A fotografia registra uma Ponta da Praia, em Santos (SP), durante a década de 1950, quando a região ainda conservava características muito diferentes da paisagem urbana que conhecemos atualmente. Na imagem, destacam-se barcos de madeira junto à margem e a presença de pescadores, revelando a forte relação da comunidade local com o mar e com a atividade pesqueira.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio e Mestre em Ciências.

🛶 A Ponta da Praia dos pescadores
Na década de 1950, a Ponta da Praia ainda apresentava uma paisagem predominantemente horizontal, com moradias simples, áreas abertas, chácaras, pescadores e embarcações de pequeno porte.
A fotografia atribuída ao fotógrafo Boris Kauffmann constitui, portanto, um importante registro visual de um período de transição. A região ainda estava distante da intensa verticalização que transformaria a orla santista nas décadas seguintes.
A própria Prefeitura de Santos registra que, entre as décadas de 1950 e 1960, o trecho atualmente associado à região do Aquário era considerado um bairro de pescadores, existindo fotografias daquele período que mostram moradores trabalhando com redes e barcos.
🌊 Um território marcado pelo mar
A localização geográfica sempre foi determinante para a formação da Ponta da Praia. Situada em uma das extremidades da Ilha de São Vicente, a área desenvolveu uma forte relação com o estuário, o mar, a pesca e as atividades portuárias.
Antes da urbanização mais intensa, o cenário era bastante diferente. Documentos históricos e estudos sobre a região registram a existência de pescadores, chácaras, clubes náuticos e estruturas relacionadas às atividades marítimas.
A pesca não era apenas uma atividade econômica: fazia parte do cotidiano e da identidade da comunidade.
Os barcos representados na fotografia provavelmente estavam relacionados a esse universo de pesca, transporte, manutenção de embarcações e comércio do pescado, atividades que durante muito tempo caracterizaram aquela parte de Santos.
🇯🇵 As chácaras e a presença da comunidade japonesa
Outro aspecto importante da história da Ponta da Praia é a presença da comunidade japonesa, especialmente ligada à agricultura e à pesca.
Durante a primeira metade do século XX, a região possuía diversas chácaras destinadas ao cultivo de hortaliças e outros produtos agrícolas. Famílias de imigrantes japoneses tiveram participação significativa na produção de alimentos que abasteciam Santos.
A agricultura e a pesca, portanto, conviviam na mesma paisagem. Essa combinação ajuda a compreender por que a Ponta da Praia dos anos 1940 e 1950 apresentava uma aparência muito mais rural do que a imagem que o bairro possui atualmente.
🎣 A pesca como identidade da Ponta da Praia
A fotografia de 1950 também ajuda a compreender uma característica que permaneceu associada ao bairro por muitas décadas: a vocação pesqueira.
Segundo registros históricos, a Ponta da Praia foi um dos principais redutos de pescadores artesanais da cidade, e parte dessa tradição permanece presente na região.
Com o passar dos anos, a atividade pesqueira ganhou novas estruturas, como o Mercado de Peixes, áreas de atracação e equipamentos relacionados ao comércio e à atividade pesqueira.
Assim, os barcos vistos na antiga fotografia não são apenas elementos da paisagem: representam uma etapa da formação econômica, social e cultural da Ponta da Praia.
📸 Boris Kauffmann e a memória fotográfica de Santos
A atribuição da fotografia a Boris Kauffmann também merece destaque.
O fotógrafo registrou Santos durante as décadas de 1940 e 1950, deixando um conjunto significativo de imagens relacionadas à cidade e à sua transformação. A Fundação Arquivo e Memória de Santos (FAMS) já apresentou exposições utilizando fotografias de Kauffmann, inclusive imagens das décadas de 1940 e 1950, contribuindo para preservar visualmente parte da história santista.
Suas fotografias possuem grande importância documental porque permitem observar ruas, praias, edificações, trabalhadores, embarcações e paisagens que posteriormente foram modificadas ou desapareceram.
🏙️ Da paisagem caiçara à urbanização
A Ponta da Praia passou por profundas transformações a partir da segunda metade do século XX.
A inauguração da Via Anchieta, em 1947, facilitou o acesso entre São Paulo e Santos e contribuiu para acelerar a ocupação urbana de diversas áreas da cidade, inclusive a Ponta da Praia. O aumento da procura por terrenos e a construção de novas residências modificaram progressivamente a paisagem.
A antiga região de chácaras, pescadores e ruas ainda pouco urbanizadas começou, gradualmente, a dar lugar a uma área residencial e turística mais estruturada.
Esse processo não ocorreu de maneira imediata. A fotografia de 1950 está justamente dentro desse período de transição, quando diferentes formas de ocupação ainda conviviam no território.
🏘️ A transformação do bairro
Embora a região já fosse habitada muito antes, a Ponta da Praia foi oficialmente reconhecida como bairro em 1967. Posteriormente, em 1977, ocorreu uma nova configuração territorial, quando a área do bairro Aparecida deixou de pertencer à Ponta da Praia.
A partir das décadas seguintes, a urbanização avançou rapidamente.
Casas, edifícios, avenidas, equipamentos turísticos e estruturas ligadas ao lazer passaram a ocupar espaços que anteriormente eram caracterizados por chácaras, terrenos abertos, pescadores e pequenas construções.
🧭 A memória que permanece
Mesmo diante de todas essas transformações, a ligação da Ponta da Praia com o mar permanece evidente.
Atualmente, a região reúne equipamentos como o Aquário Municipal, o Museu de Pesca, o Museu do Mar, o Museu Marítimo, o Mercado de Peixes e o Deck do Pescador, mantendo viva parte da relação histórica entre Santos e suas atividades marítimas.
Por isso, fotografias antigas como esta possuem enorme valor para o turismo histórico e cultural.
Elas permitem comparar a paisagem atual com aquela que existia há décadas e compreender como as relações entre território, trabalho, pesca, agricultura, cultura caiçara e urbanização contribuíram para construir a identidade santista.
📍 Roteiros de Turismo Histórico e Cultural
Conhecer a antiga Ponta da Praia é compreender uma parte importante da história de Santos.
O visitante que percorre atualmente o bairro pode encontrar vestígios de diferentes períodos históricos e perceber como uma antiga paisagem de pescadores, chácaras e atividades marítimas transformou-se em um dos espaços turísticos e residenciais mais conhecidos da cidade.
A fotografia de 1950 permite, portanto, realizar uma verdadeira viagem no tempo: da Ponta da Praia dos pescadores à Ponta da Praia contemporânea.
Para Roteiros de Turismo na Baixada Santista: www.r9turismo.com
💬 Espaço do Leitor: 🔰 Você ou alguém de sua família chegou a conhecer a Ponta da Praia nessa época? Que lembranças, histórias ou informações você poderia compartilhar sobre os antigos pescadores e as embarcações do bairro? 🔰


