O estudo dos fundamentos do turismo envolve compreender não apenas os destinos, mas também o comportamento, as motivações, as expectativas e as preferências dos viajantes. Entre os modelos clássicos utilizados para interpretar esse comportamento está a tipologia psicográfica desenvolvida pelo pesquisador norte-americano Stanley C. Plog, que propôs um continuum entre perfis mais voltados à familiaridade e à segurança e outros mais interessados em novidade, descoberta e aventura.
Por ..:: Renato Marchesini / Bacharel em Turismo, Historiador, Geógrafo e Biólogo, com Pós-Graduação em Ecoturismo, Gestão Pública, Gestão em Projetos, RH e Projetos Sociais, Gestão Educacional, Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Direitos Humanos, História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio e Mestre em Ciências.
🧠 Quem foi Stanley Plog?
Stanley Charles Plog foi um pesquisador norte-americano que se dedicou ao estudo do comportamento dos viajantes e à relação entre características psicográficas dos turistas e desenvolvimento dos destinos.
Sua proposta ganhou destaque nos estudos de turismo porque procurava responder a uma questão importante: Por que determinadas pessoas procuram destinos conhecidos, estruturados e previsíveis, enquanto outras preferem lugares pouco conhecidos, diferentes e ainda não explorados pelo turismo convencional?
Para responder a essa questão, Plog desenvolveu uma classificação baseada em um continuum psicográfico, no qual os viajantes poderiam apresentar características mais próximas do polo psicocêntrico, do polo alocêntrico ou de posições intermediárias.
É importante destacar que não se trata de uma classificação absoluta. Uma mesma pessoa pode apresentar comportamentos diferentes dependendo do destino, da idade, da experiência de viagem, da companhia, do orçamento, do momento de vida e da finalidade da viagem.
📊 Comparação entre as tipologias de Plog
| Característica | Turista psicocêntrico | Turista mesocêntrico | Turista alocêntrico |
|---|---|---|---|
| Perfil geral | Prefere familiaridade, segurança e previsibilidade | Combina segurança com alguma novidade | Procura novidade, descoberta e experiências diferentes |
| Comportamento | Mais cauteloso e orientado por referências conhecidas | Moderadamente aberto a novas experiências | Mais independente, curioso e disposto a explorar |
| Destinos | Conhecidos, estruturados e consolidados | Conhecidos, mas com possibilidade de experiências diferenciadas | Menos conhecidos, emergentes ou pouco explorados |
| Infraestrutura | Valoriza infraestrutura consolidada | Busca equilíbrio entre conforto e novidade | Aceita infraestrutura mais simples quando a experiência compensa |
| Hospedagem | Hotéis e empreendimentos padronizados | Hotéis, pousadas e resorts de diferentes categorias | Pousadas locais, hospedagens alternativas, acampamentos ou outras opções |
| Transporte | Prefere meios previsíveis e organizados | Combina transporte convencional com alternativas | Pode utilizar transportes locais ou soluções menos convencionais |
| Atividades | Lazer conhecido, compras, praias e atrações consolidadas | Cultura, lazer e atrações tradicionais combinadas com novidades | Aventura, natureza, cultura local e experiências de descoberta |
| Organização da viagem | Maior preferência por pacotes e roteiros estruturados | Pode combinar organização prévia com autonomia | Maior tendência à organização independente e flexível |
🧩 Turista psicocêntrico
O turista psicocêntrico ocupa uma das extremidades do modelo de Plog e apresenta maior preferência por familiaridade, segurança, previsibilidade e estruturas turísticas conhecidas.
Esse viajante tende a se sentir mais confortável quando encontra serviços que já conhece ou que apresentam padrões semelhantes aos de seu cotidiano.
Características frequentes:
- preferência por destinos turísticos consolidados;
- valorização da segurança e da previsibilidade;
- interesse por infraestrutura conhecida;
- maior utilização de roteiros estruturados;
- preferência por hotéis, resorts e serviços padronizados;
- menor disposição para enfrentar situações muito incertas;
- interesse por atrações amplamente divulgadas.
Isso não significa que o psicocêntrico não goste de viajar ou não tenha curiosidade. A diferença está principalmente na maneira como lida com a novidade e com o grau de incerteza durante a viagem.
Um exemplo seria o viajante que prefere retornar regularmente a um destino conhecido porque já conhece o hotel, os restaurantes, os meios de transporte e as principais atrações.
Fonte..:: Folha de São Paulo, 03 de Agosto de 2012.
🧭 Turista alocêntrico
Na outra extremidade do modelo encontra-se o turista alocêntrico.
Esse perfil apresenta maior disposição para descobrir lugares novos, experimentar culturas diferentes e explorar destinos ainda pouco conhecidos pelo turismo convencional.
Entre suas características podem estar:
- curiosidade;
- independência;
- interesse por culturas diferentes;
- disposição para experimentar novas atividades;
- preferência por destinos menos conhecidos;
- interesse por experiências autênticas;
- maior tolerância à incerteza;
- busca por descoberta e aventura.
O alocêntrico não necessariamente rejeita conforto ou qualidade. Sua característica central é a maior abertura à novidade e à descoberta.
Um exemplo seria um viajante que escolhe conhecer uma região turística emergente, pesquisa a cultura local, utiliza serviços de pequenos empreendedores e monta grande parte de seu roteiro por conta própria.
⚖️ Turista mesocêntrico
Entre os dois polos está o turista mesocêntrico, que ocupa a região intermediária do modelo.
Esse perfil procura equilibrar novidade e segurança.
É possível que o viajante mesocêntrico queira conhecer um destino diferente, experimentar uma gastronomia nova ou realizar uma atividade cultural, mas também valorize uma hospedagem confortável, transporte confiável e uma organização mínima da viagem.
Por isso, pode:
- visitar destinos populares;
- procurar experiências culturais;
- utilizar hotéis convencionais;
- contratar passeios locais;
- combinar atividades previamente planejadas com períodos livres;
- experimentar novidades sem abrir mão de determinado nível de conforto.
Um exemplo seria o viajante que visita uma cidade europeia pela primeira vez, conhece seus principais monumentos e museus, mas também procura bairros menos turísticos, restaurantes locais e experiências culturais.
🔄 Os perfis intermediários
A proposta de Plog não precisa ser interpretada como uma divisão rígida entre apenas três tipos de turistas.
Entre os polos psicocêntrico e alocêntrico existem diferentes graus de comportamento.
Por isso, também aparecem na literatura referências aos chamados semipsicocêntricos e semi-alocêntricos, que representam posições intermediárias.
Um viajante pode, por exemplo, demonstrar características alocêntricas em viagens de aventura e, em outra situação, apresentar comportamento mais psicocêntrico ao viajar com crianças, pessoas idosas ou grupos que necessitam de maior previsibilidade.
Dessa forma, o comportamento turístico pode mudar conforme o contexto.
📈 Plog e o desenvolvimento dos destinos turísticos
Uma das aplicações mais conhecidas das ideias de Plog está relacionada à possível relação entre perfil dos visitantes e desenvolvimento dos destinos turísticos.
Em uma interpretação simplificada do modelo, destinos inicialmente pouco conhecidos podem despertar interesse de viajantes mais dispostos à novidade e à descoberta.
Com o aumento da divulgação e da infraestrutura, o destino pode começar a receber um público mais amplo.
Posteriormente, se ocorrer intensa comercialização e padronização da oferta, o destino poderá atrair principalmente visitantes que valorizam infraestrutura consolidada, segurança e previsibilidade.
Entretanto, é importante fazer uma ressalva: Esse processo não deve ser confundido com uma lei obrigatória do turismo.
Nem todo destino passa necessariamente por todas essas etapas, e o comportamento dos visitantes é influenciado por inúmeros fatores econômicos, culturais, ambientais, tecnológicos e políticos.
🗺️ O ciclo de desenvolvimento turístico associado à interpretação de Plog
A relação entre a tipologia de Plog e a evolução dos destinos pode ser apresentada didaticamente em quatro momentos.
1. Descoberta — maior presença de perfis alocêntricos
O destino ainda possui pouca infraestrutura turística e é relativamente desconhecido.
Viajantes interessados em descoberta podem chegar primeiro, aceitando determinadas limitações de infraestrutura em troca da experiência de conhecer um lugar diferente.
2. Desenvolvimento — aproximação dos perfis intermediários
O destino começa a ganhar visibilidade.
Surgem novas hospedagens, restaurantes, serviços de transporte, atrativos estruturados e ações de divulgação.
O público aumenta e o destino passa a receber visitantes que procuram uma combinação entre novidade e conforto.
3. Consolidação — expansão do turismo
O destino torna-se conhecido e passa a integrar circuitos turísticos convencionais.
Empresas maiores podem entrar no mercado, a infraestrutura é ampliada e determinados serviços começam a ser padronizados.
O destino passa a receber um público cada vez mais diversificado.
4. Saturação, transformação ou rejuvenescimento
Se o crescimento ocorrer sem planejamento, podem aparecer problemas relacionados a superlotação, pressão ambiental, descaracterização cultural, aumento dos preços, congestionamentos e perda da qualidade da experiência turística.
Nesse cenário, políticas de planejamento e gestão podem buscar o chamado rejuvenescimento do destino, por meio da diversificação da oferta, qualificação dos serviços, recuperação ambiental, valorização cultural e criação de novas experiências.
🌱 Turismo sustentável e a teoria de Plog
A leitura contemporânea de Plog pode contribuir para discutir um tema fundamental: como desenvolver um destino sem destruir aquilo que atrai os visitantes?
Um local que recebe turistas interessados em natureza, cultura e autenticidade pode perder justamente esses elementos se o crescimento ocorrer sem planejamento.
Por isso, o desenvolvimento turístico precisa considerar:
- capacidade de suporte;
- conservação ambiental;
- proteção do patrimônio cultural;
- participação das comunidades;
- distribuição dos benefícios econômicos;
- qualificação profissional;
- mobilidade;
- infraestrutura;
- gestão de resíduos;
- ordenamento territorial;
- acessibilidade;
- segurança;
- qualidade da experiência turística.
Nesse sentido, compreender os diferentes perfis de visitantes pode ajudar o destino a planejar produtos turísticos diversificados sem transformar toda a oferta em turismo de massa.
🎯 Aplicação da tipologia no marketing turístico
A classificação de Plog também pode ser utilizada como uma ferramenta de segmentação de mercado.
Entretanto, o marketing contemporâneo não deve simplesmente colocar uma pessoa em uma categoria permanente.
O mais adequado é identificar necessidades e comportamentos específicos em cada viagem.
🧳 Marketing para turistas com características psicocêntricas
Para consumidores que valorizam previsibilidade, segurança e conforto, podem ser relevantes mensagens relacionadas a:
- facilidade;
- segurança;
- organização;
- conforto;
- serviços incluídos;
- assistência durante a viagem;
- hotéis conhecidos;
- transporte organizado;
- roteiros estruturados.
Pacotes completos, por exemplo, podem atender a pessoas que desejam reduzir a necessidade de organizar individualmente cada etapa da viagem.
🧭 Marketing para turistas com características alocêntricas
Para consumidores mais interessados em descoberta, podem funcionar propostas relacionadas a:
- autenticidade;
- experiências locais;
- natureza;
- aventura;
- cultura;
- gastronomia regional;
- destinos emergentes;
- comunidades locais;
- roteiros personalizados;
- experiências fora dos circuitos convencionais.
Nesse caso, o produto turístico pode enfatizar a experiência e a descoberta, em vez de apresentar apenas uma lista de atrações.
⚖️ Marketing para turistas com características mesocêntricas
Para o público intermediário, podem ser interessantes propostas que combinem conforto, segurança e experiências diferenciadas.
Um roteiro pode, por exemplo, incluir:
hotel confortável + transporte organizado + experiências culturais + tempo livre + gastronomia local.
Essa combinação permite que o visitante tenha uma estrutura básica de segurança sem abrir mão da possibilidade de explorar o destino.
📱 A teoria de Plog na era das redes sociais
O comportamento turístico mudou significativamente desde que Plog desenvolveu sua teoria.
Atualmente, redes sociais, plataformas de avaliação, vídeos, blogs, influenciadores, aplicativos de mapas e sistemas de reservas podem transformar rapidamente um destino desconhecido em um lugar de grande visibilidade.
Um local que antes levaria anos para alcançar reconhecimento pode tornar-se conhecido em poucos meses devido à circulação de imagens e vídeos na internet.
Isso também cria novos desafios. Um destino que se torna viral pode receber um número de visitantes muito superior à sua capacidade de infraestrutura.
Por isso, marketing turístico e planejamento turístico precisam caminhar juntos.
📊 Plog não é uma classificação definitiva do turista
É importante evitar uma interpretação simplista segundo a qual determinada pessoa seria permanentemente psicocêntrica, mesocêntrica ou alocêntrica.
O comportamento pode mudar conforme: destino + objetivo da viagem + idade + experiência + orçamento + companhia + segurança + tempo disponível + condições de infraestrutura.
Uma mesma pessoa pode viajar para um resort durante as férias com a família e, em outra ocasião, realizar uma viagem independente de aventura.
Portanto, a tipologia funciona melhor como instrumento de análise do comportamento turístico do que como uma etiqueta permanente para classificar indivíduos.
🧠 Por que estudar Plog nos fundamentos do turismo?
A importância da teoria está justamente em mostrar que não existe um único tipo de turista.
Existem viajantes que procuram segurança, outros que buscam descoberta e muitos que transitam entre esses extremos.
Para profissionais de turismo, compreender essas diferenças pode contribuir para:
- desenvolver produtos turísticos;
- segmentar mercados;
- elaborar roteiros;
- planejar campanhas de comunicação;
- estruturar experiências;
- qualificar serviços;
- compreender expectativas;
- reduzir conflitos entre oferta e demanda;
- planejar destinos turísticos.
Para gestores públicos, a análise também pode ajudar na elaboração de políticas de turismo mais diversificadas e sustentáveis.
🌎 Da descoberta à sustentabilidade
A contribuição de Plog permanece relevante porque permite refletir sobre uma questão essencial:
o que acontece quando um destino que nasceu como descoberta se transforma em produto turístico de massa?
A resposta não precisa ser necessariamente o abandono do turismo.
O caminho pode estar no planejamento, na diversificação da oferta, na valorização das comunidades, na proteção ambiental, na preservação cultural e na gestão responsável do fluxo de visitantes.
Um destino pode crescer sem perder sua identidade, desde que o desenvolvimento turístico seja acompanhado por planejamento territorial e gestão.
🏛️ Aplicação na gestão pública do turismo
Para secretarias municipais e órgãos de gestão turística, conhecer a diversidade dos perfis de visitantes pode ajudar na construção de políticas públicas.
Em vez de trabalhar exclusivamente para aumentar o número de visitantes, o planejamento pode perguntar:
- Que tipo de visitante queremos receber?
- Qual experiência queremos oferecer?
- Qual impacto esse visitante produzirá no território?
- Como os benefícios econômicos poderão alcançar a comunidade local?
- Qual é a capacidade de suporte ambiental e cultural do destino?
Essas perguntas ajudam a deslocar o foco de uma visão puramente quantitativa — “quanto mais turistas, melhor” — para uma perspectiva de qualidade, sustentabilidade, governança e geração de benefícios para o território.
🌿 Turismo, território e experiência
A teoria de Plog também pode ser relacionada ao conceito contemporâneo de experiência turística.
O visitante não compra apenas transporte, hospedagem ou alimentação. Ele procura experiências que correspondam às suas expectativas.
Por isso, destinos diferentes podem atender a públicos diferentes.
Um território pode oferecer simultaneamente:
turismo de natureza + turismo cultural + turismo de aventura + turismo gastronômico + turismo de base comunitária + turismo de sol e praia.
A diversificação permite que diferentes perfis encontrem experiências compatíveis com seus interesses, reduzindo também a concentração de visitantes em poucos atrativos.
📚 Síntese: Psicocêntrico, mesocêntrico e alocêntrico
De maneira resumida, podemos compreender o modelo de Plog da seguinte forma:
🧳 Psicocêntrico: maior preferência por segurança, familiaridade, conforto e previsibilidade.
⚖️ Mesocêntrico: procura equilibrar novidade e segurança, combinando experiências diferentes com infraestrutura conhecida.
🧭 Alocêntrico: apresenta maior disposição para descoberta, novidade, independência e experiências pouco convencionais.
Entre esses três pontos existe um continuum de comportamentos, e não fronteiras rígidas.
🎓 Conclusão
A tipologia de Stanley Plog continua sendo uma referência importante para compreender o comportamento turístico porque chama atenção para a diversidade das motivações dos viajantes.
O turista não é apenas um consumidor que se desloca de um lugar para outro. Ele possui expectativas, valores, experiências anteriores, níveis diferentes de tolerância à novidade e diferentes necessidades de segurança e conforto.
Compreender essas características pode ajudar profissionais, empresas e gestores públicos a desenvolver produtos turísticos mais adequados, experiências mais qualificadas e estratégias de planejamento mais responsáveis.
Mais importante ainda é compreender que os destinos também se transformam.
Quando um lugar cresce, sua relação com os visitantes muda. Quando a oferta turística se transforma, o perfil dos visitantes pode mudar. E quando o território é planejado de maneira responsável, o turismo pode contribuir para a conservação ambiental, a valorização cultural e o desenvolvimento econômico local.
Assim, estudar Plog não significa simplesmente descobrir “qual tipo de turista você é”. Significa compreender como pessoas, destinos, experiências e mercados se relacionam dentro do complexo sistema turístico.
📖 Referência fundamental
- PLOG, Stanley C. Why destination areas rise and fall in popularity. Cornell Hotel and Restaurant Administration Quarterly, v. 14, n. 4, 1974.
O trabalho de Plog é uma das referências clássicas para o estudo da relação entre características psicográficas dos viajantes e popularidade dos destinos turísticos.
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Na sua experiência profissional ou como viajante, você se identifica mais com o perfil psicocêntrico, mesocêntrico ou alocêntrico — e por quê? 🔰




