
A Resiliência da Mata Atlântica à Era do Gelo
De tempos em tempos, a Terra esfria muito e boa parte da água do planeta congela, tornando o clima frio e seco. Esse período glacial, também conhecido como era do gelo, alterna épocas quentes e úmidas, como a que vivemos agora, denominadas interglaciais.
Os cientistas afirmam que esse movimento é cíclico e vem acontecendo há milhares de anos. Eles acreditavam que o congelamento e a seca teriam fragmentado a Mata Atlântica e destruído sua porção mais ao sul durante a última era do gelo, há 12 mil anos. Essa hipótese, porém, parece improvável diante de uma pesquisa do câmpus de Rio Claro.
O novo estudo, Phylogeography of endemic toads and post-Pliocene persistence of the Brazilian Atlantic Forest, foi publicado na revista científica americana Molecular Phylogenetics and Evolution. Maria Tereza Chiarioni Thomé, autora principal e doutoranda em Zoologia pelo Instituto de Biociências (IB), encontrou espécies de sapos mais antigas do que o período glacial em áreas remanescentes de Mata Atlântica no Rio Grande do Sul.
Novas Evidências sobre a Fragmentação Florestal
Segundo a estudiosa, isso indicaria que pode não ter havido fragmentação na Mata Atlântica ou que refúgios significativos conseguiram se manter. Para chegar a essa conclusão, a pesquisadora seguiu os caminhos de um estudo anterior, de 2009, que dizia o contrário. Aquele trabalho indicava que a população mais antiga estava apenas no sul da Bahia, sugerindo que o Sul teria sido recolonizado recentemente.
“O problema é que esse estudo anterior só trabalhou com três espécies, um número demasiado pequeno para uma conclusão como esta”, afirma o pesquisador Célio Haddad, que coorientou a tese de Maria Tereza.
Análise Genética e Biodiversidade
Ao ampliar a pesquisa para seis linhagens de sapos, foi possível identificar espécies tão antigas no Sul quanto no Nordeste. Em laboratório, os cientistas analisam a quantidade de mutações no material genético: quanto maior o número de mutações, mais antigo é o ancestral.
“Sabendo que eles estavam ali antes do degelo, garantimos que a floresta também estava de pé, já que esses anfíbios dependiam daquela biodiversidade para existir”, explica a pesquisadora. Além da genética, foram empregadas modelagens matemáticas para verificar variações climáticas históricas, confirmando que os locais onde os sapos antigos foram encontrados tinham condições para suportar a mata no passado.
O Futuro da Pesquisa e da Conservação
Maria Tereza concentra-se agora na revisão taxonômica das espécies, realizando estágios na Universidade de Cornell (EUA). O trabalho é orientado pelo professor João Miguel de Barros Alexandrino, da Unifesp.
Contudo, as regiões que resistiram à era do gelo agora enfrentam a degradação humana. Haddad alerta que muitos desses locais não são áreas de preservação. No sul da Bahia, por exemplo, o declínio da produção de cacau — que convivia bem com a mata — abriu espaço para modelos econômicos menos sustentáveis.
Apenas 7% de Mata Restante
Originalmente, a Mata Atlântica percorria a costa brasileira do Piauí até partes do Paraguai e Argentina. Segundo a ONG SOS Mata Atlântica, restam apenas 7% de sua formação original.
Para Haddad, o governo deveria investir na criação de reservas bem protegidas e compensar financeiramente os municípios que incentivam a preservação, evitando que espécies sejam extintas antes mesmo de serem conhecidas pela ciência.
Fonte: Planeta Universitário / Unesp Assessoria de Comunicação e Imprensa.


