🏛️ As ruínas conhecidas como Porto das Naus, localizadas na área continental de São Vicente, próximas à atual Ponte Pênsil, estão relacionadas a um dos mais antigos capítulos da ocupação colonial portuguesa no litoral paulista. O sítio é associado ao antigo Porto das Naus e às estruturas do engenho de açúcar de Jerônimo Leitão, construído por volta de 1580. Pesquisas arqueológicas realizadas no local encontraram vestígios materiais relacionados à produção açucareira, contribuindo para compreender a história desse importante sítio arqueológico.
Por ..:: Renato Marchesini: Historiador com Pós-Graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
Créditos ..:: Renato Marchesini
🗺️ Porto das Naus: Um lugar de diferentes tempos históricos
O Porto das Naus está situado na região do Japuí, em São Vicente, próximo à Ponte Pênsil. A tradição histórica relaciona o local à estrutura portuária utilizada desde os primeiros tempos da colonização portuguesa.
Fontes históricas e estudos patrimoniais registram que o Porto das Naus teria sido oficializado como trapiche alfandegário em 1532, durante a implantação da Vila de São Vicente por Martim Afonso de Sousa. Entretanto, pesquisas e estudos mais recentes ressaltam que existem controvérsias sobre a identificação precisa das estruturas atualmente visíveis com o antigo porto, razão pela qual é mais adequado apresentar essa associação com cautela.
A própria documentação patrimonial destaca que as ruínas atuais são relacionadas principalmente a um engenho de açúcar construído por Jerônimo Leitão por volta de 1580, possivelmente aproveitando estruturas anteriores existentes no local.
⛵ O antigo trapiche e a ocupação colonial
A posição geográfica do Porto das Naus era estratégica. A proximidade dos cursos d’água e das áreas de navegação favorecia o transporte de pessoas, mercadorias e produtos agrícolas, integrando a produção local às rotas marítimas.
Estudos sobre o litoral vicentino indicam que o Porto das Naus fazia parte de uma rede de estruturas portuárias e produtivas existente nos primeiros séculos da colonização. Com o passar do tempo, alterações na navegação e o assoreamento de trechos da baía contribuíram para reduzir a importância daquele espaço portuário.
Também existem referências históricas à antiga Capela de Nossa Senhora das Naus, posteriormente associada ao local, embora a identificação e a localização exata dessas estruturas sejam objeto de estudos e interpretações históricas.
⚔️ Jerônimo Leitão e o engenho de açúcar
Jerônimo Leitão foi uma importante autoridade da Capitania de São Vicente no século XVI, exercendo a função de capitão-mor em diferentes períodos.
Por volta de 1580, foi autorizado a estabelecer no local um complexo que incluía estruturas relacionadas à produção e ao armazenamento de açúcar. Estudos arqueológicos e históricos relacionam as ruínas existentes ao Engenho de Jerônimo Leitão, instalado na área anteriormente associada ao Porto das Naus.
A pesquisa arqueológica é especialmente importante porque permite diferenciar a tradição histórica das evidências materiais encontradas no terreno.
🧱 As ruínas e a arqueologia
As estruturas atualmente conhecidas como Ruínas do Porto das Naus são interpretadas como remanescentes de um engenho de açúcar quinhentista.
Pesquisas arqueológicas realizadas a partir de 2010, pelo Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas (CERPA), encontraram mais de 400 fragmentos de materiais relacionados ao funcionamento do engenho, incluindo fragmentos de formas utilizadas para a produção dos chamados pães de açúcar e estruturas relacionadas ao processamento do caldo de cana.
Esses vestígios são importantes porque ajudam a compreender não apenas a arquitetura do sítio, mas também as técnicas de produção açucareira empregadas no litoral paulista durante o período colonial.
🍬 Como funcionava um engenho de açúcar colonial
A produção açucareira dependia de várias etapas articuladas. A cana era cultivada nas proximidades e transportada até o engenho, onde o caldo era extraído e posteriormente processado.
Entre as etapas estavam:
- Moagem: a cana era esmagada em uma moenda para retirar o caldo.
- Cozimento: o caldo era levado às caldeiras, onde era aquecido e concentrado.
- Purgagem: o açúcar era colocado em formas, permitindo a separação progressiva dos cristais e do melaço.
- Secagem e armazenamento: o produto era preparado para armazenamento e transporte.
- Embarque: a proximidade das vias navegáveis facilitava a circulação das mercadorias.
No caso do sítio do Porto das Naus, os vestígios arqueológicos encontrados, como formas de pão de açúcar e estruturas associadas ao processamento do caldo, ajudam a confirmar a existência de atividades ligadas à produção açucareira.
🏺 Um sítio de sobreposição histórica
Uma das características mais interessantes do local é justamente a sobreposição de diferentes momentos históricos.
O espaço associado ao Porto das Naus teria desempenhado funções portuárias nos primeiros tempos da colonização e, posteriormente, recebeu estruturas relacionadas ao empreendimento açucareiro de Jerônimo Leitão.
Por isso, as ruínas não devem ser interpretadas simplesmente como um único edifício. Elas representam camadas de ocupação e transformação da paisagem, resultado das diferentes atividades realizadas naquela área ao longo do tempo.
Essa interpretação é reforçada pelas pesquisas arqueológicas, que procuram compreender quais estruturas pertencem ao engenho e quais podem estar relacionadas às ocupações anteriores.
🏴☠️ 1615: O ataque de Joris van Spilbergen
O engenho teve uma existência relativamente curta. Em 1615, São Vicente foi atingida pela expedição do corsário holandês Joris van Spilbergen.
Fontes históricas e estudos sobre os engenhos do litoral vicentino relacionam a destruição do Engenho de Jerônimo Leitão ao ataque ocorrido naquele ano.
O episódio deixou marcas na paisagem e contribuiu para a interrupção das atividades que eram desenvolvidas no local.
A documentação histórica sobre o ataque é particularmente interessante porque existem registros cartográficos e iconográficos relacionados à expedição de Spilbergen, inclusive uma representação dos portos de Santos e São Vicente em 1615, preservada pela Biblioteca Nacional.
🏛️ Patrimônio histórico e arqueológico
As ruínas do Porto das Naus possuem importância que ultrapassa a história de um antigo engenho.
O local permite estudar simultaneamente a formação de São Vicente, a navegação colonial, os primeiros circuitos comerciais, a produção açucareira, a arquitetura de pedra e cal e a transformação da paisagem costeira.
Documentos de planejamento patrimonial de São Vicente reconhecem o Porto das Naus como importante patrimônio histórico e registram sua proteção pelos órgãos de preservação.
Há, entretanto, uma questão importante para a interpretação histórica: A denominação “Porto das Naus” e a identificação das ruínas atuais com o antigo trapiche não são consensuais em todos os estudos. Pesquisas arqueológicas e documentais continuam sendo fundamentais para esclarecer a relação entre as estruturas portuárias anteriores e o engenho de Jerônimo Leitão.
📸 O Porto das Naus nas imagens históricas
Trapiche Porto das Naus, retratado na obra de Carlos Fabra – Acervo Casa Martin Afonso.
A representação de Carlos Fabra contribui para a construção da memória visual do local e para a compreensão de como o patrimônio passou a ser representado ao longo do tempo.
🌉 Porto das Naus e a Ponte Pênsil
Cartão-postal publicado pela empresa Wessel, em meados do século XX. Na imagem observa-se a baía interna e a Ponte Pênsil, vistas a partir da área das ruínas do Porto das Naus. O registro pertence ao Acervo Francisco Carballa / Novo Milênio.
A proximidade entre as ruínas e a Ponte Pênsil cria uma interessante sobreposição visual entre dois períodos muito diferentes da história de São Vicente: a paisagem colonial e a modernização da infraestrutura urbana do século XX.
🕰️ Foto antiga de São Vicente: Porto das Naus em 1910
Foto Antiga São Vicente SP: Porto das Naus (1910).
Foto Antiga São Vicente SP: (1910) Porto das Naus
Os registros fotográficos documentam o aspecto do sítio no início do século XX, período em que as antigas estruturas já eram compreendidas como vestígios de um passado distante.
🕰️ Foto antiga de São Vicente: Porto das Naus em 1920
Foto Antiga São Vicente SP: (1920) Porto das Naus.
📷 Foto antiga de São Vicente: Porto das Naus
Foto Antiga São Vicente SP: Porto das Naus (s.d.).
🧭 Um patrimônio para os roteiros históricos de São Vicente
As Ruínas do Engenho de Jerônimo Leitão e o espaço tradicionalmente associado ao Porto das Naus constituem um importante ponto de interpretação da história de São Vicente.
O local permite conectar diferentes temas em um mesmo roteiro: A presença indígena anterior à colonização, a chegada portuguesa, a formação da Vila de São Vicente, a navegação, os primeiros espaços portuários, a produção açucareira, a arqueologia histórica, os ataques corsários e a transformação da paisagem urbana.
Essa leitura integrada é especialmente importante para o turismo histórico e cultural, pois transforma a visita às ruínas em uma experiência de interpretação do território, e não apenas de contemplação de estruturas antigas.
🧭 Roteiros de Turismo Históricos e Culturais
Para conhecer propostas e informações sobre Roteiros de Turismo Históricos e Culturais em São Vicente e região, consulte o R9 Turismo: R9 Turismo
💬 Espaço do Leitor:
🔰 Você já visitou as Ruínas do Engenho Jerônimo Leitão e o antigo Porto das Naus? Que aspecto dessa história mais chamou sua atenção? 🔰





















