O patrimônio histórico é muito mais do que um conjunto de edificações antigas: Ele representa a memória, a identidade e as histórias que ajudam a compreender a formação de uma sociedade. Em São Vicente, a luta pela preservação do chamado “Museu dos Escravos” representa justamente o esforço de manter viva uma importante referência relacionada à memória e às tradições afrodescendentes.
Ao longo dos anos, cidadãos, pesquisadores, entidades e movimentos sociais se mobilizaram em defesa desse patrimônio, buscando seu reconhecimento, tombamento e preservação. O tombamento foi uma importante conquista, mas a luta não terminou. A recuperação, revitalização e restauração do espaço continuam sendo desafios fundamentais para que esse patrimônio possa ser valorizado e utilizado como espaço de cultura, educação, memória e reflexão.
Neste contexto, relembramos uma das mobilizações realizadas em 2013, que buscava reunir pessoas e forças em torno da revitalização do Museu dos Escravos e da preservação de suas tradições. Mais do que recordar uma reunião, trata-se de registrar parte de uma trajetória de luta pela valorização do patrimônio cultural e pela preservação da memória afrodescendente em São Vicente.
Fonte..: Jornal A Tribuna, Quinta-feira 23 outubro de 2014. Abaixo Transcrição:
A-12 | Cidades | A TRIBUNA www.atribuna.com.br | Quinta-feira 23 outubro de 2014
..:: Museu dos Escravos reabre em janeiro
Reinauguração será na semana do aniversário de São Vicente. Situado no Parque Ecológico Voturuá, local está fechado há nove anos
Por..:: Victor Miranda / Fotos..:: Carlos Nogueira
O Museu dos Escravos já tem data para ser reaberto. Será na semana do aniversário de São Vicente, em janeiro de 2015. Fechado há nove anos, o equipamento, localizado dentro do Parque Ecológico Voturuá, está em fase final de restauração.
A expectativa da Prefeitura é de que as obras estejam concluídas até meados de novembro. Mas a Secretaria da Cultura – que passará a responder pelo local, tradicionalmente ligado à pasta de Turismo – informa não haver pressa para a reinauguração. Os dois meses entre o término dos trabalhos e a abertura ao público serão utilizados para ajustar o funcionamento do museu.
“É um espaço que ficou fechado por quase dez anos. Não temos motivos para acelerar em dois meses. É melhor fazermos um planejamento detalhado, para devolvê-lo ao público nas melhores condições possíveis”, afirma o secretário da Cultura, Amauri Alves. Em março deste ano, ele havia prometido que o museu não completaria uma década fechado.
Entre os ajustes que ainda precisam ser feitos, está a agenda cultural do local, que deve ser feita em conjunto com a comunidade. A exploração do espaço onde antes havia o restaurante Casa de Angola, conhecido pelas concorridas feijoadas de sábado, também estará em pauta. O espaço, uma área meação à casa de taipa original, está praticamente pronto e terá um deck para os visitantes comerem ou tomarem um café olhando para o parque.
..:: ARTE
Paralelamente à obra de recuperação da estrutura da casa de taipa e das esculturas nas paredes, as peças de Geraldo Albertini foram recuperadas por voluntários – muitos, ex-alunos do artista (veja destaque).
Os anos de descaso com o espaço, no entanto, foram implacáveis com o acervo. Se antes havia mais de 850 peças de cerâmica lembrando a história dos negros e os tempos de escravidão, hoje sobraram cerca de 150.
“Muita gente levou para casa. Alguns simplesmente para levar, outros porque viam o descaso e preferiam ter as peças em casa do que vê-las sendo destruídas. Por isso, vamos fazer uma campanha, pedindo que as pessoas que têm peças em casa as entreguem, para valorizarmos o acervo do museu”, diz Amauri Alves.
..:: REFORMA
Os trabalhos têm custo de R$ 300 mil, destinados ao Município em convênio firmado entre a Prefeitura e o Departamento de Apoio e Desenvolvimento das Estâncias (Dade). O maior desafio do projeto é a completa restauração e impermeabilização da fachada, formada por painéis em relevo, também de autoria de Geraldo Albertini.
Quem executou os serviços foi a empresa Spalla Engenharia, que diz ter utilizado sete galões de 18 litros de Jimo (tipo de inseticida) com querosene para matar os cupins na estrutura. A empresa avisa que a dedetização precisa ser refeita a cada meio ano, para evitar que o problema retorne.
Além da descupinização, o piso foi refeito, mantendo a característica rústica do lugar. O madeiramento do telhado foi reforçado e recebeu telhas, em vez de capim-sapé. Junto ao morro, nos fundos do museu, foi feita uma canaleta para escoar a água da chuva e da mina natural, para evitar infiltrações na edificação.
O imóvel onde está localizado o Museu dos Escravos é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Cultural e Turístico de São Vicente (Condephasv).
[Legenda da imagem principal]: Recuperação deve terminar em meados de novembro, mas Prefeitura quer elaborar uma agenda cultural
..:: Discípulo
O escultor Irineu Bacchi era um dos alunos mais aplicados de Geraldo Albertini. Após a morte do artista, ele assumiu as tarefas de conservação e restauração do acervo do Museu dos Escravos. Irineu liderou os trabalhos de recuperação das peças, entre 2012 e 2013, utilizando as mesmas técnicas do mestre. Com um brilho no olhar, falava com alegria sobre a reabertura do espaço. Irineu, porém, não estará presente à festa de janeiro: morreu há meses.
..:: Protesto foi marco para a recuperação do espaço
Em 30 de outubro de 2012, cerca de 30 pessoas ligadas a movimentos negros, culturais, turísticos e de defesa do patrimônio histórico estiveram no Parque Ecológico Voturuá para protestar em favor da restauração do Museu dos Escravos.
A mobilização foi fundamental para que o projeto saísse do papel e, principalmente, para que o prefeito Tércio Garcia (PSB) assinasse o pedido de tombamento da estrutura.
Praticamente dois anos depois, o grupo celebra a reta final das obras. O símbolo da luta é um dendezeiro (pé de dendê), plantado defronte ao museu em 20 de novembro de 2012, Dia da Consciência Negra. O que era uma muda de 15 centímetros hoje é uma palmeira com mais de um metro.
“As obras nas paredes deste lugar são fantásticas, retratando as mais variadas atuações do negro na história do Brasil. São escravos, capitães do mato e tantos outros que ajudaram a construir o País”, diz o historiador Flávio Viana Barbosa.
Ligado ao setor turístico, Renato Marchesini destaca que equipamentos como esse são fundamentais para a preservação da memória e da cultura negra. “Na Baixada Santista, este é o único espaço público que temos voltado a esse fim. Isso é um orgulho enorme para a Cidade. Quem vem de fora pode ver que há consciência da importância dos negros na formação do Brasil”.
Segundo o administrador do Parque Ecológico Voturuá, Ilton Chinha, “é importante essa reabertura, por ser uma atração a mais que temos. Para os pais, é uma oportunidade de ensinar seus filhos sobre a formação do nosso povo”, comenta.
[Legenda da foto secundária]: Marchesini e Viana celebram retomada da memória negra na Cidade
📚Saiba mais sobre a luta pela revitalização do Museu e suas tradições
- Museu dos Escravos é tombado – desafio é recuperar o patrimônio! A luta continua!!!! AQUI
- Ato de Cidadania SOS Museu dos Escravos – Tombamento Museu dos Escravos – São Vicente SP AQUI
- Campanha SALVE o Museu dos Escravos de São Vicente – está abandonado! AQUI
- Onde estão as obras do artista Geraldo Albertine???? Museu dos Escravos – São Vicente / SP AQUI
- Aqui está a mobilização por Facebook AQUI
- Grupo Facebook – Vamos Salvar o Museu dos Escravos AQUI



