Alexandre de Gusmão: O Santista que Ajudou a Desenhar o Mapa do Brasil

Alexandre de Gusmão foi um dos mais importantes diplomatas nascidos em Santos durante o período colonial. Sua atuação política e diplomática foi decisiva para as negociações que resultaram no Tratado de Madri, assinado em 13 de janeiro de 1750 entre Portugal e Espanha, acordo que redefiniu os limites dos domínios ibéricos na América do Sul e substituiu, na prática, a antiga lógica territorial estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas.

Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.


🧭 Alexandre de Gusmão e a formação territorial do Brasil

Nascido em Santos, em 1695, Alexandre de Gusmão tornou-se uma figura de grande relevância na diplomacia portuguesa. Ainda jovem, deixou o Brasil e seguiu para Portugal, onde construiu uma trajetória ligada à política, aos estudos, à diplomacia e à administração do Império Português.

Seu papel ganhou especial importância durante o reinado de D. João V, para quem exerceu a função de secretário particular entre 1730 e 1750. Nesse período, Gusmão teve influência significativa nas decisões relacionadas aos interesses portugueses na América e participou dos preparativos que levariam às negociações territoriais com a Espanha.


📜 O Tratado de Madri e o fim da lógica de Tordesilhas

O Tratado de Tordesilhas, de 1494, havia estabelecido uma linha imaginária para dividir as áreas de expansão ultramarina de Portugal e Espanha. Na prática, porém, a ocupação portuguesa avançou muito além dessa linha, principalmente durante os séculos XVII e XVIII.

Quando as negociações entre as duas coroas foram retomadas, tornou-se necessário reconhecer uma realidade territorial que já havia se transformado.

O Tratado de Madri representou uma mudança fundamental: em vez de simplesmente manter uma linha imaginária, as fronteiras passaram a considerar a ocupação efetiva do território e elementos naturais da paisagem, como rios e montanhas.

Nesse contexto, Alexandre de Gusmão teve papel central na construção da posição diplomática portuguesa.


⚖️ O princípio do uti possidetis

Um dos conceitos mais importantes associados à atuação de Alexandre de Gusmão foi o uti possidetis, expressão latina que pode ser entendida, nesse contexto, como a ideia de que quem ocupa efetivamente determinado território deve ter reconhecido o direito sobre ele.

Esse princípio ajudou a fundamentar as negociações com a Espanha e permitiu que a diplomacia portuguesa defendesse áreas ocupadas por Portugal que estavam muito além dos limites originalmente estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas.

O tratado também utilizou acidentes geográficos como referências para a demarcação, incluindo rios, montanhas e outros elementos naturais. Essa estratégia contribuiu para estabelecer fronteiras mais concretas e relacionadas à própria configuração do território.


🗺️ O Mapa das Cortes e a importância da cartografia

A diplomacia de Alexandre de Gusmão esteve diretamente relacionada ao avanço dos conhecimentos geográficos e cartográficos sobre a América portuguesa.

Um dos documentos fundamentais desse processo foi o Mapa dos confins do Brazil com as terras da Coroa da Espanha na América Meridional, elaborado em 1749 e conhecido como Mapa das Cortes.

A produção cartográfica foi importante porque permitia apresentar informações territoriais nas negociações com a Espanha. Alexandre de Gusmão encaminhou a Madri, em 1748, seu “Plano do Tratado”, que serviu de base para as negociações posteriores.

Dessa maneira, diplomacia, cartografia, geografia e conhecimento territorial estavam profundamente relacionados na construção dos argumentos portugueses.


🌎 Um território muito maior do que Tordesilhas

O Tratado de Madri reconheceu uma realidade territorial bastante diferente daquela prevista em 1494.

Portugal abriu mão da Colônia do Sacramento, na região do rio da Prata, enquanto recebeu o reconhecimento de sua presença em extensas áreas ocupadas na Amazônia, no Centro-Oeste e no Sul.

O acordo também estabeleceu a troca de áreas e direitos entre as duas coroas, incluindo os Sete Povos das Missões.

Por isso, Alexandre de Gusmão é frequentemente apresentado como um dos principais arquitetos diplomáticos da configuração territorial que, posteriormente, contribuiria para a formação do Brasil.

É importante, contudo, evitar uma simplificação: o território brasileiro não foi resultado exclusivo de uma única pessoa ou de um único tratado. Sua formação foi consequência de séculos de ocupação, conflitos, expedições, negociações diplomáticas, ações de povos indígenas, disputas entre impérios e transformações políticas.


🧠 Um homem de cultura e formação intelectual

Alexandre de Gusmão teve uma formação intelectual ampla. Segundo a Fundação Alexandre de Gusmão, ele estudou inicialmente na Bahia e posteriormente seguiu para Portugal, onde estudou Direito na Universidade de Coimbra. Aos 19 anos, já estava ligado à Corte de D. João V e iniciou uma trajetória diplomática que o levaria a importantes missões na Europa.

Por isso, embora o texto tradicionalmente o apresente como “filósofo, matemático e físico”, é mais preciso destacá-lo como diplomata, jurista, intelectual e estrategista político, cuja atuação dialogou intensamente com conhecimentos de geografia, cartografia e matemática empregados na compreensão do território.

Essa dimensão intelectual foi fundamental para sua capacidade de interpretar mapas, informações geográficas e interesses políticos durante as negociações internacionais.


👨‍👩‍👦 Uma família ligada à história de Santos

Alexandre de Gusmão nasceu como Alexandre Lourenço, sendo o nono de doze filhos de Francisco Lourenço Rodrigues e Maria Álvares. Ainda criança, foi para a Bahia estudar no Seminário de Belém, instituição fundada pelo padre jesuíta Alexandre de Gusmão, de quem posteriormente adotou o sobrenome.

Entre seus irmãos estava Bartolomeu Lourenço de Gusmão, posteriormente conhecido como o “padre voador”, célebre por suas experiências relacionadas à navegação aérea e à chamada passarola.

A trajetória dos dois irmãos demonstra como Santos esteve ligada à formação de personagens que alcançaram projeção internacional no mundo luso-brasileiro do século XVIII.


🏛️ A perda de influência após a morte de D. João V

A morte de D. João V, em 1750, alterou profundamente a posição de Alexandre de Gusmão na Corte portuguesa.

Com a ascensão de D. José I, novas forças políticas ganharam espaço, entre elas Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal. Gusmão perdeu progressivamente influência política e passou seus últimos anos afastado do centro do poder.

Alexandre de Gusmão morreu em Lisboa, em 1753, aos 58 anos.

Segundo registros históricos reunidos pela FUNAG, morreu em situação financeira difícil, apesar da posição de destaque que havia ocupado durante parte de sua vida.


🌋 O terremoto de Lisboa e a perda de documentos

Um dos episódios mais trágicos para a preservação da memória de Alexandre de Gusmão ocorreu pouco depois de sua morte.

Em 1755, Lisboa foi devastada por um grande terremoto, seguido por incêndios e pelo tsunami que atingiu a região. O desastre provocou enorme destruição e contribuiu para a perda de documentos e escritos relacionados a diferentes personagens e instituições da época.

A trajetória documental de Alexandre de Gusmão também foi afetada por esse contexto, dificultando a preservação de parte de sua produção e correspondência.


🇧🇷 Alexandre de Gusmão e a memória histórica brasileira

A importância de Alexandre de Gusmão ultrapassa sua atuação diplomática.

Seu nome está associado a um momento decisivo da história territorial da América portuguesa, quando a diplomacia passou a reconhecer a ocupação efetiva e os acidentes geográficos como elementos fundamentais para a definição das fronteiras.

O Tratado de Madri acabou sendo anulado pelo Tratado de El Pardo, de 1761, devido às dificuldades de execução do acordo. Mesmo assim, sua importância histórica permaneceu, e seus princípios influenciaram posteriormente a construção das fronteiras sul-americanas.

Em 1971, o governo brasileiro criou a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, como homenagem à sua memória e contribuição para a diplomacia brasileira.


🏙️ Santos na história da formação territorial brasileira

Resgatar Alexandre de Gusmão também significa valorizar a história de Santos e sua contribuição para a formação do Brasil.

A cidade portuária foi berço de personagens que participaram de processos históricos muito diferentes, mas fundamentais para compreender o Brasil colonial e imperial.

Alexandre de Gusmão representa, nesse contexto, a dimensão da diplomacia, da geopolítica, da cartografia e da negociação internacional.

Sua trajetória demonstra que a formação territorial brasileira não aconteceu apenas nos campos de batalha ou nas expedições pelo interior. Ela também foi construída em mapas, documentos, tratados, argumentos jurídicos e negociações diplomáticas.


📚 Por que estudar Alexandre de Gusmão?

Estudar Alexandre de Gusmão é compreender que o mapa do Brasil é resultado de um longo processo histórico.

Sua atuação permite relacionar História, Geografia, Cartografia, Diplomacia, Direito e Patrimônio, mostrando como diferentes áreas do conhecimento podem se unir para explicar a formação territorial de um país.

Mais do que um personagem ligado ao Tratado de Madri, Alexandre de Gusmão pode ser compreendido como um dos grandes formuladores da estratégia diplomática portuguesa para consolidar a ocupação territorial na América.

Sua história também reforça a importância de Santos no cenário histórico brasileiro e ajuda a compreender por que a cidade merece atenção especial quando estudamos a formação do território nacional.


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