O estudo de documentos manuscritos do século XIX é uma das ferramentas mais ricas para compreender a intimidade, a saúde e a dinâmica política da elite imperial brasileira. Estas quatro imagens contêm duas cartas pessoais (frente e verso) escritas por Felisberto Caldeira Brant Pontes Oliveira Horta, o célebre Marquês de Barbacena. Político, diplomata e militar de extrema importância no Primeiro Reinado e no período regencial, suas correspondências revelam como as esferas familiar, médica e os grandes acontecimentos nacionais — como a coroação de Dom Pedro II — se entrelaçavam no cotidiano de 1838 e 1841.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com pós-graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
📬 O Contexto das Correspondências Imperiais
As cartas cobrem um intervalo de três anos (1838 a 1841) e são endereçadas à sua filha, Ana Jovina Paes Leme, e ao seu genro, Francisco Jovina Paes Leme, moradores da região de Barbacena (Minas Gerais) e proprietários rurais com ligações na fazenda do Bom Jardim. Naquela época, o fluxo de notícias dependia de “portadores” de confiança — parentes ou funcionários viajantes —, transformando cada carta em um compilado valioso de atualizações de saúde, arranjos de casamento e boatos políticos da capital, o Rio de Janeiro.
🏛️ Carta 1 (07 de Fevereiro de 1838): Alianças e Viagens
O primeiro documento, enviado do Rio de Janeiro, destaca uma prática fundamental da aristocracia imperial: a consolidação de poder e patrimônio por meio de casamentos arranjados.
- Casamento Político: O Marquês avisa a filha que está “justo o casamento de Pedro com a filha do Barão de Bahia”. Essas uniões consolidavam alianças políticas regionais e econômicas cruciais entre as elites de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia.
- Logística da Época: Por conta desses preparativos, ele avisa que viajará sozinho para as “Minas” (Minas Gerais), de onde promete enviar mais notícias, deixando sua bênção paternal carinhosa (“Teu Pai Affectuoso”).

Aqui está a transcrição paleográfica da carta escrita pelo Marquês de Barbacena, mantendo a grafia, as abreviações e a pontuação originais do documento de 1838:
📑 Transcrição da Carta
Rio 7 de Fevr.º 1838
Minha querida Filha. Aproveito a volta de meu Irmão p.ª agradecer a tua Carta, de q’. elle foi portador, e pe- dir que me reccomendes a teu amavel Marido. A ambos participo q’. está justo o casamento de Pedro com a fi- lha do B.õ de Bahia, e que por isso vou so- zinho, mas o casam.to será feito quando eu voltar. Das Minas te escreverei, e entretanto aceita a benção de
Teu Pai Aff.º
M. de Barbacena
📌 Notas de Leitura (Atualização e Contexto)
Para facilitar a compreensão do português da época, aqui estão algumas das abreviações e termos atualizados:
- Fevr.º: Fevereiro
- p.ª: para
- q’.: que
- reccomendes: recomendes
- B.õ de Bahia: Barão de Bahia (refere-se ao Barão de de Itapagipe ou outra personalidade baiana da época).
- casam.to: casamento
- Teu Pai Aff.º: Teu Pai Affectuoso (Afetuoso)
- M. de Barbacena: Mariz de Barbacena / Marquês de Barbacena (Felisberto Caldeira Brant Pontes Oliveira Horta).

👑 Carta 2 (30 de Maio de 1841): A Saúde e a Coroação de Dom Pedro II
A segunda carta traz um teor mais íntimo e, ao mesmo tempo, um registro histórico de valor inestimável sobre os bastidores do Segundo Reinado.
- Os Bastidores da Coroação: Barbacena escreve: “A Coroaçaõ ficou como te disse p.ª 18 de Julho, mas naõ falta q.ᵐ pense q’. será mais tarde”. Ele refere-se à Coroação do jovem Imperador Dom Pedro II. Após o Golpe da Maioridade em 1840, a cerimônia oficial foi marcada para o dia 18 de julho de 1841. O comentário do Marquês revela a ansiedade e as especulações políticas que circulavam no Rio de Janeiro sobre a estabilidade e a realização do evento.
- A Elite Médica do Império: O Marquês relata seu estado de saúde debilitado, mencionando que continuava a sofrer, sendo inúteis as tentativas do “D.ʳ Peixoto” e de um novo profissional, o “D.ʳ Persianni, muito acreditado”. Trata-se de médicos renomados que atendiam a corte e a alta nobreza no Rio de Janeiro, evidenciando o esforço da época para tratar as enfermidades com os melhores especialistas disponíveis na capital.
- Vida Urbana e Familiar: O texto cita a mudança de um parente (“Mano”) para a famosa rua de Mata-Cavalos (atual Rua do Riachuelo, no Rio de Janeiro), um endereço nobre da época, muito retratado posteriormente na literatura de Machado de Assis. Barbacena também demonstra carinho com a neta e questiona se a magreza dela não seria sinal de uma “gravidez”, pontuando que a chegada de um herdeiro “cabe bem em tempo”.
📑 Transcrição do Sobrescrito
A Illm.ª Snr.ª D. Anna Jovina Pais Leme.
Barbacena.
📌 Notas de Leitura e Contexto
- Illm.ª Snr.ª D.: Abreviação de “Illustrissima Senhora Dona”.
- Anna Jovina Pais Leme: Dona Ana Jovina Paes Leme era uma das filhas de Felisberto Caldeira Brant Pontes Oliveira Horta (o Marquês de Barbacena). Ela se casou com o Guarda-Mor Pedro Dias Paes Leme.
- Barbacena: Indica o destino da correspondência, a cidade de Barbacena em Minas Gerais (mencionada no corpo da carta quando ele diz “Das Minas te escreverei”).

📑 Transcrição da Carta
Rio 30 de Maio 1841
M.ª Filha do C. Sabendo neste momento q’. meu filho manda hum portador ao Bom Jardim, aproveito p.ª dar-te noticias m.ªˢ, q’. naõ sao boas, porq’. con- tinuo a sofrer, sendo inuteis todas as tentativas do D.ʳ Peixoto, e de outro novo Professor D.ʳ Persianni, muito acreditado. Muito estimei q’. o Chio m.ª Neta vai gozando de boa saude, e a que atribuiremos a sua magreza? Será gravidez? Cabe bem em tempo. A Coroaçaõ ficou como te disse p.ª 18 de Julho, mas naõ falta q.ᵐ pense q’. será mais tarde. A m.ª enfermide. e a mudança do Mano p.ª Mata Cav.ᵒˢ tem feito com q’. nos naõ vejamos, mas sei q’. está bom, havendo porem ainda muitas enfermides. na familia. Mt.ˢ saud.ˢ a m.ª Neta, e m.ᵐ c.ª
Teu Pai Aff.º
M. de Barbacena
📌 Notas de Leitura (Atualização e Contexto)
Para ajudar a decifrar o contexto e o vocabulário da época, aqui estão os principais termos atualizados:
- M.ª Filha do C.: “Minha Filha do Coração”.
- hum portador ao Bom Jardim: Referência à fazenda ou região do Bom Jardim (residência da filha).
- noticias m.ªˢ: “notícias minhas”.
- D.ʳ Peixoto / D.ʳ Persianni: Médicos de prestígio que atendiam a elite imperial no Rio de Janeiro.
- o Chio m.ª Neta: Expressão carinhosa direcionada à neta (ou neto).
- A Coroaçaõ ficou […] p.ª 18 de Julho: Um detalhe histórico valioso! Trata-se da preparação para a Coroação de Dom Pedro II, que de fato ocorreu em 18 de julho de 1841.
- Mata Cav.ᵒˢ: Rua de Mata-Cavalos (atual Rua do Riachuelo, no Rio de Janeiro).
- Mt.ˢ saud.ˢ: “Muitas saudades”.

📑 Transcrição do Sobrescrito
Ao Illm.º Sr. Francisco Jovina Paes Leme
📌 Notas de Leitura e Contexto
- Ao Illm.º Sr.: Abreviação de “Ao Ilustríssimo Senhor”.
- Francisco Jovina Paes Leme: Trata-se do genro do Marquês de Barbacena (casado com sua filha Ana Jovina, destinatária do primeiro documento). Como a carta anterior mencionava o envio de um portador à fazenda da família (“Bom Jardim”), o envelope era nominal ao chefe da casa, embora o conteúdo fosse direcionado à sua “Filha do Coração”.
🔍 Importância Histórica e Paleográfica
Analisar manuscritos originais como estes permite ir além dos livros didáticos oficiais. A escrita do Marquês de Barbacena nos mostra o uso corriqueiro de abreviações típicas do século XIX (como q’. para que, p.ª para para, m.ªˢ para minhas) e a flutuação ortográfica da época (hum, sozinho, coroaçaõ). Mais do que isso, humaniza grandes personagens da nossa história, mostrando que, por trás das decisões diplomáticas e dos títulos de nobreza, havia um pai preocupado com a saúde da família, com os casamentos dos filhos e observando de perto os passos da consolidação do Império do Brasil.
💬 Espaço do Leitor: 🔰
Ao ler essas cartas íntimas, o que mais chama a sua atenção: a forma como os casamentos eram planejados entre a nobreza ou o fato de os bastidores de um evento gigante como a Coroação de Dom Pedro II serem discutidos de forma tão casual em família? 🔰


