Mapa de Jan Janes – 1621: A Invasão do Corsário Holandês de Joris van Spilbergen por São Vicente e Santos SP

A história de São Vicente e Santos no início do século XVII pode ser observada por meio de uma das mais interessantes representações cartográficas produzidas a partir das viagens neerlandesas pela costa do Brasil. A estampa atribuída a Jan Janes, publicada em 1621, registra a região de São Vicente e Santos e está relacionada à expedição do almirante neerlandês Joris van Spilbergen, que esteve na região em 1615.

Por ..:: Renato Marchesini: Guia de Turismo, Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.

Conforme publicado em Americae Praeterita Eventa – Helmut Andrä e Edgard de Cerqueira Falcão, Editora da Universidade de São Paulo, 1966. Obra trílingüe (português/inglês/alemão), reproduz parte de Historia Antipodum oder Newe Welt, originalmente publicada em 1631 pelo gravador suíço Matthäus Merian e pelo escritor e compilador Johann Ludwig Gottfried.

📚 A importância de Americae Praeterita Eventa

A imagem também foi reproduzida na obra Americae Praeterita Eventa, de Helmut Andrä e Edgard de Cerqueira Falcão, publicada em 1966.

O acervo do Museu Nacional dos Povos Indígenas registra a obra, produzida em 1966, com 289 folhas, estampas, fac-símiles e mapas, reunindo importante documentação iconográfica sobre a história da América.

A Universidade de São Paulo também possui registros de imagens provenientes dessa publicação. Entre elas está a figura 124, identificada como “O corsário holandês Spilbergen saqueia São Vicente e Santos, 1615”.

A obra é, portanto, uma referência importante para quem deseja pesquisar cartografia histórica, viagens marítimas, iconografia colonial e representações europeias da América.


🖼️ Outras versões da representação

Existem diferentes versões e reproduções dessa representação histórica.

Uma delas apresenta alterações estéticas, como diferenças na representação das ondas, no horizonte e em elementos da paisagem. Também existem modificações relacionadas à representação dos cursos d’água e da configuração territorial.

Essas diferenças são importantes porque mostram que a imagem circulou, foi reinterpretada e reproduzida em diferentes momentos, fazendo com que determinadas versões não sejam necessariamente idênticas ao documento original.

A própria Biblioteca Nacional conserva uma litografia posterior, do século XIX, intitulada “O Porto de Santos e o de São Vicente em 1615 – Segundo a gravura do roteiro do Almirante Joris van Spilberg”, demonstrando a permanência dessa imagem na memória cartográfica e histórica da região.

Mapa citado em redução na História de Santos / Poliantéia Santista, de Francisco Martins dos Santos e Fernando Martins Lichti, 1986, 3 volumes.

⚓ A expedição de Joris van Spilbergen

Em 1615, a esquadra comandada por Joris van Spilbergen chegou à região de Santos e São Vicente durante uma viagem de circunavegação. A expedição havia partido de Amsterdã em 1614 e era composta por seis navios.

A esquadra chegou à baía de Santos em 17 de janeiro de 1615. O relacionamento inicial com os habitantes locais foi marcado pela desconfiança e pela dificuldade de obter mantimentos e abastecimento. Poucos dias depois, ocorreram confrontos entre os neerlandeses e os moradores da região.

O episódio ficou registrado nas fontes históricas como uma das primeiras grandes incursões neerlandesas na região de Santos e São Vicente.


🗺️ O que o mapa de Jan Janes revela?

A estampa é particularmente interessante porque apresenta uma representação da paisagem costeira, das vilas, das águas e dos acessos marítimos existentes naquele período.

Um dos elementos que mais chama a atenção é a representação do porto de São Vicente com duas barras, pelas quais, segundo a interpretação da imagem, poderiam ingressar embarcações de grande porte.

Na representação aparece inclusive um galeão neerlandês fundeado diante da praia de Paranapuã, elemento que ajuda a compreender a importância estratégica atribuída à região pelos navegadores europeus.

A Biblioteca Nacional Digital possui registro de uma gravura intitulada “O Porto de Santos e o de São Vicente em 1615”, baseada na representação relacionada à viagem de Joris van Spilbergen.


🌊 Um mapa que precisa ser interpretado com cautela

Embora seja uma fonte histórica extremamente valiosa, o mapa não deve ser entendido como uma fotografia precisa da paisagem de 1615.

As representações cartográficas e iconográficas produzidas na época frequentemente combinavam informações obtidas pelos navegadores com relatos de terceiros, interpretações dos desenhistas e convenções gráficas europeias.

Por isso, determinados elementos da estampa podem apresentar exageros ou imprecisões geográficas. Estudos sobre a representação de São Vicente e Santos destacam justamente a necessidade de descontar determinados exageros para utilizar a imagem como fonte histórica.

Essa característica, porém, não diminui sua importância. Pelo contrário: o mapa permite observar como a região era percebida e representada pelos navegadores europeus no século XVII.

..:: Simbologia do Mapa:


🏝️ São Vicente, Santos e a antiga configuração da paisagem

Outro aspecto fascinante da estampa é a maneira como aparecem representadas as ilhas, os canais, os cursos d’água e as áreas ocupadas pelas vilas de Santos e São Vicente.

Algumas interpretações históricas relacionam a representação a uma antiga configuração hidrográfica na qual Santos e São Vicente apresentavam características paisagísticas diferentes das atuais.

Em representações antigas aparece, por exemplo, um curso d’água associado à separação entre as áreas de Santos e São Vicente. Esse tipo de informação contribui para os estudos sobre as transformações da paisagem da Baixada Santista ao longo dos séculos.

É importante, entretanto, diferenciar a representação cartográfica da realidade geográfica comprovada, pois as plantas e gravuras antigas podem apresentar interpretações equivocadas dos acidentes naturais.


🏘️ Como eram representadas as vilas?

A estampa também fornece pistas sobre a configuração urbana das duas localidades.

Estudos sobre a gravura destacam que São Vicente aparece com uma configuração urbana mais compacta e com estruturas defensivas, enquanto Santos surge representada dentro do complexo estuarino da região.

As imagens também indicam a presença de embarcações de grande porte nas águas próximas às vilas, reforçando a importância estratégica dos canais e das barras para a navegação.

Assim, o documento não é apenas um mapa: ele funciona também como registro iconográfico da paisagem colonial, permitindo analisar a relação entre ocupação urbana, navegação, defesa e ambiente.


🔥 O conflito e o Engenho dos Erasmos

A passagem de Spilbergen pela região também está relacionada a episódios de violência e destruição.

Durante os confrontos de 1615, a expedição neerlandesa atacou propriedades próximas a São Vicente. Entre os locais atingidos esteve o Engenho São Jorge dos Erasmos, importante patrimônio histórico atualmente preservado em Santos.

Estudos acadêmicos registram que o engenho foi incendiado em 29 de janeiro de 1615, durante a passagem da esquadra comandada por Spilbergen.

O episódio demonstra que a viagem não foi simplesmente uma expedição de reconhecimento geográfico: as relações comerciais, estratégicas e militares estavam profundamente interligadas.


🎨 Benedicto Calixto e a preservação da memória histórica

O pintor, historiador e escritor Benedicto Calixto de Jesus também contribuiu para a divulgação dessa iconografia.

Em sua obra Capitanias Paulistas, Calixto reproduziu a estampa relacionada a São Vicente e Santos, acompanhada de uma legenda que identifica a representação como:

“São Vicente e Santos em 1615” ESTAMPA E LEGENDA DO MIROIR OOST AND WEST INDICAL, RELAÇÃO DA VIAGEM DE JORIS VAN SPILBERGEN, AMSTERDAM, 1621.

A estampa, datada de 1616, representa o porto de São Vicente e mostra que, naquele período, a região possuía duas barras de acesso, pelas quais podiam entrar embarcações de grande porte. Na representação, destaca-se ainda um galeão holandês fundeado em frente à praia de Paranapuã.

A imagem foi reproduzida entre as páginas 52 e 53 da obra Capitanias Paulistas, de Benedicto Calixto, importante referência para o estudo histórico e iconográfico do litoral paulista.

A utilização da gravura por Calixto ajudou a preservar e divulgar uma representação fundamental para os estudos sobre a paisagem histórica do litoral paulista.


🧭 Cartografia como documento histórico

Mapas antigos não devem ser observados apenas como instrumentos para localizar lugares.

Eles também revelam interesses políticos, econômicos, militares, religiosos e comerciais.

No caso da representação de São Vicente e Santos, podemos observar simultaneamente:

  • ⚓ a importância dos portos e das barras;
  • 🛳️ a circulação de grandes embarcações;
  • 🏘️ a configuração das vilas coloniais;
  • 🌊 os canais e ambientes estuarinos;
  • 🏝️ a percepção das ilhas e da costa;
  • ⚔️ a importância militar da região;
  • 🌎 a visão europeia sobre o território americano.

Por isso, essa estampa constitui uma importante fonte para compreender como a Baixada Santista era percebida no início do século XVII.


🔎 Uma observação importante sobre as datas

É interessante fazer uma distinção entre a data do acontecimento e a data da publicação da imagem.

A passagem de Spilbergen por Santos e São Vicente ocorreu em 1615. Já a representação relacionada à viagem foi publicada posteriormente, em diferentes versões e obras. A Miroir Oost & West Indical é associada à publicação de 1621, enquanto estudos também identificam versões da estampa datadas de 1615 ou relacionadas a materiais produzidos posteriormente.

Assim, o título “Mapa de Jan Janes – 1621” deve ser entendido principalmente em relação à publicação da representação, enquanto o acontecimento histórico retratado corresponde à passagem de Spilbergen pela região em 1615.


🏛️ Uma janela para a Santos e São Vicente de quatro séculos atrás

Observar essa gravura atualmente é como abrir uma pequena janela para a Baixada Santista de mais de 400 anos atrás.

Apesar das limitações e dos possíveis erros de representação, o documento permite imaginar uma paisagem muito diferente da atual, marcada por manguezais, canais, áreas de mata, pequenas povoações, engenhos, caminhos e embarcações navegando pelo complexo estuarino.

Para Santos e São Vicente, documentos como esse possuem enorme valor para compreender as transformações ocorridas no território e ajudam a reconstruir, ainda que parcialmente, a paisagem cultural e ambiental do período colonial.


📖 Fontes e referências

  • ANDRÄ, Helmut; FALCÃO, Edgard de Cerqueira. Americae Praeterita Eventa. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1966. O acervo do Museu Nacional dos Povos Indígenas confirma a existência da obra e sua documentação iconográfica.
  • Biblioteca Nacional Digital – “O Porto de Santos e o de São Vicente em 1615”, segundo a gravura do roteiro do almirante Joris van Spilbergen.
  • CAPH/USP – Centro de Apoio à Pesquisa em História “Sérgio Buarque de Holanda”, com registros iconográficos de Americae Praeterita Eventa.
  • Estudos acadêmicos sobre São Vicente e a representação de Joris van Spilbergen, incluindo análise da estampa e da configuração urbana das vilas.

Saber mais: Novo Milênio – Spilbergen atacou Santos em 1615


🎬 DVD: O Porto de Santos – Navegando pela História (AQUI)

Uma viagem pela história do porto e pela transformação da paisagem de Santos, relacionando memória, patrimônio, navegação e formação territorial.


🧭 Roteiros de Turismo na Baixada Santista

Para conhecer a história, a cultura, o patrimônio e as paisagens da região em roteiros de turismo:

R9 Turismo – Gestão Cultural, Ambiental e Turística


💬 Espaço do Leitor: 🔰 Você já conhecia essa antiga representação de Santos e São Vicente? O que mais chamou sua atenção no mapa de Jan Janes? 🔰

1 comentário em “Mapa de Jan Janes – 1621: A Invasão do Corsário Holandês de Joris van Spilbergen por São Vicente e Santos SP

  1. Oh! que saudades que tenho
    Da aurora da minha vida,
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais!
    Casimiro de Abreu descreveu nesse poema a mais pura realidade da vida…

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