A história nos ensina que crises não afetam a todos da mesma maneira; elas funcionam como lentes de aumento que revelam as fraturas já existentes em nossa sociedade. No cenário atual, o que vemos é um abismo que separa duas realidades vizinhas, mas mundos distantes.
Por ..:: Renato Marchesini
Mais um Capítulo de: Pandemias & Pandemônios (Capítulo 2).
No dia de hoje: Realidades & Desigualdades.

..:: O Abismo Invisível
Como bem sintetizou Leandro Karnal:
“A epidemia revela de forma quase violenta a desigualdade. Classes média e alta enfrentam o tédio, classes baixas enfrentam a fome.”
Enquanto para uns o isolamento social se traduz no “luxo do tédio”, em maratonar séries ou até em um período de férias forçadas em casas confortáveis com despensas cheias, para outros a quarentena é um veredito de desespero.
..:: O Peso da Sobrevivência
A charge ilustra o contraste cruel:
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De um lado do muro: O apoio à quarentena vem acompanhado de segurança alimentar, lazer e espaço. O vírus é uma ameaça à saúde, mas o sustento está garantido.
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Do outro lado do muro: O isolamento é impossível. O desemprego bate à porta antes mesmo da doença, e o grito de “Pai, estou com fome” ecoa mais alto que qualquer recomendação sanitária.
Para quem vive na escassez, a escolha não é entre saúde e economia, mas entre o risco de adoecer trabalhando ou a certeza de passar fome esperando.
..:: Reflexão Final
Falar em “estamos todos no mesmo barco” é um equívoco. Estamos na mesma tempestade, mas os barcos são muito diferentes. Reconhecer essa desigualdade é o primeiro passo para entendermos que a saída dessa pandemia (ou desse pandemônio) exige mais do que álcool em gel; exige justiça social e solidariedade ativa.


