Quando Ginzburg afirmou que não seria descabido prever que no futuro as trocas entre a historiografia italiana e a historiografia francesa seriam menos desiguais, ele não poderia ter sido mais certeiro. Com o advento da Micro História e a renovação historiográfica que a microanálise proporcionou a situação definitivamente mudou. Não demorou muito até que a historiografia francesa, outrora grande referência para os historiadores italianos, fosse seduzida pela metodologia proveniente da península itálica. Muito embora a influência italiana tenha sido apropriada pelos franceses a sua maneira, sobretudo a partir de trabalhos de historiadores como Jacques Revel, responsável, por exemplo, pela coletânea “Jogos de Escala”, parece claro que a abordagem micro histórica deixou marcas no campo intelectual francês.
Por..:: * Luís Rafael Araújo Corrêa

A Micro História, que inicialmente ocupava uma posição periférica inclusive na historiografia italiana, ganhou espaço e se espalhou pelo mundo na medida em que os estudos de seus principais idealizadores, Edoardo Grendi, Giovanni Levi e Carlo Ginzburg, repercutiram no meio acadêmico. Essa difusão, que se deu de forma crescente a partir da década de 1980, teve grande impacto sobre o fazer historiográfico, deixando heranças que até hoje se fazem sentir. Uma dessas marcas é a atenção dada a temas até então pouco estudados, com o uso de fontes documentais muito variadas, as quais são analisadas a partir de uma perspectiva que enfatiza o protagonismo dos indivíduos ao invés de sistemas normativos que determinariam o comportamento das pessoas.

No Brasil, a influência da Micro História teve um impacto muito significativo nas análises sobre a colonização portuguesa na América. E, neste sentido, fez-se presente inicialmente em estudos ligados à ação inquisitorial na colônia. Orientando-se sobretudo por Ginzburg e seu estudo sobre o moleiro italiano Menocchio, condenado pelo Santo Ofício por suas ideias heréticas, a historiografia brasileira concernente ao tema tem ido muito além da análise institucional da Inquisição, trazendo à tona diversos assuntos outrora inexplorados, como a feitiçaria, a sodomia, a bigamia e a sexualidade. O primeiro grande expoente foi a clássica obra de Laura de Mello e Souza: “O Diabo e a Terra de Santa Cruz”, que versa sobre a feitiçaria e a religiosidade colonial na América portuguesa.
Recorrendo a diversos estudos de caso colhidos em processos inquisitoriais, Souza analisa as práticas mágico-religiosas e a religiosidade popular na América portuguesa a partir do conceito de circularidade cultural, concluindo pertinentemente que, no âmbito colonial, as crenças cristãs, judaicas, indígenas e africanas se entrelaçaram, dando origem a uma religiosidade especificamente colonial. No plano específico, a sua obra teve o grande mérito ainda de reconstruir o cotidiano e a visão de mundo de homens e mulheres coloniais. Além disso, Souza também explicitou que a concepção de um cristianismo puro não passava de um modelo imaginário. Pesquisando casos cotidianos e particulares, a autora refuta tal pureza, ressaltando que se na Europa da Idade Moderna o cristianismo popular era marcado pelo paganismo e pelo desconhecimento dos dogmas religiosos, na América portuguesa essa situação se tornaria ainda mais complexa, de modo que o catolicismo de origem européia se entrelaçaria a elementos africanos e indígenas.

O caminho aberto por Souza na historiografia brasileira rendeu frutos importantes. A partir de sua análise pioneira, diversos estudos sobre a Inquisição surgiram desde então. E em quase todos eles o diálogo com a Micro História foi fundamental. Diversas trajetórias de indivíduos processados pela Inquisição e que revelaram-se muito relevantes para entender a dinâmica da colonização portuguesa na América foram descortinadas. Dentre elas, podemos citar os exemplos da africana Rosa Egipciana, do português herético Pedro Rates Henequim e do índio mandingueiro Miguel Ferreira Pestana, todos eles temas de estudos específicos orientados pelos princípios da Micro História.

A relativização de conceitos e modelos gerais advindos de uma perspectiva totalizante também mostraram-se importantes para a renovação da historiografia brasileira. Nesse sentido, a relativização de conceitos como o de absolutismo, na qual a importância dos trabalhos de micro historiadores como Levi e Grendi é evidente, foram decisivos para a reavaliação da noção de Antigo Sistema Colonial. A historiografia brasileira muito se beneficiou da análise de casos particulares que permitiram refutar a rigidez imposta pelo referido sistema, no qual as partes que constituíam a América portuguesa estariam limitadas apenas a responder às imposições absolutas e intransigentes da metrópole.
Ao invés da rigidez do sistema colonial, ganhou cada vez mais espaço a noção de Império colonial, que procura considerar as múltiplas relações que perpassavam os domínios portugueses ao redor do mundo no lugar da relação dual e dicotômica que opõe metrópole e colônia. Distanciando-se da visão celebrizada por Caio Prado Junior e sistematizada por Fernando Novais, surgiu uma nova perspectiva interessada em recuperar o dinamismo das partes que constituíam esse império. E, quanto a isso, poucas obras foram tão importantes quanto a coletânea “Antigo Regime nos Trópicos”, responsável por sistematizar esta perspectiva.

A relativização de conceitos e modelos gerais advindos de uma perspectiva totalizante também mostraram-se importantes para a renovação da historiografia brasileira. Nesse sentido, a relativização de conceitos como o de absolutismo, na qual a importância dos trabalhos de micro historiadores como Levi e Grendi é evidente, foram decisivos para a reavaliação da noção de Antigo Sistema Colonial.
A historiografia brasileira muito se beneficiou da análise de casos particulares que permitiram refutar a rigidez imposta pelo referido sistema, no qual as partes que constituíam a América portuguesa estariam limitadas apenas a responder às imposições absolutas e intransigentes da metrópole. Ao invés da rigidez do sistema colonial, ganhou cada vez mais espaço a noção de Império colonial, que procura considerar as múltiplas relações que perpassavam os domínios portugueses ao redor do mundo no lugar da relação dual e dicotômica que opõe metrópole e colônia. Distanciando-se da visão celebrizada por Caio Prado Junior e sistematizada por Fernando Novais, surgiu uma nova perspectiva interessada em recuperar o dinamismo das partes que constituíam esse império. E, quanto a isso, poucas obras foram tão importantes quanto a coletânea “Antigo Regime nos Trópicos”, responsável por sistematizar esta perspectiva.

A relativização de conceitos e modelos gerais advindos de uma perspectiva totalizante também mostraram-se importantes para a renovação da historiografia brasileira. Nesse sentido, a relativização de conceitos como o de absolutismo, na qual a importância dos trabalhos de micro historiadores como Levi e Grendi é evidente, foram decisivos para a reavaliação da noção de Antigo Sistema Colonial. A historiografia brasileira muito se beneficiou da análise de casos particulares que permitiram refutar a rigidez imposta pelo referido sistema, no qual as partes que constituíam a América portuguesa estariam limitadas apenas a responder às imposições absolutas e intransigentes da metrópole.
Ao invés da rigidez do sistema colonial, ganhou cada vez mais espaço a noção de Império colonial, que procura considerar as múltiplas relações que perpassavam os domínios portugueses ao redor do mundo no lugar da relação dual e dicotômica que opõe metrópole e colônia. Distanciando-se da visão celebrizada por Caio Prado Junior e sistematizada por Fernando Novais, surgiu uma nova perspectiva interessada em recuperar o dinamismo das partes que constituíam esse império. E, quanto a isso, poucas obras foram tão importantes quanto a coletânea “Antigo Regime nos Trópicos”, responsável por sistematizar esta perspectiva.

A relativização de conceitos e modelos gerais advindos de uma perspectiva totalizante também mostraram-se importantes para a renovação da historiografia brasileira. Nesse sentido, a relativização de conceitos como o de absolutismo, na qual a importância dos trabalhos de micro-historiadores como Levi e Grendi é evidente, foram decisivos para a reavaliação da noção de Antigo Sistema Colonial. A historiografia brasileira muito se beneficiou da análise de casos particulares que permitiram refutar a rigidez imposta pelo referido sistema, no qual as partes que constituíam a América portuguesa estariam limitadas apenas a responder às imposições absolutas e intransigentes da metrópole.
Ao invés da rigidez do sistema colonial, ganhou cada vez mais espaço a noção de Império colonial, que procura considerar as múltiplas relações que perpassavam os domínios portugueses ao redor do mundo no lugar da relação dual e dicotômica que opõe metrópole e colônia. Distanciando-se da visão celebrizada por Caio Prado Junior e sistematizada por Fernando Novais, surgiu uma nova perspectiva interessada em recuperar o dinamismo das partes que constituíam esse império. E, quanto a isso, poucas obras foram tão importantes quanto a coletânea “Antigo Regime nos Trópicos”, responsável por sistematizar esta perspectiva.

Como os Annales de outrora, a Micro-História teve um impacto de peso na historiografia brasileira sobre a colonização portuguesa. Diversos temas antes relegados a segundo plano ou ignorados pelos estudiosos, ganharam relevância desde então. Mesmo que não tenha sido responsável por criar uma escola ou um movimento unido e coeso, não dá dúvidas que os procedimentos da Micro-História influenciaram a forma de fazer história a partir de então. Ao valorizar o micro como uma importante escala de observação, essa abordagem permitiu outra visão sobre a realidade social, enriquecendo e muito a análise ao contemplar aspectos geralmente imperceptíveis em uma escala mais ampla.
* Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.
..:: Referências Bibliográficas
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- CERUTTI, Simona. “Microhistory : Social Relations versus Cultural Models?”, in: CASTRÉN, A. M., LONKILA M. et PELTONEN M. (org.). Between Sociology and History. Essays on Microhistory, Collective Action, and Nation-Building. Helsinki: S.K.S., 2004.
- GINZBURG, Carlo. O nome e o como. Troca desigual e mercado historiográfico. In: ______. A micro-história e outros ensaios. Lisboa/Rio de Janeiro: Difel/Bertrand Brasil, 1991.
- GRENDI, Edoardo. “Microanálise e História Social”, In: OLIVEIRA, Mônica Ribeiro & ALMEIDA, Carla Maria Carvalho. Exercícios de micro-história. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2009.
- LEPETIT, Bernard. “La société comme um tout :sur trois formes d’analyse de la totalité sociale”, In: Les Cahiers du Centre de Recherches Historiques, 22, 1999.
- LEVI, Giovanni. Centro e Periferia di uno Stato Assoluto. Turin: Rosemberg & Seller, 1985.
- REVEL, Jacques. “Microanálise e construção do social”. In: ______ (org.). Jogos de escalas: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998.
💬 Espaço do Leitor: 🔰 Considerando como a micro história investiga trajetórias individuais e pequenos detalhes do cotidiano, você acredita que essa abordagem consegue revelar uma visão mais justa e profunda da colonização do Brasil do que a história tradicional focada apenas nos grandes heróis e documentos oficiais? Deixe sua opinião nos comentários! 🔰


