História e Fotos Antigas do Forte São João em Bertioga SP

No ano de 1531, as naus de Martim Afonso de Sousa avistaram Bertioga, local que teria despertado o interesse dos portugueses. Entretanto, por razões relacionadas à segurança da expedição, seguiram viagem e chegaram à região de São Vicente, onde a vila seria oficialmente fundada em 22 de janeiro de 1532.

Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.


🎨 A partida de Estácio de Sá e o Forte São João

Esta imagem apresenta um detalhe da pintura “Partida de Estácio de Sá” (1913), do artista brasileiro Benedito Calixto.

A cena representa o momento em que, em 1565, Estácio de Sá parte da capitania de São Vicente em direção à Baía de Guanabara, com o objetivo de combater os franceses e estabelecer a ocupação portuguesa na região onde seria fundada a cidade do Rio de Janeiro.

Ao fundo da pintura aparece o Forte de São João da Bertioga, então associado à denominação Forte de São Tiago.

Na areia, em destaque, o padre Manuel da Nóbrega aparece abençoando José de Anchieta, que está ajoelhado. A obra original integra o acervo do Palácio São Joaquim, no Rio de Janeiro.


🛡️ As primeiras iniciativas de defesa de Bertioga

Ainda no contexto da expedição de Martim Afonso de Sousa, João Ramalho teria sido enviado a Bertioga para verificar a possibilidade de instalação de uma estrutura defensiva na entrada da Barra.

A posição era estratégica porque permitia controlar um importante acesso marítimo e proteger a região de São Vicente diante dos conflitos entre portugueses e diferentes grupos indígenas.

Em 1540, Hans Staden, alemão que posteriormente ficaria conhecido por seus relatos sobre o Brasil, esteve na região de São Vicente. O material histórico apresentado neste estudo relaciona sua trajetória às estruturas defensivas existentes na Barra de Bertioga.

Em 1547, surge uma nova estrutura defensiva, associada à família de Diogo de Braga e aos seus aliados indígenas. O episódio é importante para compreender a evolução das fortificações que posteriormente dariam origem ao complexo conhecido como Forte São João.


🏗️ A fortificação de Bertioga e os conflitos indígenas

A presença portuguesa provocou profundas transformações na região. Tupiniquins e Tupinambás possuíam relações distintas com portugueses e franceses, respectivamente, dentro de um cenário de alianças, disputas territoriais e conflitos.

Padres jesuítas como Manuel da Nóbrega e José de Anchieta participaram de tentativas de estabelecer relações de paz entre diferentes grupos.

A resistência aos ataques teve participação de Diogo de Braga, seus filhos e aliados guaianazes. Entretanto, diante dos conflitos, parte dos moradores abandonou a região e a fortificação acabou destruída.

A importância estratégica da Barra de Bertioga levou os portugueses a insistirem na construção de estruturas defensivas.


🏰 A reconstrução e a Fortaleza de São Tiago

Em 1557, foi determinada uma nova construção na Barra de Bertioga. A fortificação foi erguida no continente pelo fidalgo Antônio Rodrigues de Almeida, sobre a área relacionada às estruturas anteriores.

Essa nova construção é identificada nas fontes como Fortaleza de São Tiago, posteriormente conhecida como Forte São João.

As obras foram concluídas por volta de 1560, estabelecendo uma fortificação de alvenaria muito mais resistente que as primitivas estruturas de madeira.

Foi dessa região que, em 1565, partiu a esquadra comandada por Estácio de Sá, relacionada à campanha portuguesa contra os franceses na Baía de Guanabara.


⚔️ De São Tiago a São João

Ao longo dos séculos, o forte passou por diversas reformas.

Em 1699, uma intervenção modificou significativamente suas características.

Em 1710, a fortificação ainda possuía importância dentro do sistema defensivo colonial e serviu como ponto de refúgio diante da ameaça de invasores franceses.

Por volta de 1760, uma capela dedicada a São João Batista passou a influenciar a denominação utilizada para a fortificação.

Posteriormente, reformas realizadas na capela contribuíram para consolidar o nome Forte São João.


📜 Diferentes fortificações ao longo da história

A documentação e os estudos historiográficos permitem interpretar que não existiu necessariamente uma única construção contínua desde 1531.

Uma interpretação apresentada pelos pesquisadores identifica três momentos principais:

1. Torre da Bertioga, por volta de 1531: uma estrutura extremamente simples, possivelmente uma trincheira ou posto de observação.

2. Paliçada de 1547: estrutura defensiva de madeira associada à família de Diogo de Braga e seus aliados.

3. Fortaleza de alvenaria, entre 1551 e 1560: construção determinada oficialmente pela Coroa Portuguesa, com terrapleno e quartel, posteriormente transformada e ampliada.

Essa distinção é importante porque as datas e características das primeiras estruturas são objeto de divergências entre historiadores.


🌳 A primeira fortaleza: A Torre da Bertioga — 1531

Martim Afonso de Sousa foi designado pelo rei Dom João III para realizar uma expedição ao Brasil, entre outros objetivos relacionados à ocupação portuguesa, defesa do território e combate à presença francesa.

Chegou ao Brasil em dezembro de 1530 e percorreu diferentes pontos do litoral.

Em 1531, passou por Bertioga antes de seguir em direção à região de São Vicente, cuja vila seria fundada oficialmente no ano seguinte.

Segundo interpretações de autores como Frei Gaspar da Madre de Deus, teria existido nesse período uma estrutura denominada “Torre da Bertioga”, construída de maneira rudimentar para servir como ponto de observação e abrigo.

Entretanto, não existe consenso documental sobre a natureza exata dessa primeira estrutura.


🤝 João Ramalho, Bartira e os conhecimentos indígenas

Uma das interpretações históricas relaciona João Ramalho às primeiras iniciativas de defesa da Barra de Bertioga.

Ramalho já se encontrava no Brasil antes da chegada de Martim Afonso de Sousa e estabeleceu relações próximas com grupos indígenas, especialmente os Tupiniquins.

Sua aproximação com Tibiriçá, importante liderança indígena do Planalto Paulista, é parte conhecida da história colonial. João Ramalho teria se casado com Bartira, filha de Tibiriçá.

Essas relações proporcionavam aos colonizadores conhecimentos importantes sobre o território, os caminhos, as águas, a vegetação e os recursos naturais.


🪵 A paliçada de 1547

Em 1547, uma nova estrutura defensiva teria sido construída na Barra de Bertioga.

Segundo os relatos associados a Hans Staden, tratava-se de uma paliçada de madeira com uma casa forte em seu interior.

A paliçada era constituída por estacas fincadas no solo e entrelaçadas, formando uma estrutura de proteção contra ataques.

O termo “caiçara” aparece em diferentes interpretações históricas e linguísticas. Francisco Martins dos Santos relacionou o termo aos conflitos ocorridos na região, enquanto estudos de Teodoro Sampaio registram significados relacionados a “estacada”, “tapume”, “cercado” ou “trincheira”.

Por isso, é importante apresentar essas interpretações com cautela, sem atribuir uma única origem ou significado ao termo sem considerar o contexto linguístico.


🔥 O ataque à paliçada

Segundo os relatos históricos reunidos no material, os Tupinambás teriam chegado pelo Canal de Bertioga com dezenas de canoas, realizando um ataque contra a fortificação.

Os defensores buscaram abrigo na casa forte existente no interior da paliçada.

divergência entre os autores quanto à data da destruição dessa estrutura. Alguns situam o ataque em 1547, enquanto outros, considerando relatos de Hans Staden e documentos jesuítas, defendem 1551.

Essa diferença cronológica é significativa e demonstra como a história das primeiras fortificações de Bertioga ainda exige análise crítica das fontes.


🧭 Hans Staden em Bertioga

A trajetória de Hans Staden está profundamente ligada à história da região.

Durante sua segunda viagem ao Brasil, Staden chegou ao litoral e posteriormente alcançou São Vicente.

Em 1552, procurou a fortificação da Barra de Bertioga ao saber que havia necessidade de um homem com conhecimentos de artilharia.

Foi contratado para atuar na defesa do local e permaneceu ligado às atividades militares da região.

Staden descreveu em seus relatos a preocupação dos defensores diante da possibilidade de novos ataques indígenas.


🏹 A captura de Hans Staden — 1554

Em 1554, enquanto caçava fora das imediações da fortificação, Hans Staden foi capturado por indígenas Tupinambás.

Permaneceu prisioneiro durante aproximadamente nove meses.

Seus relatos sobre esse período posteriormente foram publicados na Europa e tornaram-se uma das fontes mais conhecidas produzidas por um europeu sobre os povos indígenas do litoral brasileiro no século XVI.

Staden descreveu também sua relação com Cunhambebe, importante liderança Tupinambá.

Após negociações envolvendo franceses, Staden conseguiu ser libertado e retornou à Europa.

Em 1557, publicou seu famoso relato, conhecido em português como “Duas Viagens ao Brasil”.


📖 O relato de Hans Staden

A publicação de Hans Staden alcançou grande repercussão na Europa.

Seu livro descreveu paisagens, costumes, conflitos, relações entre indígenas e europeus e diferentes aspectos da vida colonial.

É importante, entretanto, compreender que o relato representa o ponto de vista de um europeu do século XVI, devendo ser analisado juntamente com outras fontes históricas e arqueológicas.


👑 A terceira fortaleza: Ordem da Coroa Portuguesa — 1551/1560

A necessidade de uma fortificação permanente levou a Coroa Portuguesa a determinar oficialmente a construção de uma nova estrutura.

Uma Provisão Régia de 18 de junho de 1551, atribuída ao rei Dom João III, determinou a construção de uma fortaleza na Barra de Bertioga e destinou recursos para sua execução.

O documento citado no material registra recursos de dois mil cruzados provenientes dos direitos da Capitania e mais mil cruzados das redízimas pertencentes a Martim Afonso, totalizando três mil cruzados.

Essa determinação representa um momento fundamental porque demonstra a participação direta e documentada da Coroa na organização da defesa de Bertioga.


🧱 A construção em pedra e cal

Entre 1557 e 1560, a nova fortificação foi construída em alvenaria.

O responsável pelas obras é identificado como Antônio Rodrigues de Almeida, ligado à administração da Capitania de Santo Amaro.

A fortificação possuía duas estruturas fundamentais:

a) o terrapleno ou plataforma de armas, destinado à instalação da artilharia e à defesa;

b) o quartel, destinado ao alojamento dos soldados, armazenamento de equipamentos e munições e às demais funções necessárias à guarnição.

A argamassa empregada na construção estava relacionada ao uso de cal produzida a partir de conchas de sambaquis, material que, após processamento e calcinação, podia ser utilizado na produção de argamassa.


🗺️ O Forte São Tiago no século XVI

A fortificação original provavelmente apresentava dimensões menores que as atuais.

O terrapleno possuía aproximadamente 100 m², enquanto a estrutura posteriormente ampliada alcançou cerca de 250 m².

O quartel apresentava características diferentes das atuais, inclusive com telhado de duas águas. A atual tenalha, estrutura defensiva ao redor do quartel, ainda não fazia parte da fortificação quinhentista.


🧭 O mapa de São Vicente — 1574

Um dos registros cartográficos históricos mais importantes é o Mapa de São Vicente, de Luís Teixeira, de 1574.

O documento apresenta a “Fortaleza de S. Thiago”, demonstrando que a denominação São Tiago já estava associada à fortificação naquele período.

Mapa de São Vicente, de Luís Teixeira, de 1574. Detalhe para a Fortaleza de S. Thiago, correspondente ao Forte São Thiago/Forte São João.


📚 Gabriel Soares de Sousa — 1587

O “Tratado Descritivo do Brasil”, de Gabriel Soares de Sousa, produzido em 1587, também menciona a fortificação de Bertioga.

A obra identifica a construção como São Tiago e registra sua função militar, incluindo a presença de bombardeiros e artilharia.

Esse registro contribui para demonstrar a importância militar da Barra de Bertioga no século XVI.


🏗️ A planta de 1751 e a transformação do forte

Não são conhecidas plantas detalhadas do Forte São Tiago correspondentes ao século XVI.

Entretanto, existe uma importante planta de 1751, elaborada por Luís Antônio de Sá Queiroga, que ajuda a compreender a evolução da fortificação.

O documento apresenta diferentes áreas da construção e permite identificar a estrutura antiga e as áreas posteriormente ampliadas.

 Planta Antiga do Forte São João Bertioga SP. Planta de Luís Antônio de Sá Queiroga – Arquivo Ultramarino – 1751.

Na interpretação apresentada no material, a área original quinhentista aparece diferenciada da ampliação realizada no século XVIII.


🏰 A ampliação do Forte — 1751/1760

Durante o século XVIII, o sistema defensivo da região passou por novas transformações.

Em 1745, Matias de Couto Reis foi nomeado capitão do Forte São João, com a responsabilidade de realizar reparos.

Posteriormente, novas obras modificaram significativamente o terrapleno.

Os historiadores divergem quanto à extensão dessas intervenções. Alguns autores tratam o período como uma reforma ou restauração, enquanto outros interpretam que ocorreu uma ampliação substancial da estrutura quinhentista.

A planta de 1751, de Luís Antônio de Sá Queiroga, constitui importante documento para essa discussão.


🧱 A tenalha

A tenalha é uma estrutura defensiva de pedra localizada ao redor do forte e do quartel.

Segundo a interpretação apresentada no material, uma estrutura desse tipo teria sido construída por volta de 1724, substituindo uma antiga estacada de madeira.

A substituição estaria relacionada aos custos de manutenção da madeira, que exigia intervenções frequentes.

A nova estrutura utilizava pedra e argamassa, oferecendo maior durabilidade.


🌊 A ressaca de 1769

Por volta de 1769, uma forte ressaca marítima provocou danos importantes no Forte São João.

Segundo os relatos reunidos no material, a força do mar teria deslocado aproximadamente 25 centímetros parte da guarita e da cortina.

O episódio também é associado à destruição da Capela de São João Batista, localizada próxima à praia.

Os danos provocados pela ação marítima ajudam a explicar algumas deformações observadas na estrutura do forte.


⛪ A destruição da Capela de São João Batista

A Capela de São João Batista foi instituída por legado testamentário do vigário de Santos, João da Rocha Moreira, e edificada por provisão do bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei Antônio de Guadalupe, em 1725.

A capela recebeu sua bênção em 1º de abril de 1740.

A ressaca de 1769 teria provocado sua destruição.

A imagem de São João Batista foi então recolhida e levada para a capela existente junto ao quartel do forte.

Esse episódio contribuiu para a consolidação popular da denominação Forte São João.


🛡️ A guarnição militar — 1772

Em 1772, o Forte São João contava com uma guarnição militar.

O local funcionava também como ponto de apoio para o deslocamento de destacamentos destinados a outras localidades, entre elas São Sebastião e Ubatuba.

Sua função não se limitava à defesa imediata da Barra: a fortificação integrava uma rede de comunicação e deslocamento militar no litoral paulista.


🗺️ A obra de estacada de 1775

Durante o governo de Dom Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, foram realizadas novas intervenções no sistema defensivo paulista.

Uma planta manuscrita de 1775 apresenta a organização do Forte São João e de suas estruturas externas.

Planta Antiga do Forte São João Bertioga SP. lanta da Fortaleza da Bertioga, e terrapleno, com os danos causados pelo mar. Trata-se de uma planta manuscrita do Forte São João. A planta faz parte do conjunto de “Cartas topográficas do Continente Sul e parte Meridional da América Portuguesa”, foi publicada em 1775.

A documentação indica uma nova estacada, associada ao sistema de defesa do forte.

O Forte também passou a exercer função relacionada ao registro das embarcações que entravam pela Barra de Bertioga, contribuindo para o controle do comércio e da arrecadação de impostos.


📜 O Forte São João no final do século XVIII

No final do século XVIII, documentos descrevem uma situação bastante precária.

Um manuscrito atribuído a José Arouche de Toledo Rendon registra que a fortificação possuía peças de artilharia desmontadas e que o quartel apresentava problemas graves de umidade.

A umidade era particularmente problemática porque impedia o armazenamento seguro de pólvora.

O documento também registra uma mudança importante na função do forte: além de suas características militares, o local era utilizado como posto de registro das embarcações.


⚓ Relatório sobre a artilharia — 1797

Outro relatório, associado ao ano de 1797, descreve as condições precárias da artilharia e das instalações.

Mesmo com as dificuldades, a fortificação continuou recebendo autoridades militares e comandantes honoríficos.

Em 1798, Vicente Machado da Silva foi nomeado para o posto de comandante, enquanto o tenente-coronel Antônio Faustino da Costa recebeu atribuições relacionadas à recuperação da artilharia.

Em 1801, o comando passou para José Antônio Vieira de Carvalho.


🧑‍✈️ Relatório do 2º Tenente de Engenheiros — 1817

Em 1817, o governador da Capitania de São Paulo determinou uma nova avaliação das condições militares do Forte São João.

O responsável foi o 2º Tenente de Engenheiros Rufino José Felizardo e Costa. O relatório identificou nove bocas de fogo, todas de ferro fundido, mas apenas três apresentavam condições de utilização.

O terrapleno poderia ser aproveitado, embora necessitasse de reparos. As paredes do quartel ainda estavam de pé, porém o telhado e os elementos de madeira apresentavam condições precárias.

Rufino José Felizardo e Costa também produziu uma planta detalhada da fortificação.

 Planta Antiga do Forte São João Bertioga SP de 1817, de Rufino José Felizardo e Costa.


🏠 A reforma do telhado — 1817

Após o relatório de 1817, foram realizadas intervenções no quartel.

A documentação indica uma mudança importante: o telhado, anteriormente representado como de duas águas, passou a apresentar quatro águas.

Essa configuração permanece como uma das características marcantes da edificação atualmente existente.

Também ocorreram intervenções nas paredes e nas aberturas do quartel.


🏚️ O Forte no século XIX

Durante o século XIX, o Forte São João perdeu progressivamente sua importância como instalação militar de primeira linha.

A deterioração das estruturas continuou sendo registrada em diferentes documentos.

A proximidade com o mar, a umidade, a ação das marés e a falta de manutenção representavam ameaças constantes à conservação do monumento.


📐 Planta do Forte São João — 1871

 Planta de 1871 do Forte São João em Bertioga SP. De José António Teixeira Cabral. 

O documento é mais uma referência importante para acompanhar a evolução arquitetônica da fortificação.


📸 Fotografias antigas e cartões-postais: Registros visuais de um tempo que passou

As fotografias antigas e os cartões-postais possuem um importante valor documental porque registram, por meio de imagens, lugares, paisagens, construções, pessoas e cenas do cotidiano que pertencem a outros períodos históricos. No caso do Forte São João e do Canal de Bertioga, esse conjunto de imagens permite observar como esses lugares eram vistos e apresentados em diferentes momentos.

 Cartão Postal de Foto Antiga do Canal de Bertioga SP – Início do século XX.

  Cartão Postal de Foto Antiga do Canal de Bertioga SP – Início do século XX.

 Cartão Postal de Foto Antiga de Bertioga SP.  Forte São João – Por volta de 1910.

 Cartão Postal de Foto Antiga de Bertioga SP.  Caiçaras, Forte São João e Canal de Bertioga. Por volta de 1910.

 Cartão Postal de Foto Antiga de Bertioga SP.  Forte São João (s.d.).

Foto Antiga do Forte São João em Bertioga SP em 1906.

  Foto Antiga de Bertioga – Forte São João (1915).

  Foto Antiga de Bertioga – Forte São João (1915).

  Foto Antiga de Bertioga – Forte São João (1915).

 Foto Antiga do Canal de Bertioga SP (1915).

  Foto Antiga do Canal de Bertioga SP (1915).

  Foto Antiga do Canal de Bertioga SP (1915).

  Foto Antiga do Canal de Bertioga SP (1915).

  Foto Antiga do Canal de Bertioga SP (1915).

 Foto Antiga de Piquenique nos Anos 20 em Bertioga junto ao Forte São João.


📜 O olhar de Mário de Andrade — 1937

A situação do Forte São João chamou a atenção de pesquisadores e defensores do patrimônio durante a primeira metade do século XX.

Em 1937, Mário de Andrade destacou a importância histórica da fortificação e chamou atenção para a necessidade de sua preservação.

Em sua interpretação literária, estabeleceu uma comparação com a figura mitológica de Hércules e Ônfale, sugerindo uma transformação simbólica: a antiga força representada pela fortificação já não correspondia à sua condição física naquele momento.

A imagem de um monumento histórico deteriorado reforçava a necessidade de ações concretas de conservação.

A Sociedade Amigos de Bertioga, então presidida pelo médico Francisco Quartim Barbosa, também atuava em defesa da recuperação do patrimônio.


🏛️ O tombamento pelo patrimônio histórico — 1940

No Brasil, diferentes fortificações foram construídas desde o século XVI.

O Forte São João de Bertioga integra esse conjunto de construções militares coloniais e possui especial importância por sua antiguidade, localização estratégica e relação com a formação histórica do litoral paulista.

Em 19 de fevereiro de 1940, o Forte São João foi tombado como patrimônio histórico nacional pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — SPHAN, atual IPHAN.

O tombamento reconheceu oficialmente a importância cultural e histórica da fortificação.


🏛️ Rodrigo Melo Franco de Andrade e a preservação

Rodrigo Melo Franco de Andrade foi o primeiro diretor do SPHAN. Sob sua direção, a instituição reuniu pesquisadores, arquitetos, engenheiros, historiadores, restauradores e outros profissionais para realizar inventários, estudos e obras de conservação.

O tombamento do Forte São João ocorreu nesse contexto de formação das primeiras políticas nacionais sistemáticas de preservação do patrimônio histórico brasileiro.


⚔️ O Forte durante a Segunda Guerra Mundial — 1939/1945

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Forte São João voltou a exercer uma função militar.

O local serviu como quartel para os pelotões de vigilância dos 4º e 6º Batalhões de Caçadores.

A presença militar estava relacionada à necessidade de vigilância do litoral brasileiro diante da guerra e dos ataques a embarcações nacionais.


🧱 A grande restauração — 1941/1942

No início da década de 1940, o Forte São João apresentava condições preocupantes.

O terrapleno permanecia de pé, mas o quartel apresentava problemas estruturais, especialmente no telhado e em algumas paredes.

A vegetação também havia tomado conta de partes da construção.

A tenalha encontrava-se parcialmente destruída e algumas pedras haviam sido retiradas e reutilizadas em construções particulares.

Em 1941, foi iniciada uma importante restauração pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

O arquiteto Luís Saia ficou responsável pelos trabalhos. A restauração foi concluída em 1942.


📷 Fotografias da restauração — 1941/1942

Restauração do Forte São João. Paredes do quartel, atual Museu João Ramalho. O telhado foi substituído e algumas paredes foram refeitas.

Fotos do IPHAN. Autoria: Luís Saia. 1941/1942.

Registro das condições dramáticas em que se encontrava o quartel, atual Museu João Ramalho. Foto do IPHAN. Autoria: Luís Saia. 1941/1942.

As imagens são documentos fundamentais porque permitem visualizar o estado de conservação do monumento antes e durante a intervenção de restauração.


👮 Destacamento da Polícia Militar — 1944/1954

Entre 1944 e 1954, o Forte São João serviu como aquartelamento de um destacamento subordinado à Praça Militar de Santos.

 Fotos Antiga de Bertioga – Forte São João em 1944.

 Essa utilização demonstra que, mesmo após o tombamento, o espaço continuou associado a funções institucionais e militares.


🏺 O Museu João Ramalho — 1962

O Instituto Histórico e Geográfico Guarujá-Bertioga — IHGGB, fundado em 1958, teve participação importante na preservação do patrimônio histórico de Bertioga durante as décadas de 1960, 1970 e 1980.

Em 1960, o instituto recebeu do Ministério da Guerra três canhões do período colonial.

As peças foram transportadas de Santos para Bertioga pelo Departamento de Estradas de Rodagem — DER.

Em 1961, o instituto assumiu compromissos relacionados à manutenção do Forte São João.

A casa do forte, ou quartel, foi então restaurada para receber um museu.


🏺 A inauguração do Museu João Ramalho

O Museu João Ramalho foi inaugurado em 11 de abril de 1962.

O museu recebeu peças por meio de aquisições, doações e empréstimos.

A denominação homenageia João Ramalho, personagem associado às primeiras iniciativas de ocupação e defesa da região.

Quando inaugurado, o museu era composto por diferentes ambientes:

  • alpendre, onde ficava a capela;
  • sala de entrada;
  • espaço de comando;
  • quarto do oficial;
  • sala de refeições;
  • corredor;
  • sala de armas.

⚓ A Sala Hans Staden — 1965

Em 10 de janeiro de 1965, foi inaugurada a Sala Hans Staden.

O convidado de honra foi Gert Weiz, cônsul-geral da Alemanha em São Paulo.

A sala apresentava textos e imagens relacionados à vida de Hans Staden, sua passagem pela região e seus relatos sobre Bertioga, as fortificações e os conflitos entre indígenas e europeus.


🗿 O monumento em homenagem ao Rio de Janeiro — 1965

Em 27 de outubro de 1965, durante as comemorações do IV Centenário da fundação do Rio de Janeiro, foi inaugurado próximo ao Forte São João um obelisco em homenagem à fundação da cidade.

A obra foi executada por Alfredo Oliani. A homenagem estava relacionada ao fato de que a expedição de Estácio de Sá partiu da região de Bertioga em direção ao Rio de Janeiro.

O monumento posteriormente foi demolido durante as obras de implantação do Parque dos Tupiniquins, na década de 2000.

Fotos do jornal “A Tribuna de Santos” e do “Guia do Museu João Ramalho no Forte São João da Bertioga”, do Instituto Histórico e Geográfico Guarujá-Bertioga.


👨‍🔧 Antonio Francisco Barbosa — 1961/1984

Entre 1961 e 1984, Antonio Francisco Barbosa trabalhou como zelador do Forte São João.

Ao lado de sua esposa, Dona Francelina Ana Barbosa, cuidava da segurança, limpeza, conservação e atendimento aos visitantes.

Antonio nasceu em 11 de abril de 1922, em Ubatuba, e faleceu em 29 de junho de 1997, em Bertioga.

Chegou a Bertioga em 1961, quando surgiu a oportunidade de trabalhar nas atividades relacionadas à restauração do forte.

Após a conclusão das obras, permaneceu no local como responsável pela conservação. Além de receber visitantes, realizava trabalhos de pedreiro, carpinteiro, eletricista, encanador e jardineiro.

Seu trabalho representa uma dimensão muitas vezes esquecida da preservação: A atuação cotidiana de pessoas responsáveis pela manutenção direta dos monumentos históricos.

Antonio permaneceu nessa função durante aproximadamente 23 anos, até ser dispensado em setembro de 1984.


🌳 O Parque dos Tupiniquins — 2004

Em 2004, a Prefeitura de Bertioga desapropriou terrenos vizinhos ao forte e ao Museu João Ramalho.

As construções particulares existentes no entorno foram demolidas e a área passou a integrar o Parque dos Tupiniquins.

A intervenção ampliou o espaço público associado ao patrimônio histórico e permitiu uma nova relação entre o monumento, a paisagem e a população.


🗿 Cunhambebe no Parque dos Tupiniquins

No Parque dos Tupiniquins foi instalada uma estátua de Cunhambebe, importante liderança Tupinambá associada à resistência indígena no litoral.

A presença da escultura amplia a interpretação histórica do local, permitindo observar o passado de Bertioga não apenas pela perspectiva das fortificações portuguesas, mas também considerando a presença e a resistência dos povos indígenas.

A história da região envolve portugueses, franceses, Tupinambás, Tupiniquins, Guaianazes e outros grupos, em relações marcadas por alianças, conflitos, negociações e profundas transformações territoriais.


🏰 O Forte São João e a memória de Bertioga

O Forte São João atravessou quase cinco séculos de transformações.

De uma área estratégica de defesa da Barra de Bertioga, passou por diferentes fases de construção, destruição, reconstrução, reformas, abandono, utilização militar, tombamento, restauração e transformação em espaço cultural.

Sua história está ligada à formação de São Vicente, aos conflitos entre portugueses, franceses e povos indígenas, às expedições de Estácio de Sá, à trajetória de Hans Staden, às missões jesuíticas e à construção das primeiras estruturas militares coloniais do litoral brasileiro.

Mais do que uma antiga construção militar, o Forte São João é um documento histórico material.

Suas pedras, paredes, plantas, mapas, fotografias e transformações arquitetônicas ajudam a compreender diferentes períodos da história de Bertioga e do Brasil.


📸 Outras imagens Históricas do Forte São João em Bertioga SP

Cartão Postal de Foto Antiga de Bertioga SP.  Forte São João (s.d.).

 Foto Antiga de Bertioga SP – Forte São João em 1962.

Foto do “Guia do Museu João Ramalho no Forte São João da Bertioga”, do Instituto Histórico e Geográfico Guarujá Bertioga.

 Foto Antiga Bertioga SP.  Barca (1969) e ao fundo o Forte São João.

 Foto Antiga do Jardim do Canal Bertioga SP (1973).

Canal de Bertioga, vista para o Forte São João em 1973.

 Foto Antiga de Bertioga – Forte São João (1979).

 Foto Antiga do Forte São João em Bertioga em algum momento entre a década de 70 e 80.

 Foto Antiga de Bertioga SP.  Calçadão do Canal, Forte São João ao fundo – 1988.

 Foto Antiga do Canal de Bertioga SP (1988).

 Foto Antiga do Canal de Bertioga SP (s.d.).

 Foto Antiga de Bertioga SP – Forte São João (s.d.).

 Foto Antiga de Bertioga SP – Forte São João (s.d).

 Foto Antiga Bertioga SP. Vista do morro da Prainha (s.d.).

  Foto Antiga do Forte São João em Bertioga SP (s.d.).

  Foto Antiga do Forte São João em Bertioga SP (s.d.).

Foto Antiga de Bertioga SP: Forte São João (s.d.).

 Foto Antiga de Bertioga SP – Forte São João (s.d.).


🧭 Forte São João: Patrimônio, história e turismo

O Forte São João integra o roteiro do Circuito dos Fortes e permanece como um dos principais marcos históricos de Bertioga.

A visita ao monumento permite compreender a evolução das técnicas construtivas, da arquitetura militar e das estratégias de ocupação territorial ao longo dos séculos.

Também possibilita interpretar a história a partir de diferentes perspectivas: Indígena, portuguesa, francesa, militar, religiosa, arquitetônica, arqueológica e cultural.

Preservar o Forte São João significa preservar não apenas uma construção, mas também as diferentes memórias e camadas históricas que se acumularam nesse território ao longo de quase cinco séculos.

Para quem percorre Bertioga, o forte e o Canal formam um conjunto fundamental para compreender a história do litoral paulista e as relações entre patrimônio cultural, paisagem e turismo.


Para Roteiros de Turismo na Baixada Santista: WWW.R9TURISMO.COM


💬 Espaço do Leitor:🔰 Qual episódio da história do Forte São João e de Bertioga mais chamou a sua atenção: as primeiras fortificações, a presença de Hans Staden, a atuação de José de Anchieta, a resistência dos povos indígenas, as antigas fotografias ou as transformações do forte ao longo dos séculos? Conte para nós nos comentários! 🔰

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