O dia começou ótimo, com o sol brindando mais um dia de verão. Para um grupo de pessoas que esperava na Biquinha, em São Vicente, era promessa de uma passeio inesquecível a bordo do double-decker do Programa Roda São Paulo, da Secretaria Estadual de Turismo. A ideia era fazer as rotas de São Vicente até Santos, depois Guarujá e talvez Bertioga.

Entre elas estavam duas moradoras de São Vicente com suas respectivas famílias. Jussélia Alves aproveitou a vinda de parentes de Curitiba para levá-los para conhecer a região. Já Flávia Dantas de Jesus tirou estes dias das férias para mostrar a Baixada para os filhos de 6 e 11 anos. Havia ainda estrangeiros, um cadeirante e vários idosos.
Marcado para sair às 9 horas, o veículo partiu 16 minutos depois, já lotado. Por isso, não parou nos demais pontos da roa onde havia turistas esperando para se unir ao grupo também. Isso aconteceu até a Ponta da Praia, em Santos, onde o pessoal desembarcou rumo a Guarujá por volta das 10 horas – meia hora antes do embarque previsto no Terminal do Ferry Boat.
Ao chegar no local, não havia ninguém do programa para orientar os turistas, que só contaram com o apoio do pessoal do terminal de ônibus para prestar informações. Já no ponto de embarque, uma longa fila se formou à espera do passeio.
A partir daí começou uma saga para este grupo, que ficou aguardando 1 hora no ponto sem qualquer explicação sobre o atraso. Jussélia estava indignada. “Isso é um desrespeito. Não tem ninguém do Roda São Paulo para prestar informação aqui. Imagina os turistas que não conhecem nada da região?”.
Às 11h30, um micro-ônibus e duas vans chegaram ao terminal. Jussélia logo conseguiu espaço no veículo e, apesar do atraso, ainda estava ansiosa pelo resto da viagem. O mesmo não pôde dizer Flávia, que foi deixada para trás com seus dois filhos e outras 40 pessoas. O motivo: falta de espaço nos veículos.
O grupo ainda esperou por mais de 1 hora na esperança de que algum engano tivesse ocorrido. Neste período vários desistiram, entre eles os estrangeiros. Um senhor diabético passou mal e também foi embora com a esposa. Sobraram apenas 10 pessoas.
Entre elas a paulistana Maria Lúcia de Oliveira, uma senhora que sofre de fibromialgia e, por causa do passeio de ontem, tinha ficado uma boa parte do dia anterior no pronto-socorro se preparando para este dia. “Vou procurar o Procon, porque para mim isso foi propaganda enganosa”.
Nas tentativas de contato com a secretaria, as informações eram desencontradas. “Liguei há meia hora e me disseram que em 25 minutos uma van estaria aqui”, disse Sílvia Dalmati, no que foi rebatida por Flávia. “Já para mim disseram que a próxima van é só às 13 horas”. Por fim, cansados e irritados, todos decidiram voltar para Santos com uma certeza: pedir o ressarcimento dos R$ 10,00 gastos no passeio.
Fonte..:: Jornal A Tribuna
🧭 Baixada Santista: Turismo Como Desenvolvimento Ou Apenas Mais Uma Promessa?
Alguns sempre comentam que a Baixada Santista continua sendo uma eterna promessa para o turismo. Mas será que o problema está na falta de potencial turístico? Ou será que precisamos discutir com mais seriedade como o turismo regional está sendo planejado, promovido e executado?
Por ..:: Renato Marchesini / Bacharel em Turismo, Historiador, Geógrafo e Biólogo. com Pós-Graduação em Ecoturismo, Gestão Pública, Gestão em Projetos, RH e Projetos Sociais, Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Direitos Humanos, História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio e Mestre em Ciências.
🧭 Turismo: Potencial Não Falta À Baixada Santista
A Baixada Santista possui um patrimônio turístico extraordinário.
São praias, Mata Atlântica, áreas protegidas, patrimônio histórico, cultura caiçara, comunidades tradicionais, gastronomia, arquitetura, patrimônio ferroviário, arqueologia, turismo náutico, ecoturismo, turismo cultural e turismo de base comunitária.
Existe potencial para desenvolver produtos turísticos capazes de gerar emprego, renda, conhecimento, conservação ambiental e valorização da identidade regional.
Então, por que tantas vezes temos a sensação de que o turismo regional continua sendo apenas uma promessa?
Talvez seja necessário mudar a pergunta.
Em vez de perguntar apenas “quantos turistas queremos trazer?”, precisamos perguntar:
“Que turismo queremos construir?”
⚠️ Turismo Não Pode Ser Confundido Com Qualquer Atividade De Lazer
É importante diferenciar turismo planejado e profissionalizado de ações pontuais destinadas simplesmente a levar pessoas de um lugar para outro.
Um projeto turístico precisa considerar planejamento, segurança, qualidade, acessibilidade, sustentabilidade, profissionalização, legislação, impactos ambientais, valorização da comunidade local e experiência do visitante.
Quando esses elementos são deixados de lado, podemos até conseguir movimentar pessoas temporariamente, mas isso não significa necessariamente que estamos construindo um destino turístico sustentável e competitivo.
🦈 Turismo Ou “Canibalismo” Turístico?
É justamente aqui que surge uma reflexão necessária.
Quando uma iniciativa pública ou privada cria produtos turísticos sem considerar adequadamente os profissionais, empresas e empreendedores que já atuam no território, existe o risco de gerar uma concorrência desequilibrada.
Em vez de fortalecer a cadeia produtiva existente, uma iniciativa mal planejada pode acabar disputando diretamente o mesmo mercado, utilizando recursos ou estruturas públicas para concorrer com quem vive profissionalmente da atividade.
É nesse sentido que podemos utilizar, de forma crítica, a expressão:
“Turismo ou canibalismo?”
A questão não é impedir a concorrência.
Concorrência faz parte de uma economia saudável.
O problema é quando existem condições muito diferentes entre os concorrentes, especialmente quando um deles possui apoio, estrutura ou recursos públicos que não estão disponíveis aos demais.
⚠️ Entenda a Verdade do Projeto: Turismo ou Canibalismo – Concorrência desleal – Divulguem!!!! AQUI
⚖️ Poder Público Deve Planejar, Regular E Fomentar
É preciso ter cuidado com afirmações genéricas de que o poder público “não pode operar roteiros turísticos”, pois isso depende da legislação aplicável, do formato do projeto, da natureza da atividade e das competências do órgão envolvido.
Porém, existe uma discussão muito importante:
Qual deve ser o papel do Poder Público na cadeia turística?
Em muitos casos, cabe ao poder público planejar, regulamentar, fiscalizar, promover, qualificar, estruturar o destino, preservar o patrimônio e fomentar o setor, enquanto a prestação comercial dos serviços pode envolver empresas e profissionais habilitados, conforme a legislação aplicável.
O mais importante é garantir transparência, isonomia, segurança jurídica e respeito aos profissionais que já atuam no mercado.
🧾 Nota Fiscal: Transparência Também É Turismo
Uma pergunta simples pode ajudar o consumidor a compreender melhor o serviço contratado:
“Vou receber nota fiscal?”
A emissão de documento fiscal deve observar as regras tributárias aplicáveis ao serviço e ao prestador.
Para o turista, solicitar a documentação adequada também significa ter maior transparência sobre aquilo que está contratando.
E para o setor, a formalização contribui para combater a informalidade e fortalecer uma cadeia turística profissional.
Turismo profissional precisa caminhar junto com responsabilidade fiscal e respeito às regras.
🎫 Quem Está Prestando O Serviço Turístico?
Outra pergunta fundamental:
Quem está conduzindo o visitante?
É importante diferenciar as funções de Guia de Turismo, condutor, monitor, anfitrião e outros profissionais envolvidos na operação turística, pois suas atribuições, qualificações e exigências legais podem ser diferentes.
Em atividades que envolvam Guia de Turismo, é fundamental verificar a regularidade profissional conforme as normas aplicáveis.
O turista também pode perguntar:
- Quem é o responsável pelo passeio?
- O profissional possui a qualificação necessária?
- A atividade está regularizada?
- Existe seguro ou cobertura adequada, quando aplicável?
- Quem responde pelo visitante em caso de emergência?
- Qual é o roteiro?
- Quais são os riscos envolvidos?
Segurança e profissionalização não são detalhes. São parte da qualidade do produto turístico.
💰 E Quanto Vale O Trabalho Do Profissional De Turismo?
Outra questão merece atenção:
Quanto o profissional que está trabalhando efetivamente no passeio recebe por esse serviço?
Não basta divulgar um roteiro bonito.
Precisamos discutir também remuneração justa, condições de trabalho, carga horária, responsabilidades, capacitação e valorização profissional.
Se o turismo pretende ser uma atividade econômica sustentável, precisa ser sustentável também para quem trabalha no turismo.
A precarização do trabalho não pode ser apresentada como desenvolvimento turístico.
Turismo de qualidade começa valorizando as pessoas que fazem o turismo acontecer.
🌱 Turismo Sustentável Não É Apenas Um Slogan
Hoje se fala muito em Turismo Sustentável, tanto na academia quanto no mercado.
Mas sustentabilidade não significa simplesmente colocar uma atividade em uma área natural e chamá-la de ecoturismo.
Um projeto turístico responsável precisa considerar, entre outros aspectos:
🌿 Conservação ambiental;
👥 Benefícios para as comunidades locais;
💰 Geração e distribuição de renda;
🏛️ Preservação do patrimônio cultural;
🧑💼 Valorização dos profissionais;
🛡️ Segurança dos visitantes;
📊 Planejamento e monitoramento;
♻️ Redução dos impactos ambientais;
🤝 Participação social;
📚 Educação e interpretação ambiental e cultural.
Sem isso, corremos o risco de transformar “turismo sustentável” em apenas uma expressão bonita utilizada em apresentações e projetos.
🏘️ Turismo Deve Fortalecer A Economia Local
Um roteiro turístico bem planejado pode beneficiar diversos segmentos.
O visitante pode utilizar hospedagem, restaurantes, comércio, transporte, guias, artesãos, produtores locais, atrativos culturais e serviços especializados.
Esse é um dos grandes potenciais do turismo.
O dinheiro do visitante pode circular dentro do território e contribuir para geração de emprego, renda e fortalecimento das economias locais.
Por isso, antes de criar um novo projeto, é necessário perguntar:
- Quem será beneficiado?
- Quem poderá trabalhar?
- Quem poderá fornecer serviços?
- Quanto da renda permanecerá na comunidade?
- Quais serão os impactos sobre os empreendedores que já atuam no território?
Essas perguntas deveriam fazer parte do planejamento turístico.
🏛️ Turismo Não Pode Ser Apenas Projeto Eleitoral
Outra reflexão importante é sobre a continuidade das políticas públicas.
Turismo não deveria começar ou terminar de acordo com o calendário eleitoral.
Um destino turístico precisa de planejamento de médio e longo prazo.
É necessário construir políticas públicas permanentes, com metas, indicadores, orçamento, participação da sociedade e avaliação dos resultados.
Trocam-se os governos, mas o patrimônio, os trabalhadores, as empresas, os moradores e os turistas permanecem.
O turismo precisa estar acima das disputas políticas momentâneas.
📢 Ponto Positivo Para Quem Questiona
Ponto positivo para aqueles que não aceitam iniciativas mal planejadas, que questionam, fiscalizam e defendem um turismo profissional, sustentável e responsável.
Questionar políticas públicas não significa ser contra o turismo. Pelo contrário.
- Cobrar qualidade também é defender o turismo.
- Cobrar transparência também é defender o turismo.
- Cobrar valorização profissional também é defender o turismo.
- Cobrar sustentabilidade também é defender o turismo.
❌ Ponto Negativo Para A Omissão
Por outro lado, existe uma reflexão para aqueles que percebem problemas e preferem permanecer em silêncio.
O silêncio diante de problemas que poderiam ser corrigidos não contribui para a construção de um turismo melhor.
Mas é importante lembrar:
- Criticar também exige responsabilidade.
- Não basta acusar.
- É necessário apresentar fatos, documentos, dados, legislação, propostas e alternativas.
Fiscalização responsável é muito diferente de ataque pessoal.
🔎 Investigar, Perguntar E Cobrar
Para quem defende ou critica determinado projeto turístico, algumas perguntas são fundamentais:
🔰 Quem criou o projeto?
🔰 Qual é o objetivo?
🔰 Qual é o custo para o poder público?
🔰 Quem executa o serviço?
🔰 Quem recebe pela prestação do serviço?
🔰 Quais profissionais estão envolvidos?
🔰 O serviço está regularizado?
🔰 Como ocorre a contratação?
🔰 Existe nota fiscal quando exigida?
🔰 Como os impactos ambientais são avaliados?
🔰 Como a comunidade local participa?
🔰 Quais empresas e trabalhadores locais serão beneficiados?
🔰 Quais são os indicadores para avaliar os resultados?
Perguntar não é ser contra. Perguntar é exercer cidadania.
🧑🤝🧑 Turismo Regional Precisa De União
A Baixada Santista não precisa de municípios competindo de maneira destrutiva entre si.
Precisamos de integração regional.
Um turista que visita Santos pode conhecer São Vicente.
Quem visita Guarujá pode conhecer Bertioga.
Quem procura Cubatão pode se interessar pelo patrimônio histórico e ambiental da região.
Quem visita Peruíbe pode descobrir Itanhaém e outros destinos do litoral sul.
A construção de roteiros integrados e complementares pode aumentar a permanência do visitante e distribuir melhor os benefícios econômicos.
Em vez de cada município tentar “canibalizar” o outro, podemos construir uma Baixada Santista turística integrada.
🗺️ O Futuro Do Turismo Está No Planejamento
A região possui condições excepcionais para trabalhar diferentes segmentos turísticos:
🌊 Turismo de Sol e Praia
🌿 Ecoturismo
🏛️ Turismo Cultural
📚 Turismo Pedagógico
🏘️ Turismo de Base Comunitária
🚂 Turismo Histórico e Ferroviário
🛶 Turismo Náutico
🦜 Turismo de Observação da Natureza
🏺 Turismo Arqueológico
🍲 Turismo Gastronômico
🎭 Turismo de Eventos
Mas diversidade de atrativos não é suficiente.
Precisamos de planejamento, profissionalização, infraestrutura, promoção responsável, governança e continuidade das políticas públicas.
🚨 Fiquem Atentos!
Este texto não pretende atacar pessoas ou grupos.
A intenção é provocar uma discussão sobre qual modelo de turismo queremos para a Baixada Santista.
Precisamos cobrar projetos que apresentem objetivos claros, transparência, responsabilidade, sustentabilidade, profissionalização e resultados mensuráveis.
Precisamos também reconhecer iniciativas que funcionam.
Crítica responsável não é destruição. É uma ferramenta de aperfeiçoamento.
😮 Um Desabafo, Sim! Mas Também Uma Reflexão
Quanto desabafo, não é?
Talvez seja mesmo.
Existem assuntos que ficam “engasgados na garganta” de quem acompanha o turismo regional, conhece seus profissionais, observa seus problemas e também acredita em seu enorme potencial.
Mas o desabafo não precisa terminar em indignação.
Pode se transformar em debate, participação, fiscalização, propostas e construção coletiva.
Ainda tentamos respirar.
Mas até quando vamos continuar apenas respirando, quando poderíamos estar construindo um turismo regional mais profissional, sustentável, integrado e respeitado?
🌱 Baixada Santista: É Hora De Tratar O Turismo Com Respeito
A Baixada Santista não precisa ser eternamente conhecida como “promessa turística”.
- Temos patrimônio.
- Temos natureza.
- Temos história.
- Temos cultura.
- Temos profissionais.
- Temos empreendedores.
- Temos comunidades.
- Temos universidades e instituições de ensino.
- Temos um território com enorme potencial.
O que precisamos é transformar potencial em planejamento e planejamento em resultados.
- Sem maracutaias.
- Sem favorecimentos.
- Sem jogos políticos.
- Sem improvisação.
Com transparência, ética, profissionalização, sustentabilidade, participação social e respeito por quem vive do turismo.
Porque, no final, existe uma regra simples que qualquer destino turístico deveria levar a sério:
Turista insatisfeito pode não voltar.
E mais importante ainda:
Um trabalhador desvalorizado, uma comunidade prejudicada ou um patrimônio destruído também deixam marcas que nenhum projeto de marketing consegue esconder.


