A famosa expressão popular “feito nas coxas” é uma das mais conhecidas da língua portuguesa brasileira e, ao longo do tempo, acabou sendo associada à ideia de que as telhas coloniais eram moldadas diretamente nas coxas de pessoas escravizadas. Segundo essa narrativa, como cada indivíduo possuía medidas corporais diferentes, as telhas ficavam tortas e irregulares, originando assim a expressão usada para definir algo malfeito ou improvisado.
Apesar de extremamente popular, historiadores, arquitetos, pesquisadores da língua portuguesa e especialistas em patrimônio histórico afirmam que essa explicação possui fortes características de mito popular e carece de comprovação documental consistente.
A história acabou sendo repetida durante décadas em escolas, programas de televisão, visitas turísticas e redes sociais, tornando-se parte do imaginário coletivo brasileiro. Entretanto, pesquisas recentes demonstram que o processo real de fabricação das telhas coloniais era muito mais técnico, artesanal e organizado do que sugere a lenda popular.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com pós-graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
🏺 O Mito das Telhas “Feitas nas Coxas”
Segundo a narrativa popular, as telhas eram moldadas diretamente sobre as coxas de pessoas escravizadas. Como cada corpo possuía dimensões diferentes, as peças acabariam irregulares, o que explicaria os desníveis observados em muitos telhados coloniais.
A história ganhou enorme força popular porque:
- Muitas telhas antigas realmente apresentam formatos variados;
- A produção era artesanal;
- O Brasil colonial utilizava mão de obra escravizada em praticamente todas as atividades econômicas;
- A narrativa possui forte impacto simbólico e emocional.
Entretanto, especialistas em História e Arquitetura afirmam que não existem documentos históricos confiáveis que comprovem essa prática como método principal de fabricação de telhas.
🧱 Como as Telhas Coloniais Eram Realmente Fabricadas?
O processo tradicional de fabricação das telhas coloniais era artesanal, porém relativamente padronizado e baseado em técnicas portuguesas de olaria.

A produção seguia etapas bem definidas:
📌 Preparação da Argila
- Tudo começava com uma bola de argila muito bem amassada e de boa liga. Sobre uma mesa coberta com areia — utilizada para impedir que a argila grudasse — a massa era aberta com um rolo semelhante ao usado para massas de pastel.
- A argila era então esticada até formar uma manta com aproximadamente 1,5 cm de espessura.
📌 Corte da Telha
- Com o auxílio de uma forma metálica, a manta de argila era cortada já no formato específico da telha.
- Depois disso, a superfície era alisada com água para melhorar o acabamento da peça.
📌 A Curvatura da Telha
- A tradicional curvatura das telhas coloniais era feita utilizando-se formas de madeira apropriadas, responsáveis por dar o formato conhecido como telha capa e canal.
- Essas estruturas de madeira funcionavam como moldes, permitindo relativa padronização das peças.
📌 Secagem e Queima
- Após moldadas, as telhas eram levadas para terreiros abertos, onde passavam pelo processo de secagem natural ao sol.
- Depois de secas, eram empilhadas formando estruturas semelhantes a fornos, onde passavam pela queima cerâmica para adquirir resistência definitiva.
- Esse processo transformava a argila em cerâmica durável utilizada nos telhados coloniais brasileiros.
⚖️ Por Que a Lenda das Coxas Não Faz Sentido Técnico?
Especialistas apontam diversos problemas técnicos na narrativa das telhas moldadas nas coxas:
- Muitas telhas coloniais possuem tamanhos incompatíveis com a anatomia humana;
- Seria praticamente impossível produzir telhas suficientes para grandes construções utilizando apenas coxas humanas como molde;
- A produção em larga escala exigia maior padronização;
- O uso de formas de madeira e moldes já era conhecido em Portugal antes da colonização do Brasil.
Além disso, historiadores questionam:
Quantas pessoas seriam necessárias para fabricar milhares de telhas para igrejas, engenhos e casarões coloniais?
A lógica produtiva das olarias coloniais torna muito mais provável o uso de moldes artesanais do que do corpo humano como principal ferramenta de fabricação.
✍️ As Marcas dos Escravizados nas Telhas
Embora a lenda das telhas feitas nas coxas seja questionada historicamente, existe um aspecto real e extremamente importante relacionado à produção colonial: muitos escravizados deixavam marcas, símbolos ou assinaturas nas telhas produzidas.
Essas marcas serviam principalmente para:
- Controle de produção pelos senhores;
- Identificação do trabalhador responsável;
- Organização da fabricação nas olarias;
- Controle quantitativo das peças produzidas.
Hoje, algumas dessas marcas ainda podem ser observadas em construções históricas brasileiras, funcionando como importantes vestígios arqueológicos e históricos da presença da mão de obra escravizada na arquitetura colonial.
📚 O Que Dizem os Pesquisadores?
Pesquisadores ligados à História, Linguística e Patrimônio Cultural afirmam que a origem da expressão “feito nas coxas” continua sendo debatida.
Existem hipóteses envolvendo:
- Trabalhos improvisados;
- Objetos apoiados sobre as pernas;
- Expressões populares portuguesas;
- Sentidos figurados anteriores ao período colonial.
Até o momento, não existe consenso acadêmico definitivo que relacione diretamente a expressão às telhas coloniais produzidas por escravizados.
🧠 Memória Popular x História Documental
O caso das telhas coloniais demonstra como determinadas histórias podem ganhar enorme força cultural mesmo sem comprovação histórica conclusiva.
Muitas narrativas populares sobrevivem porque:
- Possuem forte apelo simbólico;
- Facilitam explicações simplificadas;
- São transmitidas oralmente por gerações;
- Reforçam identidades culturais locais.
Por isso, o trabalho historiográfico exige:
- Análise crítica de fontes;
- Comparação documental;
- Estudos arqueológicos;
- Revisão constante das interpretações históricas.
🏛️ A Importância Histórica das Olarias Coloniais
As olarias desempenharam papel fundamental na formação arquitetônica do Brasil colonial.
Elas produziram:
- Telhas;
- Tijolos;
- Pisos cerâmicos;
- Objetos utilitários;
- Estruturas construtivas essenciais.
Grande parte desse trabalho foi realizada por mão de obra escravizada, deixando marcas profundas na arquitetura histórica brasileira.
Assim, mesmo que a famosa lenda das “coxas” não seja comprovada, a participação dos escravizados na construção material do Brasil colonial é absolutamente real e documentada.
📖 Considerações Finais
A história das telhas “feitas nas coxas” mostra como mito, memória popular e História muitas vezes se misturam no imaginário brasileiro.
Embora existam poucos indícios históricos que sustentem a narrativa tradicional, o tema continua despertando enorme interesse justamente por envolver patrimônio histórico, arquitetura colonial e a memória da escravidão no Brasil.
Mais importante do que repetir versões prontas é compreender como os processos históricos realmente ocorreram, valorizando pesquisas sérias, documentação e análise crítica das fontes.
A História não é construída apenas por lendas, mas também pela investigação cuidadosa do passado.
📚 Fontes e Leituras Complementares
- Revista Veja — “’Nas coxas’ não tem nada a ver com telhas e escravos”
- Oxe Recife — “Telha feita nas coxas: verdade ou mito?”
- Coisas da Arquitetura — Técnicas construtivas do período colonial
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