O ato aparentemente inocente de comprar algumas postas de cação na peixaria pode piorar ainda mais a situação de espécies brasileiras de tubarões e arraias. A carne que chega à mesa do consumidor muitas vezes esconde uma realidade drástica sobre a preservação dos nossos oceanos.
Por ..:: Renato Marchesini / Biólogo e Mestre em Ciências.

🧬 O DNA como Identidade Contra o Crime Ambiental
Identificações genéticas indicam que animais ameaçados estão chegando aos mercados sem que ninguém perceba. Pior ainda, essas espécies também estão alimentando o mercado internacional de barbatanas, um dos principais responsáveis pelo declínio populacional desses predadores nos oceanos.
Como a identificação visual é quase impossível, o uso de ferramentas genéticas tornou-se essencial. Frequentemente, o animal é retalhado ainda em alto-mar, com a retirada da cabeça e das nadadeiras, justamente para dificultar o reconhecimento pelas autoridades. Através do “código de barras de DNA”, agora é possível identificar com precisão a origem de cada posta de peixe vendida.
🦈 A Fraude das Barbatanas e do Tubarão-Martelo
Testes realizados em carregamentos apreendidos no Pará revelaram uma grave “malandragem” na rotulagem. Embora a declaração oficial afirmasse conter apenas espécies permitidas, as análises de laboratório mostraram uma realidade bem mais sombria.
As amostras continham cerca de 10% de barbatanas de tubarão-martelo e tubarão-raposa, ambos com captura terminantemente proibida. Essa prática tenta burlar a fiscalização para exportar produtos de alto valor, colocando em risco predadores que são essenciais para o equilíbrio do ecossistema marinho.
🎻 A Arraia-Viola Disfarçada de Cação
Outro ponto alarmante envolve a arraia-viola (Rhinobatos horkelii). Este animal está criticamente ameaçado e existe apenas no litoral do Brasil e da Argentina. Ao investigar o comércio em portos da Bahia ao Rio Grande do Sul, descobriu-se que, embora o comércio da espécie seja negado, os dados genéticos provam o contrário.
Em diversos locais, mais da metade das amostras vendidas como “cação” eram, na verdade, arraia-viola. Em certas regiões, 100% dos espécimes analisados pertenciam a essa espécie ameaçada. O Ibama possui planos para integrar esses métodos de análise à fiscalização rotineira, visando impedir que o consumidor continue comprando gato por lebre — ou melhor, espécie extinta por cação.
💬 Espaço do Leitor: 🔰 Diante dessa falta de transparência no mercado, você se sente seguro ao comprar peixe sem saber a espécie exata que está consumindo? 🔰


