Em 5 de maio de 1909, Santos viveu um importante acontecimento com a inauguração da Escola de Aprendizes-Marinheiros do Estado de São Paulo, na Ponta da Praia. Entre as autoridades presentes estavam o Presidente da República Affonso Penna e o Ministro da Marinha Alexandrino de Alencar, que chegaram a bordo do Cruzador Almirante Barroso.
O imponente edifício, construído para formar jovens para a vida marítima, ocupa um lugar especial na história santista. Antes dele, a área havia sido utilizada por uma antiga fortificação militar, o Forte Augusto. Décadas depois, o mesmo prédio seria transformado em uma instituição dedicada à pesca, à pesquisa, à educação e à divulgação científica, tornando-se o atual Museu de Pesca de Santos.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio e Mestre em Ciências.
📷 Foto antiga de 1909: A inauguração da Escola de Aprendizes Marinheiros
A fotografia histórica registra um momento relacionado à inauguração da Escola de Aprendizes Marinheiros de Santos, em 1909.
Foto Antiga de 1909: Na Inauguração da Escola de Aprendizes de Marinheiros de Santos (hoje Museu de Pesca).
Entre as autoridades que participaram da solenidade estavam o Presidente da República Affonso Penna e o Ministro da Marinha Alexandrino de Alencar.
Os dois chegaram a Santos a bordo do Cruzador Almirante Barroso, transformando a inauguração em um acontecimento de grande importância política e militar para a cidade.
A escola funcionaria em um edifício especialmente construído na Ponta da Praia, área estratégica junto ao canal de acesso ao porto e ao estuário de Santos.
🏛️ A Escola de Aprendizes-Marinheiros
O edifício foi construído entre 1905 e 1908 e inaugurado em 5 de maio de 1909 para abrigar a Escola de Aprendizes-Marinheiros do Estado de São Paulo.
A instituição tinha como objetivo proporcionar aos jovens instrução primária e formação relacionada à marinharia, preparando-os, em princípio, para o aproveitamento como marinheiros da Armada Nacional.

Foto Antiga da Escola de Aprendizes Marinheiros em Santos SP – Santos – Década de 1910.
A escola era considerada uma instituição singular no estado de São Paulo e permaneceu funcionando até 1931, quando foi extinta por determinação do Governo Federal.
🏰 Antes da escola: O antigo Forte Augusto
A história daquele espaço, porém, é muito mais antiga.
Antes da construção do atual edifício, a Ponta da Praia abrigava o Forte Augusto, uma fortificação que entrou em atividade a partir de 1734.
O forte também aparece associado às denominações de Forte da Trincheira, Forte da Estacada ou Fortaleza do Castro.
Sua posição era estratégica: localizado à beira-mar, o Forte Augusto participava do sistema defensivo da entrada do estuário e do canal de Santos, estabelecendo comunicação de fogo com a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, situada do outro lado do canal, na então Ilha de Santo Amaro.
Tratava-se, segundo o material, de uma estrutura relativamente simples, constituída por uma muralha de pedra equipada com peças de artilharia.
Com o passar do tempo, entretanto, o forte entrou em decadência e acabou em ruínas. No final do século XIX, já desativado como fortificação, ainda teria sido utilizado como depósito de material bélico.
⚓ A Ponta da Praia ganha uma nova função
Apesar da decadência do antigo forte, a localização privilegiada da área junto ao mar continuava sendo estratégica.
Foi justamente essa posição que contribuiu para a escolha do terreno para a construção da Escola de Aprendizes-Marinheiros do Estado de São Paulo.
Sob a tutela da Marinha, foi erguido um imponente edifício de arquitetura eclética, inaugurado em 5 de maio de 1909.
A instituição permaneceu em funcionamento por mais de duas décadas, até 1931, quando foi extinta pelo Governo Federal.
🎣 Escola de Pesca e Instituto de Pesca Marítima
Com o encerramento das atividades da Escola de Aprendizes-Marinheiros, o edifício passou para o Governo do Estado de São Paulo.
O espaço passou então a abrigar a Escola de Pesca, que já funcionava no Guarujá desde 1928.
Em 1932, a instituição passou a denominar-se Instituto de Pesca Marítima, e, em 1933, o instituto foi transferido para o grande edifício da Ponta da Praia, em Santos.
A escola oferecia aos filhos de pescadores da região educação gratuita, por meio de cursos vocacionais e profissionais relacionados à atividade pesqueira.
Essa nova utilização do prédio estabeleceu uma ligação direta entre o patrimônio arquitetônico, a formação profissional e a própria tradição pesqueira do litoral paulista.
🔬 O Gabinete de História Natural
A história do Museu de Pesca começou a ganhar forma dentro do próprio Instituto de Pesca Marítima.
Um Gabinete de História Natural, originalmente ligado à Escola de Pesca e vindo do Guarujá, passou a reunir materiais relacionados à fauna e ao ambiente marinho.
Inicialmente, o acervo cresceu de maneira pouco sistematizada, sendo formado principalmente por doações, materiais coletados e trabalhos produzidos por funcionários da instituição.
No começo, os objetos ficavam concentrados em apenas uma sala localizada na parte superior do prédio.
Em 1936, o material passou para uma sala maior da mesma ala, onde foram improvisadas estantes. Em 1939, essas estantes foram substituídas por armários considerados mais adequados para a conservação e organização do acervo.
🐋 1942: A chegada da famosa baleia
Um dos momentos mais importantes da história do futuro Museu de Pesca aconteceu em 1942.
Naquele ano, foi montado o esqueleto de uma baleia que havia encalhado no litoral paulista.
O material apresenta a informação de que o exemplar havia encalhado em uma praia de Peruíbe, no litoral sul do estado de São Paulo.
Para permitir a exposição da enorme estrutura óssea, foram retiradas as paredes divisórias de três salas.
Outras áreas do Gabinete de História Natural também foram ampliadas para receber coleções de conchas, corais, peixes, aves marinhas e outros exemplares.
Foi nesse contexto que o Gabinete passou a assumir uma verdadeira vocação museológica, recebendo, em 1942, a denominação de Museu.
A grande ossada de baleia se tornaria, ao longo das décadas, um dos principais símbolos do Museu de Pesca de Santos.
🔥 O incêndio de 1948
Em 29 de junho de 1948, um incêndio atingiu o edifício posterior do Instituto de Pesca Marítima.
O acidente provocou a necessidade de transferência temporária dos serviços da instituição para as salas de exposição do Museu.
A concentração de materiais em espaços que não haviam sido preparados para receber aquele volume de objetos provocou perdas e destruição de peças importantes do acervo.
Durante o período de reorganização do Instituto, o Museu acabou permanecendo desativado por algum tempo.
🐟 1950: Nasce oficialmente o Museu de Pesca
Com o passar do tempo, tornou-se necessário estabelecer uma finalidade mais clara para a instituição.
O antigo Gabinete de História Natural reunia materiais bastante variados, incluindo aves marinhas e terrestres, mamíferos, jacarés, lagartos e outros exemplares, refletindo sua origem mais ligada ao ensino de história natural.
Em 6 de fevereiro de 1950, foi instituído oficialmente o Museu de Pesca, com objetivos técnico-culturais e turísticos, relacionados às finalidades do órgão ao qual estava subordinado.
Essa data representa um marco fundamental na trajetória da instituição.
👤 A homenagem a Manoel do Nascimento Júnior
Em 29 de junho de 1966, durante as comemorações do Dia do Pescador, o médico veterinário Joaquim Ribeiro de Moraes, diretor do Instituto de Pesca Marítima entre 1950 e 1960, inaugurou no Museu um retrato de Manoel do Nascimento Júnior.
A homenagem reconhecia sua atuação por meio do jornal A Tribuna, de Santos, em defesa da pesca, da cidade e do Instituto de Pesca Marítima.
A partir daquela solenidade, o Museu passou a ser chamado, oficiosamente, de “Museu de Pesca Manoel do Nascimento Júnior”.
O próprio material ressalta, entretanto, que não foi localizado documento que comprove oficialmente essa denominação, permanecendo como uma curiosidade histórica.
🧪 1969 e 1972: Novas mudanças institucionais
Em 1969, o Instituto de Pesca Marítima passou a integrar o recém-criado Instituto de Pesca, que possuía unidades em diferentes cidades do estado.
O Instituto de Pesca Marítima passou então a denominar-se Divisão de Pesca Marítima (DPM).
O Museu passou a constituir uma unidade administrativa dentro da estrutura da DPM.
Em 1972, foram acrescentados dois anexos ao conjunto: um auditório e um laboratório de taxidermia.
🏗️ A restauração do prédio histórico
Desde a inauguração, em 1909, o prédio havia passado por diversas alterações em seu projeto original.
No início da década de 1970, o Governo do Estado decidiu realizar uma restauração com o objetivo de recuperar características originais da construção.
Entre as intervenções destacadas estavam a reconstrução de uma das escadas laterais em caracol, que havia sido retirada, e a recuperação das janelas do andar superior, anteriormente substituídas por vitrôs.
A restauração foi realizada entre 1974 e 1978, período em que o Museu permaneceu fechado.
🏛️ O tombamento pelo CONDEPHAAT
A arquitetura do edifício é classificada como eclética, justamente por reunir características provenientes de diferentes estilos arquitetônicos.
A importância histórica e arquitetônica do imóvel levou ao início, em setembro de 1986, do processo de tombamento junto ao CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo.
O processo foi concluído posteriormente, com o tombamento oficial do imóvel pela Resolução SC-40, publicada no Diário Oficial do Estado em 7 de abril de 1998.
O tombamento representa um reconhecimento institucional do valor cultural do edifício e contribui para sua preservação como parte da memória arquitetônica e histórica de Santos.
🐜 1987: Uma nova interdição
Poucos anos depois da restauração, o Museu enfrentou outro período crítico.
Em 5 de fevereiro de 1987, um laudo técnico apresentado pelo Corpo de Bombeiros, posteriormente corroborado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), levou à interdição do prédio para visitação pública.
Entre os problemas identificados estavam danos provocados por cupins, que comprometeram estruturas do vigamento do telhado dos sanitários e do edifício principal.
Problemas relacionados à cobertura acabaram atingindo também pisos e outras estruturas, mantendo o Museu afastado do público por aproximadamente onze anos.
🔨 1988 a 1998: Uma longa recuperação
A partir de 1988, foram iniciadas novas obras de restauração.
Os trabalhos se prolongaram durante anos e impediram que a população tivesse acesso ao que era considerado um dos mais importantes espaços museológicos de Santos.
Em 1996, a reforma passou a ser considerada uma prioridade governamental, e as obras foram retomadas por meio da Secretaria de Agricultura e Abastecimento.
Durante todo esse período, a equipe do Museu também buscou recursos junto ao Governo e à iniciativa privada para viabilizar a recuperação do patrimônio.
🎉 30 de junho de 1998: O Museu volta a receber visitantes
Depois de mais de onze anos afastado do público, o prédio do Museu de Pesca teve sua reforma concluída em 30 de junho de 1998.
A recuperação procurou respeitar as características originais da construção, especialmente importantes por se tratar de um imóvel tombado pelo CONDEPHAAT.
Com a conclusão das obras, o Museu foi novamente aberto à visitação, apresentando um novo projeto de exposições.
🎓 Educação, pesquisa e divulgação científica
Ao longo de sua história, o Museu de Pesca também desenvolveu importante trabalho de educação não formal e divulgação científica.
Até o final da década de 1980, seu Serviço Educativo promovia atividades para crianças, jovens e professores, incluindo cursos, palestras, orientação para pesquisas escolares, estudos do meio e atividades relacionadas à observação do ambiente marinho e de seus habitantes.
Também funcionava no local o Laboratório de Taxidermia e Técnicas Afins, voltado à manutenção e ampliação do acervo e à formação de pessoas interessadas nessa área.
🌊 Um patrimônio ligado ao mar, à pesca e à ciência
O Museu de Pesca possui uma importância que ultrapassa a preservação de objetos históricos.
Sua trajetória reúne diferentes capítulos da história de Santos: a defesa militar da costa, a formação de marinheiros, a atividade pesqueira, a pesquisa científica, a educação ambiental, a conservação de coleções e o turismo cultural.
O próprio histórico da instituição destaca sua importância como veículo de divulgação científica nas áreas de pesca e aquicultura, além de seu papel como atração turística.
🐋 A baleia como símbolo da memória do Museu
Entre tantas peças e coleções reunidas ao longo das décadas, a ossada da baleia permanece como uma das imagens mais marcantes associadas ao Museu.
Sua montagem, em 1942, provocou uma transformação significativa no espaço físico do Gabinete de História Natural, exigindo a abertura de três salas para acomodar a enorme estrutura.
Além da baleia, o acervo passou a reunir exemplares de conchas, corais, peixes e aves marinhas, criando um conjunto voltado à compreensão da biodiversidade e dos ambientes aquáticos.
🏙️ Um lugar que conta várias histórias de Santos
Poucos espaços de Santos conseguem reunir, em um mesmo endereço, tantos períodos diferentes da história da cidade.
Ali esteve o Forte Augusto, relacionado à defesa do estuário e do canal.
Depois veio a Escola de Aprendizes-Marinheiros, dedicada à formação de jovens para a vida naval.
Na sequência, o prédio esteve ligado à Escola de Pesca e ao Instituto de Pesca Marítima, aproximando a instituição da realidade econômica e cultural das comunidades pesqueiras.
Finalmente, consolidou-se como Museu de Pesca, reunindo patrimônio, ciência, educação, memória e turismo.
Por isso, conhecer sua história é também compreender parte da própria evolução de Santos como cidade portuária, marítima e pesqueira.
📚 Uma história que ainda precisa ser preservada
A trajetória do Museu de Pesca não se resume ao prédio, às coleções ou à famosa ossada de baleia.
Existe uma história formada por profissionais, pesquisadores, educadores, pescadores, estudantes, visitantes e servidores que ajudaram a construir a identidade da instituição ao longo de décadas.
O material histórico destaca justamente a necessidade de recuperar esses diferentes capítulos, incluindo documentos e memórias daqueles que participaram da vida do Museu.
Preservar essas lembranças é fundamental para que futuras gerações possam compreender o significado desse patrimônio para Santos, para a Baixada Santista e para a história da relação entre sociedade, mar e pesca.
🏛️ Museu de Pesca: Patrimônio histórico, cultural e turístico
O edifício do Museu de Pesca é, portanto, muito mais do que uma construção histórica na Ponta da Praia.
Ele representa diferentes camadas da história santista, desde a antiga defesa militar até a formação de marinheiros, a profissionalização da atividade pesqueira, a pesquisa científica e a criação de um espaço de educação e cultura.
Seu tombamento pelo CONDEPHAAT reforça a necessidade de preservação desse patrimônio.
Para os Roteiros de Turismo Históricos e Culturais em Santos, o Museu de Pesca constitui uma referência fundamental, pois permite ao visitante interpretar a cidade a partir de sua relação histórica com o mar, o porto, a pesca, a ciência e a ocupação do território.
📅 Linha do tempo do local
1734 – Entrada em atividade do Forte Augusto, antiga fortificação da Ponta da Praia.
1905–1908 – Construção do edifício destinado à Escola de Aprendizes-Marinheiros.
5 de maio de 1909 – Inauguração da Escola de Aprendizes-Marinheiros do Estado de São Paulo.
1931 – Encerramento das atividades da Escola de Aprendizes-Marinheiros.
1932 – O prédio passa a sediar a Escola de Pesca e recebe nova configuração institucional.
1933 – Transferência do Instituto de Pesca Marítima para o edifício de Santos.
1936 – Ampliação do espaço utilizado pelo Gabinete de História Natural.
1939 – Substituição das antigas estantes por armários mais adequados.
1942 – Montagem da ossada da baleia e transformação do Gabinete de História Natural em Museu.
29 de junho de 1948 – Incêndio no edifício posterior do Instituto de Pesca Marítima.
6 de fevereiro de 1950 – Instituição oficial do Museu de Pesca.
29 de junho de 1966 – Homenagem a Manoel do Nascimento Júnior.
1969 – O Museu passa a integrar a estrutura administrativa do Instituto de Pesca.
1972 – Construção/implantação de novos anexos, incluindo auditório e laboratório de taxidermia.
1974–1978 – Grande restauração do edifício histórico.
1986 – Início do processo de tombamento pelo CONDEPHAAT.
5 de fevereiro de 1987 – Interdição do Museu para visitação pública.
1988 – Início de novas obras de restauração.
1996 – Retomada das obras como prioridade governamental.
7 de abril de 1998 – Publicação do tombamento oficial pela Resolução SC-40.
30 de junho de 1998 – Conclusão da reforma e reabertura do Museu à visitação.
📖 Fontes e referências do material
O texto-base reúne informações históricas provenientes de diferentes referências e registros, incluindo documentação relacionada ao Museu de Pesca, Instituto de Pesca, CONDEPHAAT e estudos históricos sobre Santos.
Como há no material diferenças pontuais de datas e denominações, especialmente em relação ao período de transformação do Gabinete de História Natural em Museu e à cronologia da Escola de Pesca, essas informações devem ser confrontadas com documentação institucional e fontes primárias em uma pesquisa histórica mais aprofundada.
🌎 Roteiros de Turismo Históricos e Culturais
Um patrimônio que permite compreender diferentes momentos da história de Santos e sua relação permanente com o mar, a pesca, a ciência, a educação e o turismo cultural. Para Roteiros de Turismo Históricos e Culturais em Santos – SP / R9 Turismo
💬 Espaço do Leitor: 🔰 Você já visitou o Museu de Pesca de Santos e sabia que o local foi construído sobre as ruínas de uma antiga fortificação militar? 🔰



