As fichas do Café Paraventi fazem parte da memória material da história do café em São Paulo e despertam interesse entre colecionadores de exonúmia, área dedicada ao estudo e à coleção de objetos semelhantes a moedas, como fichas comerciais, promocionais e de estabelecimentos. Exemplares atribuídos ao Café Paraventi aparecem atualmente no mercado de colecionismo como peças antigas e raras, inclusive identificadas como fichas promocionais em formato semelhante às fichas de pôquer.
Por ..:: Renato Marchesini: Bacharel em Turismo, Guia de Turismo, Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.

Pasquino (SP), 11 jul. 1936, pág.20. Acervo Biblioteca Nacional.
☕ O Café Paraventi e a tradição do café paulista
A história do Café Paraventi está diretamente relacionada à trajetória da família Paraventi e à modernização da indústria de torrefação em São Paulo.
A torrefação foi fundada por Orfeo Paraventi, pai de Celestino, e já era apresentada em publicações do início do século XX como um estabelecimento moderno e tecnicamente equipado. Um registro publicitário de 1906 destacava a qualidade das instalações e dos equipamentos utilizados na torrefação.
Uma publicação de 1927 apresentava Orfeo Paraventi como fundador do Café Paraventi e Celestino como responsável pela continuidade e expansão dos negócios. A publicidade também destacava a intenção de comercializar café moído acondicionado em latas, uma solução associada à conservação e à expansão do produto para outros mercados.
Há ainda registro de um estabelecimento do Café Paraventi inaugurado em 1914, na Avenida Rangel Pestana, no Brás, evidenciando a presença da marca no cotidiano paulistano desde as primeiras décadas do século XX.
👨💼 Quem foi Celestino Paraventi?
Celestino Paraventi nasceu em 31 de dezembro de 1897 e morreu em 19 de março de 1986. Italiano radicado no Brasil, tornou-se industrial do café, cantor lírico e uma figura bastante singular da sociedade paulistana.
Ao assumir e ampliar os negócios da família, Celestino transformou o Café Paraventi em uma marca conhecida na capital paulista. Além da atividade industrial, também ficou conhecido por sua personalidade extravagante, pelo envolvimento com a música e pelas relações que manteve com artistas, intelectuais, políticos e integrantes de diferentes correntes políticas.
Sua trajetória é especialmente interessante porque reúne indústria, publicidade, cultura, música, política e sociabilidade urbana, mostrando como um estabelecimento comercial podia ocupar um espaço muito maior do que simplesmente vender café.
🎟️ As fichas do Café Paraventi
É justamente nesse contexto que aparecem as fichas atribuídas ao Café Paraventi, objetos que hoje despertam a atenção dos colecionadores.
Embora sejam frequentemente apresentadas em anúncios de antiguidades como fichas promocionais da década de 1920, é importante distinguir aquilo que está documentado em fontes históricas daquilo que é informado atualmente pelo mercado de colecionismo.
Existem anúncios contemporâneos de lotes identificados como “fichas de pôquer promocionais Café Paraventi 1920”, demonstrando que esses objetos circulam no mercado de antiguidades e colecionismo.
O uso exato dessas fichas, entretanto, merece investigação documental mais aprofundada. Não é recomendável afirmar categoricamente que eram utilizadas como fichas de jogo ou como moeda de circulação interna sem documentação primária que confirme essa função.
É justamente essa característica que torna a exonúmia tão interessante: o objeto pode sobreviver enquanto sua função original se perde com o passar das décadas.
🧩 Valores conhecidos da série
Os conjuntos preservados e os anúncios de antiguidades indicam a existência de diferentes valores numéricos nas fichas atribuídas ao Café Paraventi. Entre os exemplares mencionados por colecionadores aparecem números como **1, 5, 10, 20, 50, 100, 200 e 500**, embora ainda não exista um catálogo histórico oficial da empresa que confirme quais valores compunham originalmente cada conjunto promocional.
Essa ausência de documentação torna cada exemplar preservado especialmente importante para os estudos de exonúmia. Caixas originais, embalagens de café, anúncios publicitários e fotografias antigas podem futuramente ajudar pesquisadores a reconstruir a composição verdadeira dessas séries distribuídas pela tradicional marca paulistana.
🏭 Uma marca que ajudou a modernizar o consumo de café
O Café Paraventi não se destacou somente pela torrefação. Uma série de iniciativas relacionadas à apresentação, conservação e comercialização do produto. Publicidades da época enfatizavam a qualidade dos grãos, a torrefação própria e a preocupação com a conservação do café.]


Il Pasquino (SP), há 19 anos. 1916, pág.10. Acervo Biblioteca Nacional.
A empresa também explorou a ideia de café acondicionado em embalagens, uma inovação importante em uma época na qual conservar aroma e qualidade por mais tempo representava um desafio comercial.
Essa preocupação ajudou a aproximar o produto industrializado do consumidor urbano e contribuiu para a construção de uma marca de café reconhecível, algo que hoje parece absolutamente comum nas gôndolas dos supermercados.
☕ O café expresso chega a uma São Paulo em transformação
Celestino Paraventi também ficou associado à modernização dos hábitos de consumo de café na capital.
Relatos históricos sobre o estabelecimento mencionam máquinas importadas da Itália e a introdução de uma experiência de consumo mais próxima daquela encontrada nas cafeterias europeias.
O Café Paraventi tornou-se, assim, um espaço de encontro para estudantes, artistas, intelectuais, boêmios e diferentes personagens da vida urbana paulistana. Pesquisas acadêmicas também identificam estabelecimentos Paraventi como locais de sociabilidade intelectual e política.
A memória do estabelecimento aparece ainda relacionada às ruas Líbero Badaró e Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo.
🎨 Arte, literatura e política no Café Paraventi
A história do Café Paraventi ganha uma dimensão ainda mais curiosa quando se observa a relação de Celestino com a cena cultural paulistana.
Pesquisas acadêmicas apontam que uma sobreloja do estabelecimento da Rua Líbero Badaró recebeu exposições de artistas, entre eles Anita Malfatti. O espaço também aparece relacionado à circulação de intelectuais e militantes ligados à esquerda política.
O Café Paraventi, portanto, não deve ser compreendido apenas como uma antiga cafeteria. Ele também pode ser visto como um espaço de sociabilidade cultural da São Paulo das décadas de 1920 e 1930.
📻 Celestino Paraventi: industrial e cantor lírico
Outro aspecto pouco conhecido de sua biografia é a ligação com a música.
Celestino Paraventi era cantor lírico, tenor, e participou da vida musical e radiofônica de São Paulo. Essa faceta ajuda a explicar a personalidade multifacetada do empresário, que transitava entre o mundo dos negócios, a música, as artes e a vida social.
Segundo registros biográficos, ele chegou a participar de programas de rádio e realizou gravações musicais.
Essa combinação entre industrial, empresário, mecenas e cantor contribuiu para construir a imagem de uma das figuras mais peculiares da elite paulistana de seu tempo.
🚩 A aproximação com o movimento comunista
Talvez a parte mais conhecida — e controversa — da trajetória de Celestino Paraventi seja sua relação com o movimento comunista brasileiro.
Pesquisas acadêmicas apontam que Paraventi era simpatizante das ideias comunistas, mantinha relações com intelectuais e militantes de esquerda e apoiava financeiramente pessoas ligadas a esse universo.
Seu nome aparece associado a Luís Carlos Prestes, Olga Benário e a diferentes círculos políticos e culturais da esquerda paulistana.
Essa proximidade acabou colocando o industrial no radar da polícia política durante o governo de Getúlio Vargas.
🕵️ A ficha de Celestino Paraventi no DOPS
É nesse contexto que a ficha de Celestino Paraventi no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) ganha importância histórica.
A documentação policial é particularmente significativa porque demonstra como as atividades e relações de Paraventi passaram a ser observadas pelo aparato de repressão política.
Fontes acadêmicas registram que ele foi identificado pela polícia como “adepto do credo de Moscou” e acabou preso no contexto da repressão desencadeada após os acontecimentos de 1935.
A imagem da ficha do DOPS apresentada no material é, portanto, muito mais do que um simples documento burocrático: ela representa o encontro entre a história empresarial do Café Paraventi e a história política do Brasil no período Vargas.


Ficha de Celestino Paraventi no DOPS. Acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP).
🔴 A relação com Luís Carlos Prestes e Olga Benário
A relação de Paraventi com Luís Carlos Prestes foi especialmente marcante.
Segundo fontes biográficas e estudos sobre sua trajetória, Celestino chegou a acolher Prestes e Olga Benário em sua propriedade situada nas proximidades da represa de Guarapiranga, em São Paulo.
O episódio contribuiu para que o industrial fosse perseguido e preso pelas autoridades.
Relatos também mencionam que Paraventi chegou a considerar a possibilidade de vender parte de seus bens para ajudar Prestes e, posteriormente, teria colaborado por meio do envio de café para ser comercializado no exterior. Essas informações aparecem em relatos biográficos e precisam ser contextualizadas como relatos históricos atribuídos às fontes citadas, e não como fatos cuja documentação primária esteja integralmente disponível na internet.
🏡 A propriedade em Guarapiranga e o Clube de Campo
A trajetória de Celestino Paraventi também está relacionada à história da região de Santo Amaro e da represa de Guarapiranga.
Ele possuía uma grande propriedade na região, com casa de campo e outras estruturas. A área posteriormente esteve relacionada à criação do Clube de Campo de São Paulo, cuja formação ocorreu na década de 1930.
Esse episódio demonstra novamente como a história pessoal de Paraventi se cruza com a própria transformação territorial de São Paulo.
📰 O Café Paraventi na imprensa
A força da marca também pode ser percebida pela quantidade de anúncios publicados em jornais e revistas.


A Cigarra (SP), dez. 1925, pág.52. Acervo Biblioteca Nacional.


A Cigarra (SP), dez. 1925, pág.51. Acervo Biblioteca Nacional.
Esses documentos publicitários são valiosos porque permitem reconstruir não apenas a história da empresa, mas também a maneira como o café era apresentado ao consumidor brasileiro no início do século XX.
🗞️ A presença do Café Paraventi nos anos 1960
A documentação apresentada também inclui um anúncio publicado no Diário da Noite, em 19 de setembro de 1960, demonstrando que a marca continuava presente no mercado décadas depois de sua expansão inicial.


Diário da Noite (SP), 19 set. 1960, pág. 2. Acervo Biblioteca Nacional.
Esse tipo de anúncio ajuda a estabelecer uma linha cronológica importante: o Café Paraventi não foi apenas uma marca das décadas de 1920 e 1930, mas permaneceu presente na vida comercial paulistana por várias décadas.
Estudos mais recentes também identificam o Café Paraventi como uma tradicional torrefadora e uma rede de cafeterias que chegou a diferentes espaços comerciais de São Paulo nas décadas posteriores.
🧩 Fichas, documentos e memória: duas faces da mesma história
As fichas do Café Paraventi e a ficha policial de Celestino Paraventi são objetos completamente diferentes, mas podem ser analisados conjuntamente.
De um lado, a ficha comercial ou promocional pertence ao universo do consumo, da publicidade e do colecionismo.
De outro, o documento do DOPS pertence ao universo da vigilância política e da repressão estatal.
Entre esses dois objetos existe a trajetória de uma pessoa que foi, ao mesmo tempo, industrial, empresário, cantor lírico, frequentador da elite paulistana, incentivador das artes e simpatizante do movimento comunista.
É justamente essa multiplicidade que torna a história de Celestino Paraventi tão fascinante.
📚 Fontes e referências históricas
- Biblioteca Nacional / Hemeroteca Digital Brasileira: anúncios históricos do Café Paraventi publicados em periódicos paulistas.
- Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP): documentação policial relacionada a Celestino Paraventi.
- Historias do Cafezinho. Paraventi: industrial, músico e… Histórias do Cafézinho, [S. l.], [s. d.]. Disponível em: . Acesso em: 22 ago. 2026.
- Fernando Morais, Olga: obra que aborda a relação de Paraventi com o ambiente político e cultural da época.
- William Waack, Camaradas – nos arquivos de Moscou: a história secreta da Revolução Brasileira de 1935: referência utilizada em pesquisas sobre a atuação política de Paraventi.
- Mercado de colecionismo: registros atuais de fichas identificadas como pertencentes ao Café Paraventi.














