igreja demonstra a importância que os edifícios religiosos possuíam na organização da paisagem urbana de Santos.

Próxima a ela encontrava-se também a antiga Santa Casa da Misericórdia, que subsistia naquele local desde 1836.

Assim, a fotografia registra um conjunto formado por poder público, instituições religiosas, assistência social, moradias e espaços abertos.


🏘️ Um conjunto arquitetônico singular

Segundo a análise de Gino Caldatto Barbosa, os edifícios existentes naquele trecho formavam um conjunto arquitetônico bastante peculiar.

A simplicidade decorativa das fachadas e a composição dos volumes arquitetônicos contribuíam para uma paisagem que podia lembrar características da arquitetura colonial brasileira.

A Casa da Câmara e Cadeia, a igreja e as construções da Santa Casa formavam um conjunto que revelava diferentes dimensões da sociedade santista do século XIX.

Era uma cidade em processo de transformação, mas que ainda preservava fortes características de sua formação colonial.


🌿 Um largo que ainda parecia área de pastagem

Talvez um dos elementos mais surpreendentes da fotografia seja justamente a aparência do espaço aberto.

Em primeiro plano, animais pastando no largo dão à paisagem uma aparência que hoje seria difícil imaginar no coração de Santos.

O antigo Campo da Chácara ainda não possuía a configuração de uma praça urbana densamente ocupada.

As casas térreas estavam distribuídas ao redor de um espaço aberto, enquanto o terreno apresentava características associadas ao antigo ambiente alagadiço.

A presença do Ribeirão de São Jerônimo ajuda a explicar parte dessa configuração.


💧 O Ribeirão de São Jerônimo

O Ribeirão de São Jerônimo desempenhou papel importante na história da área.

O curso d’água atravessava uma região que apresentava terrenos alagadiços e influenciava a ocupação do espaço.

Como ocorreu em diversas partes de Santos, a expansão urbana posterior modificaria profundamente a relação da cidade com seus cursos d’água.

Canais, drenagens, aterros e obras de infraestrutura transformariam progressivamente áreas que anteriormente apresentavam características naturais ou rurais.

A fotografia de 1865 preserva, portanto, uma imagem anterior a muitas dessas transformações.


🏙️ Do espaço aberto à Praça dos Andradas

A denominação do local também mudou ao longo do tempo.

O antigo Campo da Chácara e Campo de São Jerônimo passou a ser conhecido como Largo da Cadeia Nova, referência direta à nova Casa da Câmara e Cadeia.

No final de 1865, o espaço passou a receber o nome de Praça Andrada, posteriormente consolidado como Praça dos Andradas.

A mudança de nome acompanhava a transformação do próprio espaço urbano.

O antigo campo aberto gradualmente assumiria características de uma praça integrada ao crescimento da cidade.


🕰️ Uma cidade entre o rural e o urbano

A fotografia de Militão revela uma Santos que estava entre dois mundos.

De um lado, existiam instituições públicas, igrejas, edifícios de maior porte e uma organização urbana cada vez mais estruturada.

De outro, permaneciam terrenos abertos, casas térreas, áreas alagadiças e animais circulando livremente.

Essa combinação permite compreender que a urbanização de Santos não ocorreu de maneira instantânea.

A cidade foi se transformando gradualmente, incorporando novas construções e infraestruturas sobre uma paisagem que anteriormente possuía características muito diferentes.


🚢 As grandes transformações ainda estavam por vir

Em 1865, quando Militão fotografou o Largo da Cadeia Nova, as grandes transformações portuárias e urbanas de Santos ainda estavam por acontecer.

Nas décadas seguintes, a expansão da produção cafeeira e a inauguração da São Paulo Railway, em 1867, fortaleceriam a ligação ferroviária entre o planalto paulista e o litoral.

Posteriormente, a construção e ampliação do moderno Porto de Santos, as obras de saneamento e a expansão urbana modificariam profundamente a cidade.

Por isso, a fotografia de 1865 pode ser considerada um registro de uma Santos anterior à grande transformação econômica e urbana do final do século XIX e início do século XX.


🧭 O valor histórico das fotografias de Militão

Fotografias como as de Militão Augusto de Azevedo são fundamentais para compreender a evolução urbana de Santos.

Através delas é possível identificar edifícios que desapareceram, espaços que mudaram de função, cursos d’água que foram canalizados ou aterrados e paisagens que foram completamente urbanizadas.

Mais do que ilustrar livros ou artigos, esses registros funcionam como fontes para pesquisas sobre arquitetura, urbanismo, história social, patrimônio e memória.

A fotografia histórica permite comparar diferentes momentos e perceber que a cidade atual é resultado de sucessivas camadas de transformação.


🏛️ Da Casa da Câmara e Cadeia à Casa da Cultura

A antiga Casa da Câmara e Cadeia permanece associada à história de Santos e à atual Casa da Cultura, preservando a memória de um edifício que esteve diretamente ligado à administração pública e à vida urbana do século XIX.

Sua presença na antiga Praça dos Andradas ajuda a compreender a importância daquele espaço na formação da cidade.

O edifício e seu entorno constituem, portanto, um importante ponto de referência para quem deseja conhecer o patrimônio histórico santista.


📚 Uma fotografia que permite reconstruir Santos

A cena registrada em 1865 reúne diferentes elementos em uma única composição: a Casa da Câmara e Cadeia, a Igreja de São Francisco de Paula, a Santa Casa, as casas térreas, o espaço aberto e os animais pastando.

Cada elemento conta uma parte da história.

Juntos, eles revelam uma cidade que ainda mantinha fortes características de seu passado colonial, mas que começava a consolidar novas estruturas administrativas e urbanas.

É justamente essa combinação que torna a fotografia tão importante para a memória de Santos.


🏛️ Patrimônio, memória e turismo histórico

Conhecer a história da antiga Praça dos Andradas e da Casa da Câmara e Cadeia é uma oportunidade de compreender como Santos se desenvolveu antes da grande expansão portuária.

Para o turismo histórico e cultural, fotografias como as de Militão permitem criar uma verdadeira ponte visual entre o passado e o presente.

Ao percorrer atualmente a Praça dos Andradas, o visitante pode imaginar a paisagem registrada em 1865 e compreender como o espaço foi sendo transformado ao longo de mais de um século e meio.

Esse exercício de comparação contribui para valorizar o patrimônio histórico, arquitetônico e urbano de Santos.


📍 Roteiros de Turismo Históricos e Culturais em Santos

A Praça dos Andradas, a antiga Casa da Câmara e Cadeia, a Igreja de São Francisco de Paula e os demais espaços históricos do entorno fazem parte da memória urbana de Santos e podem ser integrados a roteiros de interpretação do patrimônio.

Conhecer esses lugares é também conhecer diferentes períodos da formação da cidade.

R9 Turismo — Roteiros de Turismo Históricos e Culturais em Santos e Região / WWW.R9TURISMO.COM


📚 Fonte e referências

  • Novo Milênio — História e Fotos de Santos, com informações históricas e reprodução de registros da Praça dos Andradas.
  • Gino Caldatto Barbosa. Santos e seus Arrabaldes – Álbum de Militão Augusto de Azevedo. 2004.
  • Instituto Moreira Salles — Acervo fotográfico, registro Largo da Cadeia Nova, de Militão Augusto de Azevedo.
  • Revista USP, nº 41, março/maio de 1999, Coordenadoria de Comunicação Social da Universidade de São Paulo.
  • Coleção Arnaldo Aguiar Barbosa, reprodução publicada pelo jornal Cidade de Santos, em 16 de janeiro de 1983.

💬 Espaço do Leitor:
🔰 Ao observar a fotografia de 1865, qual elemento da antiga paisagem da Praça dos Andradas mais chama a sua atenção: a Casa da Câmara e Cadeia, a igreja, as casas, o espaço aberto ou os animais pastando? 🔰

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