A História do Surf no Brasil: Santos SP, o Berço do Surf Brasileiro

O surfe é hoje um dos esportes mais praticados e admirados do Brasil, reunindo milhões de praticantes e movimentando uma expressiva cadeia econômica ligada ao turismo, ao lazer, à moda, à indústria esportiva e à cultura praiana. No entanto, poucos conhecem a verdadeira origem dessa modalidade no país. A história começou em Santos (SP), na década de 1930, graças ao pioneirismo de um jovem apaixonado pelo mar que decidiu construir, com as próprias mãos, a primeira prancha de surfe brasileira.

Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com pós-graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.

🌊 O nascimento do surf no Brasil

A versão mais aceita pelos pesquisadores da história do surfe brasileiro aponta que o esporte teve início em 1934, na cidade de Santos, litoral de São Paulo.

O responsável por esse feito foi Thomas Rittscher Júnior, um jovem santista que, inspirado por uma reportagem publicada na revista norte-americana Popular Mechanics, decidiu construir a primeira prancha de surfe do Brasil.

Na época, o esporte era praticamente desconhecido no país. Thomas jamais imaginaria que aquele experimento daria origem a uma modalidade que, décadas depois, transformaria o Brasil em uma das maiores potências mundiais do surfe.

🪵 A primeira prancha de surf construída no Brasil

A prancha foi confeccionada artesanalmente seguindo o modelo desenvolvido pelo lendário surfista havaiano Tom Blake, considerado um dos grandes inovadores do esporte.

Com mais de 3 metros de comprimento e aproximadamente 60 quilos, a prancha era extremamente pesada quando comparada aos equipamentos modernos.

Mesmo assim, Thomas a transportava sozinho até a praia.

Segundo o próprio pioneiro:

“O pessoal na praia dizia: olha, ele está andando no mar em cima da onda. Depois que eu saía da água, todos vinham ver a tábua.”

Ele também recordava a dificuldade para carregar o equipamento:

“Ela pesava cerca de 60 quilos e eu a levava sozinho nas costas por três quadras. Era muito pesado.”

🏄 Aprendendo sozinho a surfar

Na década de 1930 não existiam escolas de surfe, vídeos, instrutores ou qualquer tipo de material didático.

Thomas aprendeu completamente sozinho, observando o comportamento das ondas e experimentando diferentes formas de equilíbrio.

Como ele mesmo relatou:

“Aprendi sozinho, depois de muitos tombos. Primeiro deitava na prancha, depois fui conseguindo ficar em pé e até fazia algumas brincadeiras durante a descida das ondas.”

Essa determinação fez dele o verdadeiro pioneiro do esporte no Brasil.

👩 A primeira mulher surfista do Brasil

A história do surfe brasileiro também registra um importante protagonismo feminino.

Margot Rittscher, irmã de Thomas, é reconhecida como a primeira mulher a surfar no Brasil.

Ela utilizava a mesma prancha construída pelo irmão e também enfrentava as ondas da orla santista, tornando-se uma personagem histórica do esporte nacional.

🌊 As primeiras ondas do litoral paulista

Inicialmente, Thomas surfava na praia de Santos.

Posteriormente passou a frequentar a região conhecida como Porta do Sol, localizada entre a antiga Praia das Vacas e a Ilha Porchat, em São Vicente.

Segundo ele, ali encontrava ondas maiores e mais desafiadoras, que eram suas preferidas.

Como a prancha era extremamente pesada, o transporte passou a ser realizado utilizando o automóvel conversível de sua irmã.

⚔️ A interrupção causada pela Segunda Guerra Mundial

Thomas surfou até aproximadamente 1941, quando precisou apresentar-se ao Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Embora fosse residente no Brasil desde a infância, possuía nacionalidade norte-americana.

Após o conflito, passou a dedicar-se intensamente ao esporte da vela, tornando-se um dos fundadores do tradicional Iate Clube de Santos.

Enquanto isso, sua irmã Margot continuou surfando por mais alguns anos.

📚 O resgate de uma história esquecida

Durante décadas, o verdadeiro pioneirismo de Thomas Rittscher permaneceu praticamente desconhecido.

A história acabou sendo resgatada graças ao pesquisador e surfista Diniz Iozzi, conhecido como Pardal, idealizador do Museu Itinerante do Surf, que reuniu documentos, fotografias e depoimentos comprovando que Thomas foi o primeiro surfista do Brasil.

Esse trabalho foi fundamental para preservar um importante capítulo da memória esportiva nacional.

🪚 1938: as primeiras “Tábuas Havaianas”

Alguns anos depois, em 1938, outros jovens santistas também construíram artesanalmente suas próprias pranchas.

Entre eles destacam-se:

  • Osmar Gonçalves;
  • João Roberto Suplicy Hafers;
  • Júlio Putz.

Inspirados por outra publicação norte-americana, confeccionaram enormes “Tábuas Havaianas”, com aproximadamente 3,60 metros de comprimento e cerca de 80 quilos.

As primeiras experiências aconteceram na região do Canal 3, em Santos, contribuindo para popularizar o esporte entre os moradores da cidade.

🏖️ Santos: reconhecida como uma Surf City

Os primeiros passos dados por Thomas Rittscher e pelos demais pioneiros ajudaram a transformar Santos em uma das cidades mais importantes da história do surfe brasileiro.

Atualmente, Santos é reconhecida internacionalmente como uma verdadeira Surf City, reunindo:

  • campeonatos nacionais e internacionais;
  • escolas de surfe;
  • lojas especializadas;
  • projetos sociais;
  • museus;
  • eventos culturais;
  • bares temáticos;
  • produção audiovisual;
  • turismo esportivo.

Com sua extensa faixa de areia, tradição esportiva e excelentes condições para a prática da modalidade, a cidade continua sendo referência para surfistas de todo o país.

🌎 Um legado que inspira gerações

A trajetória de Thomas Rittscher Júnior demonstra como a paixão, a criatividade e a perseverança podem transformar uma simples ideia em um movimento cultural capaz de influenciar milhões de pessoas.

Quase um século depois, o Brasil tornou-se uma das maiores potências mundiais do surfe, conquistando títulos internacionais e revelando atletas que fizeram história no cenário esportivo mundial.

Tudo começou com uma prancha artesanal construída em Santos, confirmando que o litoral paulista ocupa um lugar de destaque na história do esporte brasileiro.


📚 Fontes consultadas

  • R9 Turismo – História do Surf no Brasil.
  • Jornal A Semana.
  • Surf in Santos.
  • Portal 360 Graus.
  • Conselho Federal de Educação Física (CONFEF).

Para conhecer roteiros de Turismo Histórico e Cultural na Baixada Santista, acompanhe os conteúdos da R9 Turismo.


💬 Espaço do Leitor: 🔰 Você acredita que Santos merece o reconhecimento oficial como o berço do surf brasileiro? Conhece algum outro personagem importante dessa história que deveria ser lembrado? 🔰

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